Valesca de Assis

Envelhecer: uma aventura a esquecer

Entre dois e três anos atrás, decidi que meu próximo livro acompanharia meu envelhecimento, e todas as perdas que teria, fossem físicas, cognitivas e psíquicas. O livro iniciaria assim:

“Cheguei uma semana atrasada ao neurologista. Cedo, bem cedo, antes das 9, no dia 10 de novembro. Mas a consulta teria sido no dia 3. A atendente mostrou-me o erro. Fiquei paralisada; não podia voltar para casa sem nada nas mãos. A moça me acalmou. Sente-se, aguarde um pouco, sugeriu. Se a cliente das 9 não vier, encaixo a senhora.

 Às nove e vinte entrei na consulta mais importante da minha vida, porque a paciente das 9 falhara. Teria esquecido?”

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Aconteceu comigo, foi real.  O médico me recebeu, ouviu, perguntou, fez exames clínicos e solicitou provas de imagens. Na segunda consulta, quinze dias depois, observou as imagens, aplicou-me vários testes cognitivos e disse que eu estava com problemas na “área executiva” do cérebro e que, aos oitenta, essa era uma boa notícia.  Emocionada, contei a ele o meu plano literário. Achou muito bom e garantiu que, se eu conseguisse, ajudaria muitas pessoas surpreendidas pelo envelhecimento. Me senti o máximo.

Comecei a pesquisar, primeiro, o sentido do envelhecer, a sabedoria acumulada, a honra que os velhos mereciam em muitas culturas e, o melhor de tudo, saber que o venerável  Lao-Tsé  nasceu com cabelos brancos, aspecto de um velho e que seu nome significava Velho Mestre. E soube, também, que Buda era considerado o irmão mais velho do Mundo. Eu não cabia em mim. 

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Minha empáfia começou a vazar quando voltei à vida real. Quem nunca, dentre os 70+:

* esqueceu o celular no balcão de uma loja ou Banco?

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* procurou, por toda a casa, os óculos que estavam na própria testa?

* perdeu a chave de casa na rua ou num táxi? 

* trocou os nomes dos filhos, dos gatos ou dos cães?

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* quando perguntado, olvidou o número do próprio telefone, o endereço de casa?

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Ficar meio esquecido, distante do trivial, dava até um certo charme. Era um atributo do velho sábio.

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Minha tese terminou de murchar quando a vizinha, de uns trinta anos, apareceu, indagando se eu tinha uma mala bem grande para emprestar:

– Só duas pequenas – respondi. – Os velhos não usam malas grandes e pesadas. Para o que precisa da mala grande?

– É que vou fazer uma viagem grande e longa com meu marido e as crianças e queremos despachar uma mala bem grande, para não termos que cuidar de várias pequenas. Podemos esquecer, perder alguma.

– Não vai acontecer, menina, vocês são jovens…

– A senhora nem sabe – ela interrompeu. – ontem deixamos as crianças com os avós e fomos até à casa de praia, pois lá tinha ficado nossa mala maior. Fomos buscá-la. 

– E?

– Na volta, quando abrimos o porta-malas, onde estava a mala? Só encontramos o que devíamos ter deixado lá: o lixo da casa da praia. 

Obrigada por me lerem!

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Karoline Rosa

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Karoline Rosa

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