Regional

Em duas décadas, região registra 120 mil casos de acidentes e doenças do trabalho

Em 28 de abril, próxima terça-feira, celebra-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças Relacionadas ao Trabalho. A data surgiu após a explosão em uma mina em Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, que resultou na morte de 78 trabalhadores e deu início a um movimento por mais segurança.

No Brasil, o dia resultou na realização da campanha Abril Verde, criada em 2014, com o intuito de promover a segurança e a saúde no trabalho. Durante o mês, ocorrem atividades voltadas à prevenção e à melhora da qualidade de vida, do bem-estar e do respeito aos trabalhadores.

Os dados revelam a necessidade do movimento: conforme a Previdência Social, somente em 2025 foram concedidos, no Brasil, 546.254 benefícios relacionados ao afastamento por transtornos mentais. A maioria (346.613) foi destinada a mulheres, o equivalente a 63,46%. 

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O número superou o registrado em 2024, quando o Ministério da Previdência Social apontou 472.328 afastamentos por transtornos mentais, aumento de 15%. Isso evidencia a gravidade do problema.

Quanto aos acidentes de trabalho, o Ministério do Trabalho e Emprego registrou mais de 1,6 mil mortes somente no primeiro semestre de 2025. De 2012 a 2024, ocorreram 8,8 milhões de acidentes e 32 mil mortes de pessoas com carteira assinada. 

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Diante dos números alarmantes, entidades têm agido para estimular a prevenção e o cuidado com a saúde na rotina das empresas. Em Santa Cruz do Sul, o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador Regional (Cerest Vales) realizou, no dia 16, o encontro Abril Verde na Região dos Vales, voltado à conscientização sobre saúde e a segurança, com debates sobre doenças e acidentes de trabalho.

Em duas décadas, região registrou 120 mil casos

No dia 18 de fevereiro de 2025, Roberto Carlos Ramos, de 38 anos, sofreu um acidente de trabalho no asilo onde trabalhava, localizado em Candelária. Passava das 22 horas quando, durante a revisão dos leitos, ele caiu de uma escada. Segundo Roberto, um dos degraus da escada era mais curto que o outro e o lugar não tinha iluminação, resultando na queda. 

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Com isso, Roberto rompeu o tendão do pé direito, além de outras sequelas que ocorreram em consequência do acidente, incluindo na coluna. Um ano depois, o morador de Candelária, casado e pai de uma criança, continua impossibilitado de trabalhar. Além das dores físicas, também lida com crises de ansiedade.

No período em que esteve afastado, ele teve dificuldade de obter ajuda financeira, demorando cerca de quatro meses para receber auxílio do INSS. A família precisou vender o carro e passou a depender de um estabelecimento comercial aberto pela esposa. Desde então, Roberto passou a ver a segurança no trabalho de outra maneira. No dia 16 de abril, ele deu o seu depoimento no evento voltado à campanha do Abril Verde. “Meu caso poderia ter sido evitado. Precisamos de mais segurança. Ela precisa vir em primeiro lugar”, defendeu. 

Roberto faz parte das estatísticas de doenças e agravos relacionados ao trabalho na região dos Vales, que nas últimas duas décadas registrou 120 mil casos. Entre eles estão acidentes e situações de lesão por esforço repetitivo (LER/Dort). 

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Conforme o Cerest Vales, somente em 2024 foram notificadas 9.753 ocorrências de Dart nos 62 municípios de abrangência, o que correspondeu a 11,7% do total registrado no Rio Grande do Sul durante o período. Isso significa que, a cada mil trabalhadores, 20 se acidentaram ou adoeceram. Nesse período, houve o registro de 63 mortes.

A maioria das notificações de Dart na região dos Vales em 2024 corresponde a acidentes de trabalho. Foram 8.966 casos, o equivalente a 91,9%. 

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Segundo a médica do trabalho Adriana Skamvetsakis, integrante do Cerest regional, trata-se do tipo de agravo mais notificado na região e no Brasil. A principal explicação, segundo Adriana, é que a ocorrência de acidentes é facilmente identificada, assim como seus efeitos (lesões) e sua relação com o trabalho. 

Entre as atividades econômicas com mais ocorrências estão os setores da agricultura, indústria de transformação, construção civil e comércio. Os acidentes mais comuns são os típicos, impactos causados por objetos projetados, quedas e contato com máquinas em geral. Já entre os de maior gravidade destacam-se queda de altura elevada, contato com máquinas agrícolas, choque elétrico e acidentes de trânsito.

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Perfil dos acidentes

A maioria dos casos, 7.025, envolveram homens, ou 72%. Além disso, 3.180 referem-se a trabalhadores de 18 a 29 anos. Conforme a equipe do Cerest Vales, o maior volume de registros de acidentes geralmente está ligado a atividades socialmente atribuídas a homens, incluindo operação de máquinas, veículos e uso de ferramentas manuais. Em relação à faixa etária jovem, é possível considerar inexperiência, impulsividade e exigência de força, entre outras. 

Em muitos casos, os trabalhadores não possuem acesso aos equipamentos de proteção ou sequer têm conhecimento sobre a importância de usá-los. Também é comum a falta do uso de equipamentos de proteção individual, além de máquinas e equipamentos sem manutenção adequada. 

Impactos sociais

Os acidentes de trabalho não trazem apenas sofrimento físico e psicológico dos trabalhadores. Conforme a equipe de profissionais do Cerest Vales, eles resultam em perda de renda, dificuldade de reinserção no mercado de trabalho e, consequentemente, aumento da informalidade. “Isso sem falar nos casos em que o trabalhador fica com uma sequela permanente que pode gerar incapacidade permanente para o trabalho”, reforça a fonoaudióloga Fabiane Zardo Brettas.

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Além do impacto social resultante de um agravo ou da doença relacionada ao trabalho, Fabiane ressalta que a maioria dos casos é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que pode impactar significativamente o aumento da demandas do sistema público, incluindo consultas, exames, tratamentos nas área de traumatologia e fisioterapia, entre outras.

Em casos de acidente que resultam em afastamento, as empresas precisam arcar com o custo do salário por 15 dias. Depois desse período, o funcionário é encaminhado para receber benefício no INSS. A substituição do empregado pode implicar em custos de treinamento ou contratação de outro trabalhador.

“Para a Previdência Social, há o custo da manutenção do benefício a esse trabalhador pelo tempo que durar o afastamento, ou se for necessário que o segurado seja aposentado por invalidez, para toda a vida”, salienta Fabiane.

Crescem os afastamentos por doenças mentais

A equipe de profissionais do Cerest Vales destaca o aumento, ano após ano, das doenças relacionadas ao trabalho, sendo as lesões por esforço repetitivo (LER/DOT) as mais comuns. Somente em 2024, foram 308 casos, o que corresponde a 63,2% das ocorrências. 

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Em seguida vêm os transtornos mentais relacionados ao trabalho, com 77 registros (15,8% do total) em 2024. Na área de abrangência do centro, os setores com maior número de notificações são as indústrias de transformação e administração pública, defesa e seguridade social.

Patrícia de Souza Fagundes, psicóloga do Cerest Vales, afirma que as demandas de saúde mental têm crescido significativamente nos serviços de saúde de toda a rede, muitas delas associadas ao modo de vida e de trabalho. Conforme o Observatório Saúde e Segurança no Trabalho, em Santa Cruz do Sul, os afastamentos por saúde mental passaram de 160 casos em 2023 para 287 em 2024. 

O município segue a tendência do Estado, que passou de 25.508 em 2023 para 38.957 em 2024. Já no Brasil, os afastamentos saltaram de 283.345 para 471.649 no mesmo período. 

Conforme Patrícia, quadros de sofrimento mental com sintomas como ansiedade, insônia, doenças psicossomáticas são alguns dos problemas que mais aparecem nas fichas de notificação de transtornos mentais relacionados ao trabalho do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (Sinan). Em 2024, a macrorregião dos Vales apresentou maior notificação de transtornos ansiosos e síndrome de Burnout.

Aspectos organizacionais do trabalho, segundo a profissional, estão entre os principais fatores psicossociais. Na indústria, destacam-se exigência de produção, metas abusivas, sobrecarga, longas jornadas, ausência de pausas e impossibilidade de interação entre os trabalhadores. Já na administração pública, são agravantes os modelos de gestão abusivos, pouca autonomia dos trabalhadores, sobrecarga e demandas crescentes.

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Apesar de visar ao aumento da eficiência e da produtividade, as metas, a pressão e as jornadas impostas pelo modelo de trabalho atual resultam, na prática, em consequências negativas. Patrícia menciona como exemplos redução de desempenho, absenteísmo (ausência ou falta prolongada dos trabalhadores) e presenteísmo (quando o trabalhador está presente, mas não está realmente engajado ou produtivo). 

A psicóloga ressalta que os trabalhadores experimentam prejuízo na qualidade de vida e nas relações pessoais. Segundo ela, o trabalho não envolve apenas a subsistência das pessoas, também representa maior valor simbólico e de reconhecimento social. E tem ainda um papel organizativo na nossa vida, definindo a rotina e o modo de viver. 

“Questões como a hora em que acordamos, em que nos alimentamos, em que convivemos em família e em comunidade, em que nos dedicamos (ou não) a atividades de lazer, de atividade são todas definidas pelo trabalho. Para a saúde mental, as questões sociais são condicionantes e determinantes, e isso inclui o trabalho”, afirmou.

Segundo a médica do trabalho Adriana Skamvetsakis, fatores como pressão excessiva, sobrecarga, longas jornadas, pouca autonomia, competitividade, relações hierárquicas rígidas e autoritárias, assédio e violência, entre outros, impactam de maneira significativa e nociva a saúde mental, levando a casos de sofrimento e de adoecimento no trabalho e pelo trabalho.

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Fique atento

Principais gatilhos no ambiente de trabalho que levam ao adoecimento mental

  • Acidentes de trabalho graves e fatais, vivenciados ou presenciados
  • Pressão no trabalho
  • Sobrecarga
  • Jornadas longas
  • Falta de autonomia
  • Competitividade
  • Relações hierárquicas rígidas e autoritárias
  • Assédio e violência

Casos de doenças nos vales

Foram 308 casos, correspondendo a 63,2% das ocorrências.

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Prevenção

Diante do número de registros de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, a equipe do Cerest Vales ressalta que as empresas devem cumprir as normas e medidas de segurança, sobretudo a educação em saúde do trabalhador, levando conhecimento sobre os riscos e medidas de prevenção. As profissionais reforçam que as empresas precisam investir mais na proteção coletiva e repensar os processos de trabalho. 

Elas orientam os empregadores a repensarem seus processos e modelos de gestão. É possível, por exemplo, instituir pausas e metas realistas e proporcionar maior autonomia aos trabalhadores, promover um ambiente colaborativo com incentivo ao bem-estar, assim como a abertura de espaços de escuta ativa e o combate aos estigmas sobre a saúde mental.

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Subnotificação

A equipe do Cerest Vales acredita que há subnotificação de casos, o que resulta em dados que não representam a realidade dos trabalhadores. Isso compromete a análise da distribuição das ocorrências e dos fatores determinantes de agravos e doenças relacionados ao trabalho, algo fundamental para a elaboração dos projetos de prevenção. 

“Enquanto os acidentes são facilmente identificados, assim como a relação com o trabalho, por outro lado, o registro de doenças depende de uma avaliação da relação com o trabalho, o que, muitas vezes, resulta em subnotificação”, afirma a fonoaudióloga Fabiane Zardo Brettas.

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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Julian Kober

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