Ideias e bate-papo 13/09/2018 23h46 Atualizado às 07h19

Beco sem saída

Saídas raras de casa, pouco entretenimento externo e proliferação de câmeras e parafernálias de segurança nos tornaram reclusos

Li, não lembro onde, que o brasileiro fica em média nove horas e 14 minutos ligado na internet todos os dias. No ranking mundial somos a terceira nação mais obcecada pelas redes sociais. É um dado interessante, mais do que isso: preocupante pela repercussão na rotina de todos nós, no convívio que se transformou num festival de mensagens que substituíram o contato direto, o velho e bom “olho no olho”.

A vida é feita de paradoxos. Nunca antes na história da tecnologia tivemos tantas e tão variadas maneiras de fazer comunicação. Hoje, desde a mais tenra idade, os brasileiros manuseiam smartphones com destreza. Vejo crianças com 6, 7 anos que já possuem seu próprio aparelho. Pode-se imaginar o que acontecerá quando forem adolescentes.

Setembro Amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015 em Brasília. É uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria. Na semana passada escrevi sobre os números impressionantes que envolvem automutilação, tentativas e suicídios efetivamente cometidos por alunos da rede escolar pública do Rio Grande do Sul.

Leigo no assunto, mas observador da cena humana, fico a pensar na correlação entre os dois elementos: ultracomunicação e suicídios/automutilação. A comunicação é um fenômeno cujas pesquisas mais aprofundadas são dificultadas justamente pela velocidade das mudanças empreendidas.

A solidão, um dos males do século, não se restringe aos centros urbanos onde a violência e a insegurança levam os moradores a uma espécie de autoexílio. Saídas raras de casa, pouco entretenimento externo e proliferação de câmeras e parafernálias de segurança nos tornaram reclusos.

No interior, a partir de relatos de amigos, constato que o suicídio também está fortemente presente. O tema é tabu, entre as famílias e a imprensa, o que compromete os poucos dados que tratam do tema. Costumo repetir uma máxima que ouvia de meu pai: “O bom-senso está sempre no equilíbrio, jamais nos extremos!”.

No caso da comunicação foram décadas de obscurantismo político, ideológico e do desenvolvimento das ferramentas tecnológicas. Hoje, ao abrir os olhos pela manhã, imediatamente espiamos o celular, antes mesmo de beijar os filhos pequenos ou o cônjuge deitado ao lado.

Tenho medo pelo que vem por aí. A espionagem através de câmeras, venda de dados, apuração de gostos e opiniões através das redes sociais poderá nos levar a um beco sem saída.


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