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JOSÉ ALBERTO WENZEL

O sonho das rochas

Todos temos nossos desejos. Alguns realizamos, outros guardamos para a melhor oportunidade e muitos, os mais secretos, preferimos manter incógnitos. O mesmo acontece com as demais criaturas. Também as rochas têm seus sonhos, mesmo que disso algumas pessoas duvidem ou façam pouco caso. Tem mais, as rochas respiram. Sim. São organismos vivos. Mas então é preciso rever tudo o que se costuma dizer sobre a vida, o que é orgânico e o que não é, acerca do complexo e do simples; até precisamos repensar a vida e a morte? Por certo. Mas enquanto isso, vos conto três sonhos rochosos: o das argilas, dos arenitos e basaltos.

Comecemos pelas argilas. O sonho delas vem de longe, por isso tão poderoso e com tanta vontade de reviver os tempos em que se organizavam em lagos e rios, arroios, riachos, sangas e brejos. Elas lembram de seus habitantes. Os mais conhecidos até hoje são os grandes sáurios. Consideremos os fósseis que se deixam descobrir aqui e ali. Mas havia muitas outras existências, a grande maioria delas ainda não reveladas aos humanos, até porque estes andam tão atarefados com a correria do dia a dia que pouco enxergam além disso.

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Todavia o ambiente mudou; e as areias, levadas pelos ventos, encobriram boa parte das argilas. Foram tempos difíceis, bem ao jeito dos desertos. A vida das planícies deu lugar às dunas que se transformaram em arenitos. Nem as mais resistentes criaturas escaparam das enormes dificuldades. Daí o sonho do arenito: preencher seus poros com água para que a vida retornasse em sua plenitude. Além de se possuir pela água, o arenito imaginava seu corpo feito aquífero pródigo em fontes. Percolado pelas águas, o arenito poderia irrigar e dessedentar a tantos que um novo universo verteria.

Enquanto isso, uma poderosa força brotava do fundo da Terra. Força de potência tectônica capaz de modificar relevos e estruturas geológicas. Ouviram-se estrondos, estruturaram-se fraturas e imensas crateras se abriram. Das profundidades, sequer imaginadas, romperam as ígneas lavas vulcânicas que a grandes superfícies recobriram. Magma que foi serenando, pois de seu calor emanava o sonho de se preparar para receber e sustentar outras criaturas. As lavas incandescentes se fizeram terra fértil em alento vital.

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Eis que as rochas se encontraram em promissora união. Firmaram um acordo: realizariam seus sonhos de forma conjunta, sinergizando, coabitando. Ao propósito, as condições ambientais se fizeram potentes. As rochas e suas interações passaram a vibrar em exuberante e incluidora vitalidade coletiva de múltiplas interfaces. E assim, nasceu a pulsante “casa Cinturão Verde” de Santa Cruz do Sul.

Vos acrescento que, junto à “casa Cinturão Verde”, uma pessoa de todas as idades segura uma lapiseira. Agora, retira do bolso uma caderneta. Rabisca apontamentos. Esboça três sistemas aos quais associa tensões, fissuras e complementariedades. Estará tentando interpretar os sonhos, ou entender a pulsão em destruí-los?

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