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Pais cansados, filhos acelerados

As férias chegam como um intervalo no calendário, mas nem sempre como uma pausa na alma. Para as crianças, elas anunciam liberdade, tempo solto, dias sem relógio. Para muitos adultos, porém, as férias vêm acompanhadas de cansaço acumulado, culpa silenciosa e a sensação constante de não conseguir estar como gostariam.

Enquanto as crianças desaceleram, os adultos seguem acelerados por dentro. O corpo até está presente, mas a mente permanece ocupada, atravessada por preocupações, notificações e listas invisíveis. E é nesse desencontro de ritmos que algo se revela: as crianças pedem presença, e os adultos oferecem fragmentos.

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Na infância, as férias têm um papel fundamental no desenvolvimento saudável. Elas não são apenas uma pausa da escola, mas um tempo essencial para que a criança organize emoções, integre experiências e fortaleça seu mundo interno. É nesse período que o cérebro infantil descansa dos excessos de exigência, permitindo a maturação emocional, a criatividade e a autorregulação.

Vivemos em uma cultura que teme o vazio. O silêncio incomoda, o tédio assusta. Por isso, preenchemos as férias com atividades, telas e agendas cheias. Mas é justamente no tempo livre que a infância acontece de verdade. No tédio, a criança aprende a criar, a imaginar, a lidar com frustrações e a desenvolver autonomia. O brincar espontâneo, sem roteiro, é uma linguagem emocional essencial para o crescimento psíquico.

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As férias também favorecem vínculos. Mais tempo juntos, sem a pressa cotidiana, permite que a criança se sinta vista, escutada e segura. Essa segurança emocional é a base de um desenvolvimento saudável. Não se trata de quantidade de atividades, mas de qualidade de encontro.

A neurociência nos mostra que o descanso verdadeiro regula o sistema nervoso, reduz níveis de estresse, melhora o sono e amplia a capacidade de atenção e aprendizagem. Isso vale para crianças e adultos. Mas, para que isso aconteça, é preciso rever expectativas. Nem todo dia será leve. Nem todo momento será feliz. E está tudo bem.

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É importante nomear uma verdade muitas vezes silenciada: não existe presença perfeita. Crianças não precisam de adultos incansáveis, sempre disponíveis e alegres. Precisam de adultos reais, emocionalmente acessíveis, que reconhecem seus limites e ensinam, pelo exemplo, que descansar também é cuidar.

As férias não precisam ser extraordinárias para serem marcantes. O que permanece na memória emocional não são os grandes programas, mas os pequenos encontros: uma conversa sem pressa, um olhar atento, uma caminhada simples, um silêncio compartilhado. É na simplicidade que o vínculo se fortalece.

Talvez o maior presente das férias seja esse: desacelerar juntos. Não para fazer mais, mas para sentir mais. Para permitir que adultos e crianças se encontrem num tempo menos exigente e mais humano. Porque as férias passam, mas a sensação de ter sido visto, acolhido e amado permanece e é isso que sustenta um desenvolvimento emocional verdadeiramente saudável.

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Lavignea Witt

Me chamo Lavignea Witt, tenho 25 anos e sou natural de Santiago, mas moro atualmente em Santa Cruz do Sul. Sou jornalista formada pela Universidade Franciscana (UFN), pós-graduada em Jornalismo Digital e repórter multimídia na Gazeta Grupo de Comunicações.

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Lavignea Witt

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