Uma das maiores especialistas brasileiras em neurociência relacionada com a educação está em Santa Cruz do Sul nesta terça-feira, 21. A professora e palestrante Carla Tieppo, paulista, realiza palestra a partir das 8h30 no Teatro do Colégio Mauá, no segundo dia do 35º Congresso da Rede Sinodal de Educação, evento que se estende até esta quarta-feira, 22, com participantes da cidade e de dezenas de localidades.
Na véspera da vinda a Santa Cruz, Carla concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, com encaminhamento de perguntas e respostas em áudios por WhatsApp. Em suas ponderações, reflete sobre o cenário contemporâneo em sala de aula, sobre o impacto de inovações tecnológicas, a exemplo da inteligência artificial (IA), mas, em especial, aponta as contribuições da neurociência no processo de aprendizagem.
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Formada em Veterinária em 1995 pela Universidade de São Paulo, é doutora em Ciências pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP, tendo estudado a inter-relação da dopamina e da colecistocinina em modelos comportamentais dopaminérgicos. É ainda professora do Departamento de Ciências Fisiológicas da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, sendo professora adjunta, desde 2001, e leciona Neurologia para o curso de Psicologia da FACHS-PUC-SP.
Estudiosa muito ativa, participa de linhas de pesquisa, apresentações em congresso e publicações em revistas nacionais e internacionais. Entre seus livros, destaque para Uma viagem pelo cérebro: a via rápida para entender neurociência, lançado em 2019 pela Conectomus. Em várias ocasiões teve o seu trabalho reconhecido com premiações e distinções, e é interlocutora de especialistas nacionais e internacionais em sua área.
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Entrevista
CARLA TIEPPO
Neurocientista, professora e palestrante
Gazeta do Sul – Para uma primeira compreensão do tema junto ao público em geral, de que forma a neurociência se coloca como aliada e como ela pode ou deve ser usada no ambiente da educação?
Carla Tieppo – A compreensão dos mecanismos de funcionamento cerebral nos ajuda a direcionar os processos de ensino e aprendizagem para que eles sejam mais próximos do que consideramos ideal. Antes, a educação não levava em conta esses aspectos simplesmente porque havia um desconhecimento da própria ciência do cérebro no que se refere a esses mecanismos.
À medida que nós vamos melhorando o conhecimento sobre o cérebro e sobre os mecanismos de aprendizagem, a neurociência passa a se transformar em uma grande aliada, além, obviamente, de apoiar os processos de adaptação e inclusão. Quando necessários.
Quando se fala em neurociência, em que medida o que está envolvido como recurso é o humano, e em que medida é a tecnologia?
Neurociência não é tecnologia. Neurociência é uma ciência que estuda o ser humano. Então, sempre é sobre o ser humano. Quando a gente aplica conhecimento de neurociência, estamos falando dos mecanismos naturais de aprendizado, motivação, engajamento, percepção de valor, que são fundamentais para que o ser humano consiga se envolver com o processo de aprendizagem. E à medida que a sociedade vai evoluindo e se tornando mais complexa, cada vez mais a gente precisa conhecer esses mecanismos.
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Qual seria a sala de aula ideal para uma boa aprendizagem?
A sala de aula ideal não é obrigatoriamente uma que tem esse ou aquele elemento constitutivo ou precise disso ou daquilo, especificamente. É aquela onde existe uma relação entre professores e alunos que ainda mantenha o apreço pelo conhecimento, pelo saber, que mantenha a verdade acerca da curiosidade humana e não apenas um arremedo, como se aquilo fossem etapas a serem cumpridas para chegar a algum lugar.
Na verdade, um indivíduo em desenvolvimento não deveria estar pensando apenas em chegar no fim do ano ou nas férias, ou então chegar na aprovação de uma disciplina. Ele deveria estar preocupado principalmente com o desenvolvimento daquele processo. É isso que deve permear a sala de aula ideal. É uma sala de aula onde o foco está no processo de aprendizagem.
E, em sociedade, qual o perfil ideal ou mais recomendado para um líder, em empresas ou em instituições?
A liderança não é uma questão tanto de perfil, mas também de interesse. Para ser líder, um indivíduo precisa se interessar genuinamente por performance humana, precisa se interessar pelas necessidades, pelos potenciais humanos. É isso que tem que estar em mente.
Então, não é exatamente um perfil. Óbvio, precisa ter apreço pela comunicação, apreço pelo desenvolvimento, é necessário ter um certo grau de resiliência para admitir pressão e nem por isso distribuir pressão. Ser ali também um ponto onde a pressão se esvanece. E isso é muito importante para uma organização, que a gente não fique apenas distribuindo tensões entre as pessoas, mas que reconheça o papel de cada uma delas mesmo no processo de aquisição.
Neurociência em grande medida remete também a emoção, ou a controle emocional? Como trabalhar ou como exercitar esse controle em tempos com tamanha pressão e demandas simultâneas?
A questão do controle emocional é muito delicada. As emoções precisam ser utilizadas de uma maneira adequada, porque elas são informações acerca do nosso comportamento, da nossa apreciação sobre as coisas.
Quando a gente apenas as controla, ficamos reféns de tentar manter esse controle emocional quando deveríamos estar usando as emoções como informações sobre nosso estado e nossas necessidades, e também dos recursos que temos em um determinado momento. Então, a questão não é sobre controle das emoções, e sim sobre como empregá-las, saber como utilizá-las adequadamente.
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Como a senhora avalia e como vê a inteligência artificial (IA) em realidade de ensino: entre aliada e ameaça, onde ela se posiciona?
Definitivamente, a inteligência artificial não é uma ameaça para a sociedade. Se for enxergada dessa maneira, ela vai se tornar uma ameaça. É equivalente a dizer que a física quântica é uma ameaça porque gerou a bomba atômica. É equivalente a dizer que as máquinas a vapor são ameaçadoras porque resultaram na revolução industrial e isso mudou o mundo do trabalho. A gente já teve experiência suficiente para saber que ela não é uma ameaça, mas que precisamos saber usá-la, e haverá um momento de adaptação muito importante que ainda precisará ser superado.
Avanços tecnológicos costumam ter impacto imediato e automático sobre o sistema nervoso de uma pessoa (no caso, de alunos e também professores)?
Os impactos da tecnologia são vistos em toda a sociedade, né? A questão é que a depender, obviamente, da condição socioeconômica, do acesso, isso vai ter um impacto mais rápido ou mais lento. Mas, de fato, a sociedade toda acaba absorvendo. Quando você fala de inteligência artificial, e o quanto ela é capaz de produzir, o quanto essa produção pode ser uma espécie de substituição da produção humana, isso fica ainda um pouco mais preocupante, porque vai impactar sabidamente os processos de avaliação.
Se as crianças fazem um trabalho em casa, não haverá mais um trabalho que elas realizarão sem o emprego da inteligência artificial. É necessário considerar qual é o papel do ser humano nessa produção e garantir que esse papel seja suficiente para o desenvolvimento humano.
Se por um lado se considera a neurociência em relação a estudantes (ou filhos), como os pais se inserem nessa temática? Pode-se exigir dos filhos algo que nem sempre os pais conseguem administrar em casa?
A relação das famílias, dos pais, das famílias nas suas constituições mais variadas, os pais ou os cuidadores em tempo integral dessas crianças e desses jovens, é uma questão muito delicada. Com a mudança geracional e a modificação dos recursos, muitas vezes os pais ainda querem manter uma tradição na forma de se relacionar com os jovens, especialmente, mas também com as crianças, que é da necessidade do recurso que existia no passado.
Da forma como vivemos hoje, é imprescindível que os pais se relacionem considerando os estímulos, levando em conta a contemporaneidade. Não é apenas querer manter regras ou preservar isso de uma forma rígida, porque definitivamente pode levar a perdas importantes na qualidade da relação. O mais importante é o vínculo, o convívio, a proximidade, a confiança que se estabelece dentro dessa relação. E o respeito e também a modelagem, né? Você ter adultos com os quais convive, que estão antenados com as questões do seu tempo e podem orientá-lo de forma adequada e não apenas tentando regredir a um tempo que não existe mais. Isso é muito importante.
O enfoque principal mesmo é considerarmos o impacto que as mudanças geracionais têm na forma como adultos veem o mundo. É muito importante que quem está criando crianças e adolescentes esteja antenado em relação ao seu tempo e saiba discutir o entorno, o ambiente, o contexto no qual está inserido.
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Quando a senhora vislumbra o futuro, para que tipo de educação ou realidade de ensino nós caminhamos? Como será ensinar, aprender e estudar nesses próximos anos?
Bom, na minha percepção, o futuro da educação vai ser a respeito de, definitivamente, de uma vez por todas, ensinar a pensar. Ensinar modelos de pensamento, ensinar modelos de comportamento que perpassam a questão do conteúdo.
Óbvio que o conteúdo é um instrumento que nos ajuda a ensinar a pensar, mas ensinar a pensar de forma matemática, ou então de forma relacionada à comunicação, ensinar a pensar em ciência, a ter um pensamento criativo, é sobre isso que a educação vai reverter-se. E isso será um pouco mais difícil de avaliar, mas, com certeza, vai se mostrar mais profícuo do ponto de vista do resultado.
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