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Após a violência doméstica: um percurso da dor ao propósito por meio do empreendedorismo

A violência doméstica não começa no primeiro tapa. Nem existe apenas no soco ou no empurrão. Muitas vezes se instala em silêncio, nas palavras que diminuem, no controle disfarçado de cuidado e na identidade que se perde aos poucos.

Foi nesse contexto que cresceu a mulher que hoje transforma dor em propósito. A trajetória da empreendedora e palestrante Vanessa Manfio, 41 anos, reconhecida como case de sucesso do Sebrae, convida à reflexão sobre o que vivemos, sentimos e, principalmente, o que merecemos.

Como em muitas histórias, a repetição de padrões não surge por acaso. São ciclos, muitas vezes enraizados há gerações, que enfraquecem a autonomia e alimentam dúvidas constantes. “Mas eu tenho pena dele”; “E meus filhos? Como vou dar conta sozinha?” são as correntes invisíveis que aprisionam.

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Romper esse ciclo exige mais do que coragem. Exige apoio, informação e a reconstrução da autonomia. É nesse ponto que o empreendedorismo ganha um novo significado: não como ideia romantizada de “abrir um negócio”, mas como ferramenta real de recomeço, geração de renda e retomada da própria vida.

Empreender, para muitas mulheres, é o primeiro passo para voltar a decidir, redescobrir habilidades e transformar dor em potência. Um caminho difícil, mas possível e, acima de tudo, real.

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Da dor ao propósito

Filha de um homem autor de um feminicídio, Vanessa Manfio, 41 anos, carrega desde a infância as marcas de um lar tumultuado, de “nãos”, com agressões e desrespeito. A mudança de cidade, ainda criança, foi uma tentativa de recomeço. “A gente fugiu da dor. Mas não sabia que não é sobre o lugar, e sim sobre os padrões que a gente carrega”, relembra.

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A menina que cresceu em meio à violência se tornou uma adolescente e, depois, uma mulher que repetia relações abusivas; não por escolha consciente, mas por não conhecer outra realidade possível. “Eu também um dia acreditei que era confortável viver num relacionamento abusivo, porque eu vivia essa realidade. A gente se habitua a perder a voz, a acreditar que aquilo é o normal.”

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Sem condições financeiras, encontrou no trabalho a única forma de seguir em frente. Vendeu brigadeiros para pagar o transporte, encarou plantões hospitalares enquanto cursava enfermagem e construiu, com esforço, as primeiras bases da própria autonomia.

Mas o ponto de virada não veio apenas da superação material. Ele surgiu quando o corpo e a mente deram sinais de esgotamento. “A dor física, a gente reconhece; a emocional, negligencia. A depressão, a fragilidade, a vulnerabilidade nos adoecem porque não têm cor, não têm cheiro, não é palpável.” Foi nesse momento que começou a olhar para si, processo que daria origem à metodologia que ensina hoje.

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Transformar as dificuldades em caminho

A partir da própria experiência, ela desenvolveu o conceito que chama de “neuroclareza”: uma abordagem que une aspectos emocionais, cognitivos e comportamentais para ajudar outras pessoas a ressignificar suas histórias.

O trabalho começou de forma intuitiva, ainda em ações comunitárias e projetos sociais, como o da Festa de Debutantes proporcionada a estudantes da Escola Municipal Harmonia. Sem recursos financeiros, mas com forte capital de relacionamento, mobilizou pessoas, organizou iniciativas e impactou vidas. “Eu não tinha dinheiro, mas tinha vontade e pessoas que acreditavam. E isso fez tudo acontecer. Mas isso também era uma fuga do que eu vivia dentro de casa. Era mais fácil eu cuidar dos outros do que de mim.”

Mas o reconhecimento veio com o tempo. Tornou-se case de sucesso do Sebrae no empreendedorismo feminino e passou a atuar como palestrante, levando sua história e metodologia para diferentes públicos, de mulheres agricultoras a empresários, de professores a profissionais da saúde.

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Hoje soma milhares de pessoas impactadas, em cursos presenciais e online, alcançando inclusive alunos fora do Brasil. “São inúmeros cases empreendedores, de pessoas que duvidavam da sua capacidade e hoje fazem sua renda a partir de um incentivo, de voltar a cultivar um sonho, um objetivo profissional que foi deixado de lado.”

Mentora desde 2020, Vanessa ensina a recomeçar, alinhar as emoções e despertar potencialidades | Foto: Arquivo pessoal

Romper o ciclo

Mais do que falar sobre empreendedorismo, ela trabalha o autoconhecimento como ferramenta de ruptura. Para Vanessa, sair de uma situação de violência não é apenas uma decisão racional, é um processo profundo de reconstrução interna. “Muitas vezes não é só sobre separar. É sobre aprender a escolher diferente, reconhecer limites, entender o próprio valor e ser protagonista da própria vida.”

Ela também chama atenção para um ponto delicado: a permanência em relações abusivas não deve ser vista como fraqueza. “A pessoa não é vítima só do agressor. Ela fica condicionada àquele ambiente, não sabe viver fora dele.” Por isso, defende que o enfrentamento da violência passa também por informação, educação e fortalecimento emocional, além de políticas públicas.

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Empreender para recomeçar

O empreendedorismo aparece em 2020, como uma ferramenta de autonomia. Não apenas financeira, mas também emocional e identitária. “Eu ensino que empreender é algo que todos temos dentro de nós. É sobre reconhecer dons e talentos e transformar o maior desafio em propósito”, ressalta Vanessa. Ao incentivar outras mulheres a olharem para seus sonhos, muitas vezes esquecidos desde a infância, ela busca reacender possibilidades. “A dor faz a gente parar de sonhar. E esse é o maior problema.”

Foto: Arquivo pessoal

Uma história que continua

Mãe divergente de dois filhos, Vanessa Manfio foi casada por quase nove anos. Em 2019, ainda dona de um salão de beleza, o sonho do casamento perfeito começou a virar pesadelo, ao ver que já não era mais só ela quem estava sofrendo naquele ambiente. “É uma violência contra toda a família.”

A separação oficial ocorreu em 2022. Logo também veio a condenação do ex-companheiro pela Lei Henry Borel, que desde 2022 configura como violência doméstica e familiar contra a criança e o adolescente qualquer ação ou omissão que lhe cause morte, lesão ou sofrimento físico. 

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Hoje, Vanessa segue ampliando seu alcance e fortalecendo uma rede de apoio e transformação. Sua trajetória, marcada por extremos, tornou-se ferramenta de impacto coletivo. Ao compartilhar a própria história, faz um convite direto a quem vive situações semelhantes: olhar para si com mais verdade e coragem. “Não é sobre a história que eu vivi. É sobre o que cada pessoa decide fazer com a sua.”

No recomeço nasce uma princesa

Ao saírem de Erval Seco (município no Noroeste do Estado), em 1999 Vanessa veio com a mãe para o Vale do Rio Pardo e em 2001, aos 17 anos, conquistou o título de Princesa de Vale do Sol. “Vinte e cinco anos depois e eu carrego a coroa no coração. Não existe soberana de faixa e coroa, existe a mulher que, além da beleza, transborda essência. Não é só sobre sorrir, é sobre ser verdade.”

Empreendedorismo feminino

  • São 583 mil empreendedoras no Estado
  • 60% são as pessoas de referência no domicílio
  • 35% têm entre 40 e 54 anos
  • 34% são pequenos negócios
  • 84% têm a atividade há mais de dois anos
  • 51% são do setor de serviços
  • A atividade mais desenvolvida: beleza e estética

*Dados de 2025 do Sebrae RS

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Vanessa Behling

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Vanessa Behling

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