Rosa Maria Jaques e João Tochetto de Oliveira estiveram no Colégio Dom Alberto para verificar relatos paranormais
Durante o dia, os corredores do Colégio Dom Alberto ficam movimentados pelo vai e vem de estudantes, professores e funcionários. Nas salas de aula, a rotina segue marcada por provas, trabalhos e conversas. Porém, quando o silêncio toma conta do prédio histórico, pairam os relatos que atravessam gerações e despertam a curiosidade de quem acredita em fenômenos paranormais.
Foi em busca dessas narrativas que João Tochetto de Oliveira e Rosa Maria Jaques desembarcaram em Santa Cruz do Sul nesta semana. Conhecidos nacionalmente como Caça-Fantasmas Brasil, eles passaram dois dias percorrendo o antigo Colégio Sagrado Coração de Jesus – hoje Dom Alberto – em mais uma etapa da Expedição Rio Grande Central, que também passou por Balneário Arroio do Silva, Pantano Grande, Caçapava do Sul e São Gabriel.
A escolha da instituição de ensino não foi por acaso: um dos prédios mais emblemáticos do município, o Dom Alberto reúne mais de um século de história e concentra diferentes relatos de acontecimentos considerados inexplicáveis por quem convive diariamente com o espaço. Antes das visitas, a dupla pesquisou o histórico da instituição e conversou com funcionários sobre experiências vividas em diferentes ambientes do prédio.
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A investigação será divulgada por João e Rosa no canal que mantêm no YouTube, com mais de 492 mil inscritos e 4,8 mil vídeos – publicados ao longo de duas décadas – que registram expedições por supostos locais assombrados em todo o Brasil.
Há cerca de 30 anos, o casal percorre cidades brasileiras investigando relatos de fenômenos paranormais. Diferentemente dos personagens eternizados pelo cinema, eles combinam as percepções atribuídas por Rosa à sua sensibilidade com o trabalho de documentação conduzido por João, jornalista, professor de Rádio, TV e Cinema e responsável pelo registro audiovisual das expedições. Equipamentos de gravação, câmeras e medidores fazem parte das investigações, sempre acompanhados de pesquisa histórica e entrevistas com testemunhas.
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João salienta que o objetivo nunca é partir da convicção de que um lugar seja assombrado. “Buscamos mostrar a verdade”, resume. Ao longo das três décadas de trabalho, afirma que a dupla já encontrou situações que atribui ao sobrenatural, mas também descartou histórias alimentadas por boatos, interpretações equivocadas ou fraudes.
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As histórias fazem parte do cotidiano do Colégio Dom Alberto há décadas. São narrativas compartilhadas entre professores, funcionários e alunos que, de tempos em tempos, ganham novos capítulos. Luzes que se apagam sozinhas, passos pelos corredores, portas e janelas que se abrem sem explicação e até a aparição de uma jovem no quarto andar estão entre os episódios mais lembrados por quem trabalha na instituição.
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Professora do curso de Enfermagem desde 2009, Fernanda Karlz diz que convive com situações incomuns desde os primeiros dias na escola. No antigo quarto andar, onde lecionava, lembra que equipamentos eletrônicos frequentemente deixavam de funcionar, enquanto as luzes do corredor apagavam sozinhas à noite.
O episódio que mais a marcou, contudo, ocorreu após uma prova, quando encontrou uma jovem parada à porta da sala de aula. “Perguntei quem ela estava procurando, mas ela apenas ficou me olhando. Quando desci as escadas e pedi para o porteiro verificar a sala, não havia ninguém”, recorda.
Outros acontecimentos reforçaram a fama do prédio entre os funcionários. Na sala de práticas de Enfermagem, Fernanda conta que janelas voltavam a aparecer abertas mesmo depois de serem trancadas. Já no banheiro do segundo piso, presenciou luzes acendendo logo após serem desligadas e torneiras abrindo sem que houvesse alguém no local.
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Relatos semelhantes chegaram aos ouvidos da bibliotecária Maria Siqueira. Ela lembra de ouvir, em diferentes ocasiões, sons semelhantes ao folhear de livros entre as estantes. “Perguntei se havia alguém ali, mas não tinha ninguém. Voltei para conferir três vezes e o barulho continuava.”
Para o coordenador de Tecnologia da Informação, Jonas Barden, as histórias sobre uma suposta freira caminhando pelos corredores sempre fizeram parte do imaginário da escola. Apesar da curiosidade despertada pela investigação, ele encara os relatos com naturalidade. “Estamos aqui diariamente e não se tem relato de nada que assuste”, afirma.
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Para Fernanda Karlz, acompanhar de perto os dois dias de investigação foi tão marcante quanto as experiências que diz ter vivido ao longo dos anos. “Sempre tive muita curiosidade de saber o que realmente acontecia lá dentro. O que a Rosa relatou clareou muito tudo o que presenciei durante esse tempo na escola”, disse.
O momento que mais a surpreendeu, segundo a professora, foi quando Rosa mencionou detalhes envolvendo uma irmã apelidada de Severa, relacionados a um episódio vivido durante um estágio no Hospital Santa Cruz há quase três décadas. “Comentei com uma colega que também participou daquela situação e ela ficou muito surpresa.”
Fernanda disse ter se emocionado ao ouvir referências ao trabalho desenvolvido pelas religiosas que marcaram a história da instituição. “Fiquei muito feliz porque elas reconheceram meu trabalho como professora de Enfermagem.”
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Quem também acompanhou parte da investigação foi o ufólogo Rafael Amorim, apresentador da série Esquadrão UFO, do History Channel. Integrante da Associação Mundial de Pesquisa do Paranormal, ele conhece João e Rosa há alguns anos e destaca o caráter investigativo do trabalho feito pelo casal. “São pessoas sérias dentro da área em que atuam e sempre procuram documentar aquilo que pesquisam”, afirmou.
Para Amorim, o momento mais marcante foi perceber que determinados ambientes apresentavam características diferentes durante a investigação. Na avaliação dele, um dos espaços da escola merece estudos mais aprofundados para compreender os relatos associados ao lugar. “Foi uma experiência muito interessante acompanhar uma pesquisa de campo dessa natureza”, resumiu.
Muito além dos relatos sobre supostos fenômenos paranormais, a passagem do Caça-Fantasmas Brasil pelo Colégio Dom Alberto voltou os olhares para um dos edifícios mais emblemáticos de Santa Cruz do Sul. As Irmãs Franciscanas chegaram à então Vila de São João de Santa Cruz em 1874 e, no ano seguinte, inauguraram uma pequena escola. Ampliado ao longo das décadas, o prédio tornou-se um marco da educação santa-cruzense e permanece como um dos principais patrimônios históricos e culturais do município.
Para João Tochetto de Oliveira, investigações em construções antigas também ajudam a resgatar a memória dos lugares. Segundo ele, o interesse do casal vai além dos relatos de assombrações e busca compreender a história preservada em cada ambiente. “O olhar para esses lugares acaba trazendo a história deles. Para nós, não é questão de dizer que um prédio é mal-assombrado. São lugares onde aconteceram muitas coisas. As pessoas viveram, sofreram, trabalharam e até morreram ali. É essa história que fica impregnada nesses ambientes.”
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O jornalista ressalta que o canal do casal já documentou investigações em mais de uma centena de museus e prédios históricos brasileiros. Na visão dele, quanto mais preservado um espaço permanece, maior é sua capacidade de contar a trajetória das pessoas que passaram por ali. “Esses lugares têm uma intenção histórica. Eles guardam as marcas do que foi vivido. É é isso que torna cada investigação tão rica.”
A professora Fernanda Karlz acredita que esse também seja um dos principais legados da visita ao Dom Alberto. “A relevância das irmãs como educadoras e formadoras de profissionais da Enfermagem merece todo reconhecimento na nossa história. O trabalho do casal traz um entendimento sobre os fenômenos relatados nesses lugares antigos e reforça o respeito por quem construiu e dedicou uma vida inteira à educação e à saúde da nossa comunidade.”
A trajetória do Caça-Fantasmas Brasil começou muito antes da criação do canal no YouTube. Natural do Rio Grande do Sul, Rosa Maria Jaques afirma conviver desde a infância com experiências que atribui à paranormalidade. Nos anos 1990, conheceu João Tochetto de Oliveira, jornalista, produtor audiovisual e professor de Rádio, TV e Cinema. A partir da experiência na comunicação, ele passou a registrar em vídeo as investigações conduzidas por Rosa, dando origem ao projeto.
Hoje o casal soma dezenas de expedições pelo País, sete livros publicados e um canal dedicado a registrar investigações em locais marcados por relatos de supostos fenômenos paranormais. Além das expedições, João e Rosa atendem famílias que acreditam vivenciar experiências paranormais em suas casas.
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“Nós só mostramos, de uma forma simples e objetiva, o que foi escondido ou traduzido pela cultura e pela religião”, afirma Rosa. Para ela, compreender essas situações ajuda a reduzir o medo que muitas pessoas sentem diante do desconhecido. “Também mostramos quando não é sobrenatural. Muitas vezes é fantasia, doença ou fraude”, diz João.
Acostumados com críticas e brincadeiras desde que adotaram o nome Caça-Fantasmas Brasil, dizem encarar o ceticismo com naturalidade. Para João, a curiosidade costuma falar mais alto. “As pessoas dizem que não acreditam. Mas bastam alguns minutos de conversa para começarem a contar experiências que viveram.”
Depois de dois dias de investigação, João e Rosa afirmam que não identificaram sinais de uma presença hostil no Colégio Dom Alberto. A interpretação apresentada pelo casal é de que os relatos ouvidos durante a visita estariam ligados à própria história da instituição e à memória afetiva construída por gerações de alunos, professores e pelas Irmãs Franciscanas que fundaram a escola.
Na avaliação da dupla, esses relatos não representam perigo para quem frequenta o prédio. “Não era nada negativo. Era só a lembrança do passado que estava se manifestando”, afirma João. Segundo ele, a investigação indicou uma sintonia entre a história da antiga instituição e o momento vivido atualmente pelo Dom Alberto.
Ao encerrar a passagem por Santa Cruz do Sul, João deixou um convite que resume a proposta do trabalho desenvolvido ao lado de Rosa: “Se você souber de algum lugar mal-assombrado, de uma família que está precisando de ajuda, chame os caça-fantasmas.”
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