Santa Cruz do Sul

Santa-cruzense vence Prêmio Açorianos com ensaio sobre Benjamin Péret

Um estudo sobre a relação de um poeta surrealista e militante comunista francês com o Brasil no século XX rendeu a um santa-cruzense o Prêmio Açorianos de Melhor Ensaio de Literatura e Humanidades de 2026, cujos vencedores foram anunciados no dia 11 de maio, no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Trata-se do mais importante reconhecimento a publicação em livro no Estado.

Historiador, professor e escritor, Éder da Silveira assegurou sua estatueta com a obra Horas brasileiras: Benjamin Péret, o Brasil, a América, lançada em 2024 pela Zouk, sediada na capital gaúcha. Em 148 páginas, o volume resgata as duas ocasiões em que o francês esteve no País e os contatos que estabeleceu por aqui, bem como uma temporada que vivenciou no México.

Nascido em 1899, Péret, como todos de sua geração, teve como batismo de fogo a Primeira Guerra Mundial, que conflagrou a sociedade europeia. No período que seguiu a esse grande conflito, esteve entre os surrealistas de primeira hora, bem como se aliou na militância comunista, logo evidenciando inclinação a favor de Trótski, o que sempre o colocou em situação delicada com os stalinistas.

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Em dado momento, conheceu a cantora lírica brasileira Elsie Houston, em Paris, e com ela casou-se. Quando a situação ficou insustentável na França, em virtude das perseguições, o casal se transferiu para o Brasil, estada que, para o poeta, durou de 1929 a 1931. Foi a oportunidade de um encontro com a cultura popular brasileira, e do despertar de sua curiosidade em torno de temas como Carnaval, candomblé e makumba, e de personagens como João Cândido, o Almirante Negro.

Pôde ainda conviver com os modernistas, embora, por sua personalidade sempre ferina e inquieta, nem sempre transitasse livremente por tal ambiente. No Brasil, Péret e Elsie tiveram o filho Geyser, nascido em agosto de 1931.

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No entanto, ainda naquele ano ele é expulso do País por Getúlio Vargas, e retorna à França, tendo se separado também de Elsie. Chega à Europa em outro momento tenso, que antecede a Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro ato é engajar-se na Guerra Civil Espanhola, em 1936. Mas logo precisa encontrar novo rumo. Que será o México (onde, naquele momento, também está Trotski). Assim, entre 1942 e 1947, mergulha no imaginário maia e asteca. Depois, mais uma vez retorna a Paris.

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Por fim, um quarto de século após a primeira visita, permanece no Brasil em 1955 e 1956. Além de rever Geyser, dedica-se a estudos sobre o Quilombo dos Palmares e empreende viagens de estudos pelo Norte e pelo Nordeste, que resultaram em livros e artigos.
A aproximação entre história e literatura

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Assim como ocorre em Histórias brasileiras, o ensaio sobre Benjamin Péret, livros anteriores de Éder da Silveira estabeleceram diálogo entre a historiografia e a literatura, áreas pelas quais ele transita com naturalidade, como leitor atento e acurado. Entre artigos, contribuições em obras coletivas e volumes de sua autoria ou que organizou, já compartilhou com o público diferentes olhares sobre a cena cultural brasileira.

Sua estreia ocorreu em 2005, com A cura da raça: eugenia e higienismo no discurso médico sul-rio-grandense nas primeiras décadas do século XX, lançado pela editora da Universidade de Passo Fundo, e que teve uma segunda edição. Já em 2007, assinou Tupi or not tupi, pela Edipucrs, com 272 páginas, investigando os conceitos de nação e nacionalidade em José de Alencar e, uma vez mais, Oswald de Andrade.

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Há uma década, em 2016, pela editora Bestiário, apresentou Oswald: ponta de lança e outros ensaios, com 122 páginas, em que investiga textos de Oswald, Monteiro Lobato e Mário de Andrade, de tom combatente.

HORAS BRASILEIRAS, Benjamin Péret, o Brasil, a América, de Éder da Silveira. Porto Alegre: Zouk, 2024.
148 p. R$ 52,00.

Para ler

Em 12 de abril de 1928, Benjamin Péret e Elsie Houston casaram-se em Paris. Dentre os presentes na cerimônia estavam Heitor Villa-Lobos e André Breton. De um lado, a cantora lírica, de formação erudita, que estudava em profundidade as origens da música brasileira, do folclore nacional. De outro, o poeta surrealista, embebido daquele desgosto com relação à civilização ocidental do entreguerras, de uma Europa ainda destroçada e imersa em profundo pessimismo. Essa união colocou o Brasil no caminho do poeta que, ao lado da companheira, irá se dedicar ao estudo da cultura popular brasileira e latino-americana, em especial a história dos ‘povos dominados’ pelos colonizadores europeus. Pelas mãos de Elsie Houston, Pérez encontrará o veio primitivo dos povos americanos, dos mitos pré-colombianos e da diáspora da África Negra e suas consequências na formação da América.

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O historiador santa-cruzense Éder da Silveira, vencedor do Prêmio Açorianos | Foto: João Mattos

“Espero que o prêmio ajude a divulgar Péret”

Aos 47 anos, o professor Éder da Silveira mantém forte vínculo com Santa Cruz do Sul, sua terra natal. É filho único de Roni Tadeu da Silveira, falecido, e de Rejane Maria da Silveira, que ainda reside na cidade. Por aqui, ele fez seus estudos de fundamental e de médio na Escola Estadual Estado de Goiás.

Graduou-se em História pela Unisc, sob orientação do professor Mozart Linhares da Silva, em 2001, e logo emendou com o mestrado em História na PUCRS, sob orientação da professora Ruth Gauer, para, por fim, doutorar-se em História pela Ufrgs, em 2007, sob orientação do professor José Augusto Costa Avancini.

Entre 2008 e 2010, fez estágio de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), o que oportunizou pesquisas em instituições na capital paulista. Em meio aos estudos, começou a lecionar, e atualmente, desde 2011, está vinculado à Universidade Federal de Ciência da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). É casado com a médica neurologista gaúcha Cândida Driemeyer, de São Leopoldo, a quem dedica Horas brasileiras. De um relacionamento anterior tem a filha Sofia, de 21 anos, estudante de Letras.

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  • Gazeta do Sul – O que motivou ou despertou tua aproximação com a vida e a obra do poeta e militante francês Benjamin Péret, do qual elaboraste um ensaio biográfico de sua relação com o Brasil e a América?

Seja em minhas pesquisas, seja nos livros que estou lendo, sempre procuro estabelecer relações entre autores e ideias e formar redes e diálogos. Benjamin Péret está em uma dessas redes, que tem como ponto de partida o Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade e a Antropofagia, Heitor Villa-Lobos e o surrealismo. Trata-se de uma constelação de autores e ideias que fazem parte de algo que costumamos chamar de “vanguardas históricas” e que viveram intensamente um período que me atrai muito, o entreguerras.

A minha tese de doutorado, defendida no Programa de Pós-graduação em História da Ufrgs em 2007, tinha como centro a obra de Oswald de Andrade e seu conceito de Antropofagia. Em algum momento da pesquisa, esbarrei com algumas referências ao Péret, autor sobre quem sabia um pouco graças aos trabalhos do meu amigo Robert Ponge, estudioso do Surrealismo e de Péret. A partir daquele momento, abri uma pasta e fui reunindo material sobre ele, lendo tudo o que conseguia e, há cerca de quatro, cinco anos, percebi que tinha material para escrever algo um pouco mais sólido.

  • Teu livro sobre Péret ganhou o Açorianos de melhor ensaio de literatura e humanidades, recentemente. Entendes que esse destaque pode ajudar a dar mais visibilidade ou a atrair a atenção também sobre o poeta e militante?

É interessante pensar sobre isso. Eu acredito que Benjamin Péret goza, quase 70 anos após a sua morte, o seu melhor momento editorial no Brasil, país onde viveu, sobre o qual escreveu e que, infelizmente, conhecia pouco de sua obra. Nos últimos anos, foram publicados vários dos seus escritos em português. Há cerca de um mês, foi publicado Candomblé e Makumba, reunindo os seus textos sobre religiões afro-brasileiras, publicados na imprensa brasileira dos anos 1930 e nunca em livro no Brasil.

Há alguns anos, saíram por aqui seus ensaios sobre os povos indígenas, Na zona tórrida do Brasil: visita aos indígenas, dos anos 1950, e ainda a sua obra mais ambiciosa, a Antologia de mitos, lendas e contos populares da América, publicada originalmente em francês um ano após a sua morte, em 1960. Antes dessa leva de publicações de Péret que chegaram ao mercado editorial recentemente, tínhamos uma publicação do começo dos anos 1980, uma coletânea de poemas e, no começo dos anos 2000, uma edição alentada do seu ensaio sobre o Quilombo de Palmares, organizada pelo Robert Ponge e pelo Mário Maestri.

No entanto, há muito a ser feito. Para teres ideia, o primeiro ensaio que estuda a relação de Péret com o Brasil e a América em conjunto é Horas brasileiras. Tenho feito inúmeras conferências sobre Péret e lançamentos da obra. Além de Porto Alegre, passei por Rio de Janeiro, Campinas, São Paulo, Coimbra, Évora e Barcelona, e sigo com muita vontade de apresentar Péret a todos que tenham interesse em sua obra, especialmente por encontrar pessoas curiosas que pouco ou nada sabem sobre ele. Nesse sentido, é sempre possível que o prêmio ajude a divulgá-lo, atrair a curiosidade sobre ele, mas o prêmio chega em um momento de relativa alta de Péret, uma vez que ele começa a estar acessível aos curiosos.

  • Quais entendes que são as principais contribuições que Péret deu ao Brasil nas suas duas passagens por aqui?

Acredito que precisemos pensar em uma troca, em relações que se estabeleceram. Os intelectuais franceses do começo do século XX tinham enorme interesse em artes não ocidentais. André Breton, por exemplo, estudava e colecionava arte africana e polinésia. Ainda em Paris, Péret conheceu uma personagem extraordinária da cultura brasileira, mais uma figura incrível e injustamente esquecida, a cantora lírica e estudiosa da música e do folclore brasileiros, Elsie Houston.

Na Paris do final dos anos 1920, Péret e Houston se casam, tendo como padrinhos o casal Breton e o casal Villa-Lobos, logo depois embarcando para o Brasil. Se a atenção dos surrealistas estava voltada para a África e a Oceania, Elsie Houston apresenta a Péret o rico universo cultural brasileiro e americano. Vivendo a sua primeira temporada brasileira entre 1929 e 1931, Péret começou um mergulho nos estudos da cultura americana que o acompanhou a vida toda.

É claro que a chegada de Péret ao Brasil e os seus diálogos com os artistas e intelectuais brasileiros foram intensos e ricos. Havia em sua obra e em sua vida uma força política que estava começando a se esboçar no Brasil pela Antropofagia de Oswald de Andrade, além de uma militância política que começava a ganhar força com personagens que teriam enorme importância tempos depois, como Mário Pedrosa.

  • Como tem sido tua relação recente com Santa Cruz, tua terra natal? A visitas com regularidade, ou manténs contatos na região?

Existe um antigo brocado que todos conhecemos, santo de casa não faz milagre. Tem lá seu fundo de verdade. A minha relação com Santa Cruz do Sul é meramente afetiva. A minha mãe mora em Santa Cruz, assim como amigos muito queridos, a quem visito menos do que gostaria. Como estamos falando de escrita e de livros, uma das boas lembranças que guardo da cidade é o jornal. Eu me lembro bem de quando comecei a escrever na Gazeta do Sul, graças à generosidade do Mauro Ulrich, do Gilson da Rosa e tua, Romar, que sempre acolheram os meus textos, ainda imaturos, nas páginas do jornal.
Mencionas no livro que Péret, a exemplo de outros artistas daquele período, é, em grande parte, filho da Primeira Guerra Mundial e do entreguerras. O que a época provocou nos espíritos?

Para muitos historiadores, e eu concordo com essa interpretação, a Primeira Guerra Mundial foi o grande trauma na consciência ocidental. Ali os sonhos de uma grande Europa, que viveria o apogeu da civilização burguesa, caem por terra e revelam o seu anverso, a sua face mais brutal. Foi uma guerra diferente de tudo o que se conhecia. Os combates invadiram as cidades atingindo população civil, houve emprego de armas químicas, mecanização e mortes em escala industrial. Isso tudo se tornou matéria de reflexão artística, seja pelo pacifismo de muitos autores como o Erich Maria Remarque de Nada de novo no front, seja pela exacerbação do militarismo por outro. Péret é um dos tantos escritores europeus que passaram pelo front e guardaram as marcas dessa experiência para o resto de suas vidas, como procuro examinar no primeiro capítulo de Horas brasileiras.

  • Praticamente um século depois, o que o legado de Péret e de artistas daquele momento podem nos inspirar, nos dias atuais?

Essa é uma pergunta que sempre me parece difícil de responder, uma vez que Péret era um autor muito pouco dado a conselhos. Inegavelmente, os temas que Péret tratava são temas da maior atualidade, como o estudo das culturas autóctones, a poesia e a imaginação como armas contra o pragmatismo que tanto nos adoece.

No entanto, como eu disse ao Luís Augusto Fischer em um papo sobre o livro, não há em Péret respostas fáceis, algo que me encanta. Vou tentar dar alguns exemplos. Nós vivemos uma onda conservadora terrível, com uma participação da religião na política que nunca antes se viu. Para o Péret, tudo o que cheirasse a carolice, despertava a sua ira. Ainda assim, ele foi estudioso de cultos de religiões afro-brasileiras e de povos indígenas, cosmovisões onde percebia a junção da beleza estética com o grito de revolta.

No Brasil, há séculos, vivemos o genocídio dos povos indígenas, cuja cultura e o modo de vida são o contraponto da estúpida cultura do agronegócio, que odeia as populações indígenas e concorre para o seu extermínio.

  • Enquanto historiador, o que trajetória como a de Péret ilumina no contexto ocidental. Um personagem pode ser a síntese de uma sociedade? Péret seria isso?

Tem uma frase do Darcy Ribeiro que é muito lembrada e que talvez ajude a responder a essa pergunta. Em uma espécie de balanço de sua vida, o Darcy dizia que havia fracassado em tudo na vida. Tentou defender os povos indígenas e falhou, assim como falhou em educar as crianças, em realizar um grande projeto de Universidade e em tudo o mais que tentou criar. Falhou, mas odiaria estar ao lado de quem venceu. Péret é um dos tantos insubmissos, que lutou, que perdeu e que jamais estaria ao lado de quem venceu.

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Karoline Rosa

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