Querido Rafi,

Escutei uma voz falando em alemão algo como “não tenho dinheiro para todos teus desejos”, vinda do corredor ao lado, num supermercado em Berlin, esta semana. Voz de um cara que já tinha bebido algumas.

Seguiu-se um rápido bate-boca dele com sua companheira, que não consegui entender muito bem. Ato contínuo, cruzei com o casal pelas tantas andanças dentro do mercado, eu à caça de alguns acepipes que eu pudesse comer mais tarde no quarto do hotel torcendo pelo Egito contra Argentina. Eles eram punks, na casa dos quarenta anos os dois e ainda debatiam calorosamente, coisas de relacionamento de longo tempo, foi o que calculei. O cara tinha um moicano de uns trinta centímetros de altura, a sua senhora tinha cabelos azuis. Ambos bem alterados e aparentemente há alguns dias sem banho. Lembrei na hora da tua menção à Mädchen aus Rottweil. Estava ali na minha frente mais uma dessas histórias de amor.

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Tu vês, assim como os dramas domésticos terminam por abalar romances, também as pequenas coisas podem abalar visões e estratégias políticas. Esses dias li que a ex-chanceler Angela Merkel teria dito alguma coisa como “alguns pensam que é só reconhecer em público que a Alemanha tem imigrantes demais, que os eleitores vão achar que está tudo bem e deixar de votar no AfD… e não é assim que funciona”. Não sei se ela realmente algum dia falou isso, mas eu concordo com o conteúdo e para bom entendedor, uma frase dessas basta.

O que ocorre é que há duas questões importantes a debater, uma delas é a imigração sem critério; outra, mais recente, é a emigração, pasma, Rafi, dos próprios alemães! Sim, eles estão indo embora para países como Austrália (destino amado por eles), Noruega e até Estados Unidos. Principalmente os mais jovens, incentivados pelos pais, a construir a vida em outras paragens. Segundo pesquisa recente, até mesmo imigrantes decidem cair fora após algum tempo, em especial os com alta qualificação profissional.

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O que isso indica, no longo prazo, é o óbvio: a degradação da capacidade de progredir na tecnologia própria. E isso é fatal para uma nação desenvolvida. Felizmente, há uma pressão enorme da sociedade por mais projetos de desburocratização da vida do cidadão, racionalização dos benefícios sociais, entre outros. Para que o pessoal que produz, fique.

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E a gente vai ficando. Também porque cenas como a do casal punk no supermercado só acontecem em Berlin.

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Casualmente, eles pegaram a mesma fila do caixa, logo atrás de mim.

Após alguns minutos desenrolando minhas compras (sabes que na Alemanha não se pode mosquear na caixa do supermercado), antes de sair pude escutar o punk desabafar, suspirando, “Frauen machen Männer einfach fertig, genau das ist ihre Rolle”.

Viele Grüße und bis nächste Woche!

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Armando

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Guilherme Andriolo

Nascido em 2005 em Santa Cruz do Sul, ingressou como estagiário no Portal Gaz logo no primeiro semestre de faculdade e desde então auxilia na produção de conteúdos multimídia.

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