Educação

Escola não pode substituir o papel da família, diz psicólogo

“Os pais desejam que a escola seja uma segunda família. Mas isso só acontece quando a família é a primeira escola.” A afirmação do psicólogo e escritor Rossandro Klinjey deu o tom da palestra realizada nessa quarta-feira, 22, que marcou o fim do 35º Congresso de Professores da Rede Sinodal de Educação, sediado pelo Colégio Mauá.

Na avaliação do especialista, um dos principais desafios da educação brasileira é o afastamento de muitas famílias da formação emocional e moral dos filhos, transferindo à escola responsabilidades que não lhe pertencem. Klinjey afirmou que essa mudança no comportamento das famílias tem aumentado a pressão sobre os educadores e contribuído para o adoecimento da categoria. 

“O maior desafio da escola hoje não é nenhum aluno em si, é a família”, disse em coletiva de imprensa. Segundo ele, pais e mães têm delegado à escola funções que deveriam ser exercidas em casa, enquanto cresce o número de conflitos envolvendo instituições de ensino e responsáveis.

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Ao aprofundar essa reflexão, Klinjey classificou o abandono da formação emocional dos filhos como um “aborto afetivo”. Para ele, não basta garantir o sustento material ou oferecer brinquedos. Defendeu ainda que a família é insubstituível na construção do caráter e do equilíbrio emocional das crianças. “Nós não temos a missão apenas de nutrir a criança de alimentação. Temos a missão de nutrir de valores”, afirmou. 

O psicólogo também chamou atenção para os impactos do uso excessivo das telas nas relações familiares. Ressaltou ainda que crianças e adolescentes convivem com pais fisicamente presentes, mas emocionalmente ausentes, o que enfraquece os vínculos afetivos e alimenta sentimentos de abandono. “Quando a pessoa sente que é amada, que é vista, isso faz ela permanecer.”

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Apesar do cenário, Klinjey defendeu que a escola continua sendo um espaço capaz de transformar vidas. Para isso, ressaltou que o professor precisa ir além da transmissão de conteúdos e compreender o valor das relações humanas no processo educativo. “A escola é um lugar sobretudo de transações emocionais”, enfatizou.

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Além da palestra, a programação seguiu com um culto e um almoço de confraternização. Sediado pelo Colégio Mauá pela primeira vez em 20 anos, o 35º Congresso de Professores da Rede Sinodal de Educação promoveu, ao longo de três dias, palestras, debates e momentos de integração entre educadores de escolas da rede de diferentes regiões do Brasil. 

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Necessidade de cuidar dos educadores

O uso excessivo de celulares e redes sociais pelas famílias também esteve entre os temas abordados por Rossandro Klinjey. Para o psicólogo, esse distanciamento tem contribuído para o aumento do sofrimento emocional entre crianças e adolescentes.

Na avaliação de Klinjey, o cenário também tem aumentado a pressão sobre os educadores. Ele observou que, diante de dificuldades enfrentadas pelos estudantes, muitos pais responsabilizam os professores em vez de assumirem seu papel na educação dos filhos. “O que tem tornado, por exemplo, os professores como o segundo grupo de burnout no mundo”, destacou. Por isso, defendeu que as escolas também priorizem o cuidado com a saúde emocional de seus profissionais.

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Ao falar sobre o papel dos educadores, Klinjey afirmou que a escola precisa protegê-los e oferecer condições para que exerçam sua função sem substituir a família. Na avaliação dele, o professor tem a oportunidade de inspirar alunos justamente pela relação humana construída em sala de aula. “A escola não pode entregar os educadores para serem trucidados pelos ‘leões’ de algumas famílias emocionalmente descompensadas”, disse.

Compromisso

Ao avaliar o encerramento do 35º Congresso da Rede Sinodal de Educação, o diretor do Colégio Mauá, Nestor Raschen, destacou que a estrutura da instituição permitiu a realização de toda a programação, apesar das condições climáticas. “Foi uma grande honra sediar esse congresso”, afirmou, ressaltando o empenho de professores e funcionários para receber os participantes. Segundo ele, os debates reforçaram a importância de a sociedade valorizar a escola como espaço de formação humana e reconhecer o papel do professor nesse processo.

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Como legado do encontro, foi apresentada a Carta de Santa Cruz, documento que reúne os principais compromissos assumidos pela Rede Sinodal de Educação. O texto defende a escola como um espaço de encontros, diálogo, construção de vínculos e produção de sentido, indo além da transmissão de conhecimentos. Também reforça a valorização do professor como protagonista dos processos de ensino e aprendizagem e o compromisso com o aperfeiçoamento permanente da prática pedagógica.

A carta ainda define como prioridades fortalecer o reconhecimento público da escola, promover a excelência acadêmica aliada ao desenvolvimento integral dos alunos e formar sujeitos autônomos, solidários e comprometidos com a construção de uma sociedade mais humana. O documento foi subscrito pelos participantes do congresso como um compromisso coletivo para os próximos anos.

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Julian Kober

É jornalista de geral e atua na profissão há dez anos. Possui bacharel em jornalismo (Unisinos) e trabalhou em grupos de comunicação de diversas cidades do Rio Grande do Sul.

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