Contra ponto 13/08/2019 21h52 Atualizado às 09h57

Sincericídio

A continuar neste passo e estilo, pode estar construindo um “suicídio político”

Pode ser sinceridade demais e efeito colateral do poder. Mas tudo indica que é uma combinação e exercício de estupidez e ignorância. Refiro-me, óbvio, à diarreia verbal do presidente Bolsonaro.

Nos primeiros meses, imaginara tratar-se de uma estratégia de manutenção do divisionismo político decorrente da polarizada eleição. Porém, a continuidade de sua irreverência e os sinais de piora sugerem algo mais grave. Sua verborragia é incompatível com o cargo de presidente.

A continuar neste passo e estilo, pode estar construindo um “suicídio político”. Ainda que possa alegar, em defesa e justificativa, que se trata de reação às provocações, notadamente de setores da imprensa que destacam apenas suas falas exóticas em detrimento de atos e fatos positivos de gestão.

Registrado o temerário comportamento de Bolsonaro, anote-se, entretanto, que exageros retóricos, inadequados e impróprios são comuns em nossa recente história político-partidária.

O general Figueiredo afirmara que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo. Em outra ocasião (uma criança acabara de dizer-lhe que o pai ganhava salário mínimo), Figueiredo respondeu que, em situação semelhante, “daria um tiro no próprio coco (cabeça)”.

Collor, “o caçador de marajás”, era um vendaval de bobagens. Itamar Franco deu “trabalho” aos cartunistas e humoristas. Topete ao vento, opinou sobre tudo. Até sobre a volta do Fusca nas esteiras de fábrica!

O erudito e poliglota Fernando Henrique, com empáfia monárquica e arrogância acadêmica, chamou de vagabundos os aposentados e aposentandos, esquecendo sua própria e precoce aposentadoria.

Lula também cometeu excessos verbais. Relembremos: “Levantar o traseiro para negociar taxas de juros. O rei da ética e da moral. O príncipe dos honestos. Cheque em branco para José Dirceu, Roberto Jefferson e Renan Calheiros. Como nunca dantes na história.” Dilma dispensa comentários!

Temer cometeu uma gafe cruel. Em visita ao governador Luiz Pezão (RJ), que se recuperava de um câncer, tentou fazer graça e disse que o câncer tinha feito bem ao governador, que “parecia mais bonito”.

Algumas falas têm em comum a intenção de despolitização e (falso) distensionamento das pressões do dia a dia. Mas Bolsonaro tem ultrapassado todos os limites razoáveis.

Urgentemente, alguém próximo precisa lhe explicar que sua palavra representa o poder de estado. Que uma declaração pode gerar responsabilidades e produzir efeitos jurídicos. Que a função pública tem ônus que se impõem para além da pessoa e da própria fala.

Independentemente do grau (ou falta de) de inteligência, erudição, conhecimento e consciência política, o poder transforma as pessoas. Muitas vezes, para pior. Costumam ignorar as lições da história, subestimar a inteligência e a memória do cidadão.