Lieber Armando,
Tens certeza de que aquele casal punk no supermercado era mesmo alemão? Explico. Quando li pela primeira vez tua última carta, juro que li “não tenho dinheiro para todos meus desejos”. E aí me peguei viajando nos conceitos de felicidade e virtude. Punk filósofo só em Berlim mesmo!
Esse cara talvez ainda estivesse preocupado demais com o mundo material, mas pelo menos tinha o mérito de ter uma visão multifacetada das próprias habilidades e aspirações a ponto de ter tantos projetos com que gastar, pensei eu. Mostrei para a Ana a tua carta e pedi, enquanto eu dirigia, que ela lesse em voz alta… “não tenho dinheiro para todos teus desejos”.
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O quê? Filósofo nada! Era apenas um cara reclamando da mulher exigente! Eu tinha lido errado e esse lapso mudava tudo. Mas aí a coisa ficou ainda mais complicada, porque se há uma marca da Alemanha moderna é a força da mulher. Uma mulher dependente do dinheiro do marido?! Pode até acontecer, mas estou acostumado com mulheres alemãs muito independentes – selbstbewusste Frauen! – e talvez por isso meu cérebro tenha lido “meus desejos” em vez de “teus desejos”.
Talvez seja uma generalização precipitada. Não sei. Ou talvez seja influência de Lara Hulo (a ironia em “Frau” é bem direta: Ich bin ‘ne Frau, natürlich nutzen sie mich aus / Ja, ich stelle keine Fragen und klar halt’ ich mein Maul / Ich bin ‘ne Frau und meine Meinung ist egal) ou de Jennifer Weist (a canção Hengstin detona o machismo).
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Falando em artistas contemporâneos, o pessoal que organiza a Oktoberfest de Santa Cruz vai trazer o voXXclub para a edição deste ano. Mais um golaço da cidade que Theobald ajudou a construir! Imagina se é a primeira de outras bandas que comecem a circular com regularidade pelo Rio Grande do Sul? São Paulo e Buenos Aires já recebem há algum tempo visitas de Rammstein, Toten Hosen… e o Jeremias fez turnê recentemente no Paraguai. Merecemos entrar nesse circuito.
Voltando à tua cena, se a tal punk de cabelo azul foi algum dia a garota de Rottweil daquele cara, então pelo visto ele se deu mal. Antes tivesse feito como o Campino e ficado com a memória do agradável sorriso, que ficaria a salvo para sempre da aspereza do convívio. Provavelmente isso tem a ver com o fato de o matrimônio ser, para os cristãos, mais que um instituto jurídico: um sacramento que enseja algo sobrenatural – a graça de Deus – que nos habilita a viver dificuldades que, de outro modo, apenas com o aparato natural, nos levariam ao desespero.
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Mas esse jogo só funciona se tivermos a coragem de, a cada instante, darmos este salto na escuridão que é a fé. É improvável que aqueles punks do supermercado em Berlim fossem católicos. Não por serem punks, mas por serem de Berlim.
Crescemos ouvindo o pai mencionar a fábula de Esopo “A raposa e as uvas” para desmascarar as pessoas (às vezes nós mesmos) que fingiam desinteresse diante de objetivos que estavam acima de suas condições. Rousseau diz que os desejos do homem selvagem não ultrapassam suas necessidades físicas. “Os únicos bens que conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o descanso.”
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No final das contas, o caminho para a felicidade segundo o suíço é não se tornar muito civilizado e culto, de modo que o básico baste. Neste ponto sou aristotélico: a alma é de algum modo todas as coisas. Nosso desejo de conhecer a realidade total não deve ser amputado. Quero conversar mais sobre isso, mas agora preciso colher limões. Forte abraço!
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