Polícia

Seis anos após acidente, Michele Henrichsen transforma dor em alerta no trânsito

A frase da cabeleireira Michele Henrichsen, de 36 anos, resume a dimensão do trauma vivido desde a madrugada de 2 de maio de 2020 – e a transformação que veio depois. Naquele dia, Michele retornava de uma formatura em Pantano Grande quando sofreu um gravíssimo acidente. O carro atravessou a pista, cruzou o canteiro e bateu violentamente contra um barranco e eucaliptos. O impacto destruiu o veículo e mudou o destino da então princesa de Sinimbu de 2005.

A sobrevivente permaneceu 18 dias em coma. Teve múltiplas fraturas, perdeu dentes, sofreu perfurações nos pulmões, intestino e útero, além de lesionar coluna, bacia, braço, joelho e mandíbula. Um dos olhos saiu da órbita com a força do impacto. Ao longo dos anos, ela submeteu-se a 22 procedimentos cirúrgicos – o mais recente, na semana passada.

Seis anos após o episódio, Michele ainda convive com sequelas físicas e emocionais, mas escolheu transformar a dor em alerta. O relato surge no Maio Amarelo, mês dedicado a campanhas voltadas à conscientização sobre os riscos da imprudência no trânsito.

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Os números confirmam a gravidade do cenário. Dados obtidos junto à Brigada Militar, Polícia Rodoviária Federal (PRF), Batalhão Rodoviário e Guarda Municipal revelam que a conduta de risco continua como a principal causa de desastres no Vale do Rio Pardo.

Somente nas vias de Santa Cruz do Sul, entre janeiro e abril deste ano, 616 ocorrências foram registradas conforme a Brigada Militar; sete delas fatais. No mesmo período de 2025, houve 680 acidentes, com três mortes. Embora o volume total de casos tenha caído, a letalidade aumentou. Já a Guarda Municipal efetuou 166 atendimentos de colisões sem feridos no perímetro urbano, o que evidencia a frequência diária de sinistros na cidade.

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Todos estavam com cinto de segurança

Michele recorda que aquele sábado transcorria normalmente. Trabalhou no salão de beleza e decidiu, de última hora, ir à formatura com o então companheiro. No retorno, o casal deu carona a dois amigos. “Foi tudo muito rápido. A última lembrança que tenho é de nós quatro nos olhando e colocando o cinto. Depois, apagou tudo.”

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Ela não se lembra do impacto. As informações vieram depois, por meio de socorristas e testemunhas. O automóvel saiu da pista em alta velocidade após o motorista perder o controle. Apesar do uso dos dispositivos de segurança, os ferimentos foram devastadores. Michele sofreu traumatismo severo e precisou ser transferida para uma UTI em Canoas. “Meu corpo rejeitava sangue. Tive infecções e parada cardíaca”, conta. Enquanto lutava pela vida, uma campanha mobilizou doadores. “Até hoje digo que corre sangue de muitas pessoas em mim.”

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A reconstrução após a dor

Ao despertar, a cabeleireira precisou reaprender funções básicas. Passou meses em uma cadeira de rodas e enfrentou um longo processo para voltar a caminhar, falar e enxergar. “Eu não sabia se voltaria a trabalhar ou se conseguiria viver normalmente.”

Vieram as cirurgias reconstrutivas e a luta contra a depressão. A vaidade deu lugar à dificuldade de aceitar a própria imagem. “Precisei aprender a me enxergar de novo.” Hoje, ela ainda lida com limitações e gatilhos emocionais; sirenes ou alta velocidade provocam crises de ansiedade.

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A recuperação física foi acompanhada por novos lutos. Pouco após o acidente, sua mãe morreu em decorrência de um tumor cerebral e AVCs. Três meses depois, o irmão de Michele foi vítima de um acidente de moto. O avô faleceu em seguida, abalado pelas tragédias familiares.

A retomada aconteceu gradualmente, apoiada no trabalho, na espiritualidade e na companhia do pet Xaulin. Para Michele, o acidente deixou uma lição sobre os erros daquela noite: velocidade excessiva, distração com celular e a mistura de álcool e direção. “São segundos que mudam tudo. Perdi parte de mim naquele dia, mas ganhei uma segunda chance. Vale a pena desacelerar para continuar vivendo.”

Números e vítimas

Sob jurisdição do 2º Batalhão Rodoviário da Brigada Militar, a RSC-287, no Vale do Rio Pardo, mantém o maior índice de ocorrências da região: são 70 registros e duas mortes apenas este ano. Outras vias estaduais apresentam cenário similar: RSC-153 (oito acidentes e uma vítima fatal), ERS-409 (dois e uma morte) e ERS-471 (dois e um óbito). De acordo com a corporação, o fator humano permanece como o principal responsável pelas tragédias, motivadas por negligência, imprudência ou imperícia dos condutores.

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Já na BR-471, principal eixo federal da região, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) observa uma queda nos índices, embora o alerta continue em trechos críticos. Entre janeiro e abril, a rodovia somou 12 ocorrências, com dez feridos e uma fatalidade. No mesmo intervalo de 2025, houve 20 registros, 29 feridos e nenhum morto.

É importante notar que novos acidentes com vítimas foram contabilizados logo após o fechamento desse levantamento. Entre as infrações mais frequentes detectadas pelas forças de segurança estão o excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, uso de celular ao volante, desrespeito à sinalização e a ausência do cinto de segurança.

Enquanto a reportagem apurava os números de acidentes, o trânsito levava mais vidas. Em um recorte de apenas quatro dias, foram quatro mortes. Luis Carlos Oliveira Santos, de 64 anos, morreu na manhã de 29 de abril, na RSC-471, em Encruzilhada do Sul. Ele conduzia um Jeep Renegade, que, conforme os Bombeiros do município, teria saído da pista e se chocado contra uma árvore.

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Michele Kappel, de 47 anos, morreu na manhã de 27 de abril na RSC-287, em Venâncio Aires. O acidente aconteceu por volta das 9h30 no quilômetro 69 da rodovia, nas proximidades da localidade de Estância Nova. Michele conduzia um Ford Ka que colidiu frontalmente com um caminhão.

Hilda Gross, de 65 anos, perdeu a vida em uma colisão envolvendo dois veículos no quilômetro 96 da RSC-287, em Linha Pinheiral, Santa Cruz do Sul, no início da noite de 25 de abril. Ela era caroneira de um Ford Ka, que colidiu frontalmente com um Jeep Renegade. Cleiton Pranke Hirsch, de 22 anos, morreu na manhã de 25 de abril, no quilômetro 97 da RSC-471, em Sinimbu. Ele conduzia um Honda Civic, que saiu da pista. A caroneira ficou gravemente ferida.

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Luana Backes

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