A abertura das audiências públicas para discutir a nova concessão da Malha Sul voltou a colocar em pauta o futuro do transporte ferroviário no Vale do Rio Pardo. A expectativa é de que o processo de relicitação da rede possa abrir caminho para a recuperação de segmentos abandonados ou interrompidos nos últimos anos, o que inclui a linha que passa por Rio Pardo e conecta a região ao restante do Estado.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autorizou a realização da consulta pública sobre o leilão das ferrovias do Sul. Haverá uma sessão híbrida em Brasília no dia 16 de julho e encontros presenciais em Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis ao longo do mesmo mês. As contribuições poderão ser enviadas entre 15 de junho e 10 de agosto.
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A iniciativa faz parte da preparação para a nova concessão da Malha Sul, atualmente operada pela Rumo. O contrato termina em fevereiro de 2027 e o governo federal pretende realizar um leilão até o fim de 2026.
Um estudo de viabilidade elaborado pela Infra S.A., vinculada ao Ministério dos Transportes, indica que os trechos ferroviários do Rio Grande do Sul afetados pelas enchentes de 2024 só deverão voltar a integrar as projeções operacionais da malha a partir de 2030.
O relatório aponta que as chuvas provocaram alagamentos, deslizamentos e danos severos à infraestrutura ferroviária gaúcha. Como consequência, diversos segmentos tiveram as operações interrompidas, incluindo o corredor que passa pelo Vale do Rio Pardo.
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A rota integra o chamado Corredor Interestadual, que liga a estação General Luz, em Triunfo, a Ramiz Galvão, em Rio Pardo. A malha permite saídas para Santa Maria, Uruguaiana, Passo Fundo, Canoas, Polo Petroquímico, Porto Alegre e para a ferrovia do trigo em direção a Santa Catarina.
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Desde maio de 2024 não há circulação de trens pelo percurso que atende o Vale do Rio Pardo. A cheia histórica provocou danos significativos principalmente nas regiões dos rios Taquari e Pardo, interrompendo a ligação ferroviária entre a Região Metropolitana e o Centro do Estado.
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Segundo o levantamento, a recuperação das estruturas afetadas deverá ser uma das obrigações da futura concessionária. A partir disso, o governo federal projeta a retomada do transporte de derivados de petróleo, etanol e clínquer, matéria-prima utilizada na produção de cimento.
A expectativa pela volta dos trens também está ligada à importância histórica da ferrovia para a região.
O trecho entre General Câmara e Rio Pardo possui cerca de 80 quilômetros de extensão e atravessa municípios como General Câmara, Vale Verde, Passo do Sobrado e Rio Pardo. A linha foi inaugurada em 1962 e durante décadas desempenhou papel fundamental no transporte de passageiros e mercadorias.
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Locomotivas transportavam produtos agrícolas, combustível, gado, arroz, trigo, soja e adubo, além de servirem como meio de deslocamento para moradores da região. O transporte de passageiros foi encerrado em 1996, quando a ferrovia passou a operar exclusivamente com cargas.
Ao longo do trajeto ainda permanecem estruturas que fazem parte da memória ferroviária regional. Em Vale Verde, os trilhos passam sob a Ponte Seca, na ERS-244, próxima ao Cerro do Chileno. Nas proximidades estão as ruínas da antiga estação Professor Parreira.
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Outro ponto histórico é a estação Foguista Mello, na região da Lomba Alta, próximo ao Passo do Monte Alegre. Atualmente restam apenas vestígios da construção que homenageava o ferroviário Pedro Mello, morto em um acidente durante atividades de abastecimento das locomotivas.
A própria Ponte Seca integra esse patrimônio regional. Construída no início da década de 1960, a estrutura segue em uso na ERS-244 e fez parte das obras de implantação da ferrovia que ligou Barreto, em General Câmara, a Ramiz Galvão, em Rio Pardo.
Apesar do avanço do processo, há preocupação entre autoridades e entidades da Região Sul em relação ao modelo escolhido pelo governo federal.
A proposta prevê dividir a Malha Sul em três lotes: Corredor Mercosul, Corredor Rio Grande e Corredor Paraná-Santa Catarina. A avaliação de parte das lideranças é que o fatiamento pode reduzir o interesse de investidores em determinados ramais e comprometer a recuperação integral da rede ferroviária.
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A audiência pública deverá servir para discutir possíveis alterações antes da publicação do edital definitivo. Paralelamente, o governo do Estado anunciou a intenção de desenvolver um estudo próprio para um projeto integrado das ferrovias do Sul. O trabalho deverá ser contratado pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).
O Vale do Rio Pardo acompanha com atenção as discussões porque a retomada da operação ferroviária é considerada estratégica para ampliar alternativas logísticas e reduzir custos de transporte para diferentes setores da economia.
Embora a estação de Ramiz Galvão tenha deixado de movimentar cargas ainda em 2011, o corredor ferroviário que passa por Rio Pardo permanece inserido nos estudos da futura concessão. No entanto, o documento elaborado para subsidiar a relicitação não prevê a reativação do terminal rio-pardense para embarque e desembarque de mercadorias. A expectativa considerada pelo governo federal é de recuperação da via férrea para circulação de cargas entre outras regiões atendidas pela malha, sem operações logísticas locais em Ramiz Galvão.
Pelos cronogramas apresentados até agora, a definição do novo modelo ferroviário deverá ocorrer nos próximos meses. Já a efetiva recuperação da infraestrutura e o retorno das operações no corredor que atende o Vale do Rio Pardo ainda dependem da conclusão da licitação e dos investimentos da futura concessionária, cenário que, segundo os estudos federais, aponta para uma reativação somente a partir de 2030.
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