Colunistas

Chegadas, despedidas e retornos

Boa parte de nosso tempo é dedicado às chegadas, até porque precisamos de um certo prazo para perceber que chegadas e despedidas não se opõem, mas se complementam em retornos modificatórios, independentemente de nossa idade ou fase da vida. Talvez você, que nos honra com seu tempo e leitura, nos acompanhe com suas vivências de idas e vindas, chegadas e partidas, pois as estações que recepcionam também nos destinam. E estações costumam ser coletivas, o que nos irmana no percurso de nossas coexistências.

Assim ambientado, desembarquei, há dois finais de semana, na Rodoviária de Porto Alegre. O filho Rodrigo e netos Sofia e Arthur nos aguardavam. O momento vibrou em satisfação, que se ampliou ao contato da filha Aline, que enviava, pelo WhatsApp, a imagem do neto Augusto e me perguntava se havia chegado bem. Já instalados no apartamento do Rodrigo, que, mesmo proativamente atento aos eventos relativos aos 55 anos do Hospital de Clínicas, de Porto Alegre, onde atua como jornalista, preocupou-se em perguntar: “pai, onde gostarias de ir nesta manhã de domingo?” Olhei pela janela de onde se vê a chaminé da Usina do Gasômetro: “estou com saudades das águas do Guaíba”. E para lá nos encaminhamos, sentindo o vento úmido que nos convidava à visita. Dos blocos de rocha junto à água fizemos assentos. Águas de um rio de chegadas, vindas de tantos lugares, de tantas fontes originárias, conhecidas ou não… De um rio de despedidas, pois logo adiante se faz Laguna e Oceano… De um rio de retornos, feito chuvas e cerrações, inundações e estiagens.

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Regressamos pela Rua Duque de Caxias. Passamos em frente ao prédio que abrigava a Editora Padre Reus. Jesuíta João Batista Reus (1868-1947), uma referência materna que a ele nos recomendava frente às aflições e pretendidas esperanças. Alcançamos o edifício onde já moramos: que saudades da Verinha. Saudades feito presença a cada passo em descompasso com a finitude que igualmente nos retorna à neblina que embacia o olhar, tornando-o ainda mais nítido. Logo adiante, comentamos acerca de nosso tempo no Palácio Piratini, das pausas na Praça da Matriz e das pesquisas na Biblioteca Pública. No sábado, havíamos transitado junto ao prédio que abriga a Fepam, adentrado no Mercado Público, subido os degraus do Museu de Arte (Margs) e da Igreja das Dores, circulado por feirinhas e sebos, observado as árvores e seus pássaros, caminhado por calçadas e entre pessoas, sem saber se voltavam ou chegavam. À semelhança de estações, as ruas, de todos os lugares, também orientam idas e vindas e permitem retomadas de itinerário.

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Não será nossa trajetória um continuado ir e vir, chegar e partir, despedir e retornar; entendendo que o retorno não se repete em similitude originária? A cada reencontro, tanto os lugares e suas circunstâncias quanto nós mesmos não nos apresentamos como os mesmos, especialmente em tempos de acentuadas mudanças climáticas, pois fluímos transformatoriamente.

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Todavia, as águas, continuadamente renovadas, que aportam aos oceanos não serão coexistenciais às que refrescam nosso rosto nos amanheceres das chegadas, o suavizam nos entardeceres das despedidas e nos recepcionam nos retornos em fluxo feito de evidências, lacunas e possibilidades sequer imaginadas? Fluir nos universaliza, futuriza, aflige e encanta, liberta!

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Karoline Rosa

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Karoline Rosa

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