ideias e bate-papo 10/08/2018 00h25 Atualizado às 09h52

O privilégio de ter filhos

Fico indignado diante da omissão do contingente de pais que ignoram a importância de participar da vida dos filhos

Ter filhos é aprender o tempo todo. Não importa a idade, nossa ou deles. Laura e Henrique, de 24 e 22 anos, são fontes permanentes de surpresas. É raro o dia em que não ensinam um truque para simplificar minha rotina ou segredar algum atalho útil.

Com o tempo eles ganham o mundo. Não raras vezes me questiono se deveria ter ensinado alguns macetes que permitem maior autonomia. É cada vez mais comum ficar noites seguidas sem vê-los. Vão da universidade à festa. De lá se dirigem à casa de amigos, onde passam a noite. Nos fins de semana, esses intervalos de contato se ampliam.

 Mais maduros, viram donos de suas escolhas. As frustrações rendem choro e ranger de dentes que fazem de nosso ombro um amigo sempre disponível. A liberdade permite eleger afetos, “alguém pra chamar de seu”, para compartilhar todos os momentos.

Nesta fase da maternidade/paternidade, experimenta-se novas sensações ao lado dos filhos. Essa novidade vem nas figuras de genro e nora, que surgem para conquistar espaço na família e os nossos corações.

 A ampliação do coletivo familiar confere mudanças. Nem sempre é possível juntar toda a galera, mas quando isso acontece é possível avaliar os seres humanos que colocamos no mundo e forjar.

 Tenho o privilégio de ter “dois novos filhos” há mais de um ano. Com eles, eu e minha mulher compartilhamos churrascos, bate-papos regados a vinho ou cerveja, viagens e confidências. Eles falam de suas agruras, sonhos, percepções. Aos poucos conhecemos suas trajetórias, experiências e trajetória familiar.

 Gosto de conhecer gente nova, pessoas de diferentes ambientes e formações. Os amigos e amores dos filhos são uma família à parte, cuja frequência de encontros se consolida com o tempo. Essa vivência só é possível por meio dos filhos. Os valores que legamos a eles vão inspirar amizades, amores, relações.

 Fico indignado diante da omissão do contingente de pais que ignoram a importância de participar da vida dos filhos. O preço a ser pago no futuro é oneroso, pode comprometer a felicidade de nossos herdeiros.

 Minha mãe costuma dizer:

– Pra ser padrinho, pra casar, pra tirar carteira de motorista, pra lecionar... Pra tudo exige fazer um curso. Mas para ter filho, a coisa mais importante da vida, basta querer. Não se exige preparo.

Falecida em 2016 aos 82 anos de idade, dona Gerti acertou na mosca, sem rodeios, com objetividade, coberta de razão. Pena que muita gente não acredita.