“Mamei num seio tão antigo e tão imemorial como a raiz da terra ou o dogma de uma religião que me prometeu a imortalidade. Foi ela quem aplaudiu os meus primeiros sons e foi a primeira mestra dos meus passos, a que sempre me recebeu com um sorriso e de mim se despediu em pranto e em desalento. (..)
Não é certo que ela, a mãe, já esteja morta: continua sentada no meio da casa, de rosto distraído e coração amargurado, divagando o olhar por tudo o que sempre ficou aquém das paredes (..); está talvez deitada em sua cama baixa, sólida, muito larga; ei-la, ainda e sempre, desperta e à escuta, vigiando a noite e a respiração de cada filho – naquela que não é apenas uma cama, mas o altar da casa, o eixo invisível da terra, o centro do mundo.
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Ainda que seu corpo se resigne à forma e à função vital do amor e do envelhecimento, ela não tem sexo, a mãe. Todos nascemos dela, é certo, mas sem nunca termos sido feitos nela. Se durante nossa vida houve uma espécie de hemisfério noturno que sempre a trouxe tão rotundamente grávida, foi porque a mãe era árvores ou pomar (..). Deu flor e fruto, viveu os ciclos do tempo, amou as vozes que vieram anunciadas no vento. (..) A única imaginação do corpo são seus braços muito leves, os beijos sonoros, o açúcar de um seio, o alimento moral e esse templo onde entramos, para que ele fosse único, só nosso (..).
Não me recordo do corpo, nem da roupa, nem da idade nem das doenças dela. Não sei mesmo de que males faleceu nem de que tormentos foram feitas a vida e a morte daquela que desde sempre me privou de seus mais íntimos segredos. Não me lembro de que parte dela saía uma voz a dizer boa noite, de onde vinha a sua maneira de ver sem precisar olhar, ou por que mistério nela se fundiam todos os sentidos num único sentido. A mãe do homem, aquela que lhe deu o ser e a confiança, a atenção e o esquecimento, sob um ventre perpetuamente grávido, o ser primordial e definitivo da própria existência – pertence a uma mulher única, pessoal e intransmissível, a uma mulher que talvez nunca tenha existido.”
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João de Melo, que já esteve na Feira do Livro de Porto Alegre, é um dos maiores escritores portugueses. Natural da Ilha de São Miguel, Açores. Na apresentação desse livro, vai ao dicionário para mostrar as diversas acepções de paixão (do latim: passione, “sofrimento”): sentimento profundo; bem querer estrito (..) que assume por vezes o caráter de um afeto violento; grande desgosto; (..) o martírio de Cristo (..).
Quão grande e larga é a Paixão! E como faltou-me coragem para falar na minha mãe. Diante dos mitos em que acreditei, deixei de vê-la como um ser de desejos, aspirações, limites e paixões.
Obrigada, sempre, por me lerem e mandarem recados!
(*) MELO, João. Dicionário de Paixões – CÍRCULO DE LEITORES ( licença editorial de Publicações Dom Quixote), maio de 1996, Lisboa, Portugal, pp 137-140.
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