30 anos depois 08/12/2019 14h31 Atualizado às 19h45

Lembranças de um dia assustador: Helena Hermany quebra o silêncio sobre sequestro

No período, a futura vereadora, vice-prefeita e prefeita de Santa Cruz viveria o período mais apavorante de sua vida

Assim que a Chevrolet Marajó deixou a rodovia asfaltada e ingressou na estrada de acesso a Trombudo, distrito de Santa Cruz do Sul, a motorista ligou o rádio. Há mais de sete meses a bancária Helena Hermany, então com 41 anos, dirigia diariamente por aquele trajeto, rumo ao posto avançado do Banco do Brasil instalado na área central do futuro município de Vale do Sol.

Porém, ela ainda sentia um certo alívio quando passava pelo trevo de Trombudo e deixava para trás a RS-509, atual RSC-287. Já naquele tempo, a principal ligação entre o Centro do Estado e a Região Metropolitana estava sempre abarrotada de veículos, inclusive caminhões com altas cargas de tabaco, que davam a Helena a sensação de que cairiam sobre os outros carros a qualquer momento.

Por isso, a bancária só ligava o rádio quando entrava no trecho mais tranquilo da viagem. E então cantarolava sozinha, ao volante, acompanhando as letras de Roberto Carlos e de outros cantores de sucesso que tocavam na Rádio Gazeta. Entretanto, naquela manhã de 7 de dezembro de 1989, a parte divertida do trajeto seria interrompida de forma brusca.

De início, pareceu só um acidente de trânsito. Um Gol GTS branco, equipado com aerofólio e motor 1.8 – modelo que era o sonho de consumo dos mais jovens – ultrapassou a Marajó a toda velocidade e, em seguida, freou. Helena não conseguiu parar a tempo de evitar a colisão. “Que é isso?”, esbravejou para os três homens que desciam do Gol. Ela havia reformado há pouco a Marajó. Mas logo percebeu que os sujeitos estavam armados e compreendeu: aquilo não era um acidente, era um assalto.

Começava ali uma desventura assustadora, que duraria até o meio da tarde. No período, a futura vereadora, vice-prefeita e prefeita de Santa Cruz viveria o período mais apavorante de sua vida – ficaria sob a mira de revólveres, presenciaria outro assalto, seguiria na carona dos bandidos em altíssima velocidade e ouviria, a todo momento, ameaças contra a vida dos três filhos.

Abandonada pelos ladrões às margens da Tabaí-Canoas, em Triunfo, Helena Hermany escapou ilesa. No dia seguinte, foi trabalhar no posto avançado de Trombudo como se nada tivesse acontecido – afinal, como gerente, entendia que era sua responsabilidade fazer a pequena agência funcionar. Porém, durante muito tempo evitou tocar no assunto, doía falar sobre as agruras enfrentadas nas mãos dos bandidos. Agora, passados 30 anos, Helena Hermany decidiu, enfim, quebrar o silêncio sobre o episódio.

Vão-se os anéis

Ainda não eram 10 horas da manhã quando Helena Hermany foi surpreendida pelos assaltantes, retirada da Marajó e obrigada a sentar no banco traseiro do Gol branco. Às 10 horas ela já deveria estar no posto avançado do Banco do Brasil, instalado em uma sala do Hospital de Trombudo. Sua rotina de trabalho diária, porém, começava bem mais cedo.

O posto avançado havia sido inaugurado com festa, em 21 de abril de 1989. Segundo a Gazeta do Sul noticiou, mais de mil pessoas acompanharam a solenidade, que teve hasteamento de bandeiras e discurso do prefeito Arno Frantz. Desde então, todas as manhãs a gerente do posto avançado, Helena, tinha que passar mais cedo na sede do BB para apanhar talões de cheques dos correntistas de Trombudo e um malote com o dinheiro destinado aos saques e pagamentos. Só então seguia viagem.

“Faziamos um cálculo estimado do quanto seria necessário, considerando vários fatores, como os dias em que os fumicultores costumavam trocar os cheques da venda da safra”, relembra a ex-gerente. “Era trabalhoso, mas eu gostava muito daquela atividade. Fui muito feliz no meu tempo de bancária.” Naquela manhã de 7 de dezembro de 1989, segundo a Gazeta noticiaria no dia seguinte, Helena transportava na Marajó um malote com 30 mil cruzados novos – dinheiro que, à época, comprava um bom terreno em Linha Santa Cruz ou nas imediações do Bairro Arroio Grande.

O malote foi a primeira exigência dos assaltantes. A seguir, já com a refém instalada no banco traseiro do Gol, mandaram-na repassar suas joias. “Tratei de logo tirar e entregar os brincos, pois tinha visto em um filme uma cena onde bandidos arrancavam os brincos de uma vítima”, conta. Foi com dor no coração que entregou também a aliança de casamento e um anel que trazia, presos por uma argolinha, dentes de leite dos três filhos. Eram joias com um grande valor sentimental.

Mas o pior estava por vir.

O veloz Gol 1.8 usado pelos bandidos, que ficou com a traseira amassada após a batida com o carro da bancária

O plano frustrado

A viagem até Santa Cruz do Sul foi apavorante. Enquanto sentia a pressão do cano de um revólver no quadril, Helena assistia, incrédula, às manobras arriscadas que o motorista fazia ao volante do Gol. Em alta velocidade, o carro seguiu costurando pela RS-509, colecionando ultrapassagens forçadas rumo a Santa Cruz. A situação era ainda mais surreal porque o assoalho do automóvel estava cheio de armas, curtas e longas, e Helena teve de permanecer com os pés sobre elas. Logo ficou claro que o plano dos criminosos era roubar mais do que a quantia do malote. “Eu perguntei por que não me soltavam de uma vez e eles responderam que me queriam como refém. Planejavam outro ataque”, recorda.

Antes, porém, os criminosos concluíram que era preciso trocar de carro e livrar-se do Gol com marcas da colisão. Ao chegar em Santa Cruz, rumaram ao Bairro Higienópolis, onde tentaram abordar a motorista de um Monza. A condutora, entretanto, começou a gritar por ajuda e afugentou os ladrões, que então seguiram com o Gol até a esquina das ruas Thomaz Flores e Ramiro Barcelos, onde ficava o antigo Supermercado Ebert.

Ao chegar, um dos ladrões deu um recado a Helena: “Nem pense em gritar”. E, indiferentes a todo o movimento da esquina, os bandidos desceram do Gol e surpreenderam o aposentado Kurt Rehbein, de 78 anos, hoje falecido, que embarcava em seu Voyage com as sacolas de compras. Rendido, Rehbein teve de sentar no banco traseiro do próprio carro, onde Helena também foi colocada. Os criminosos ocuparam os outros assentos – um deles junto com as vítimas – e o Voyage desceu a Ramiro Barcelos.

Foi no cruzamento seguinte, com a Rua Marechal Deodoro, que a intenção dos criminosos ficou nítida: eles planejavam atacar nada mais, nada menos que a própria sede do Banco do Brasil. “Pelo menos, foi o que deduzi. Talvez a ideia fosse me usar como refém para invadir a agência”, conta Helena. O motorista chegou a parar o carro na esquina, pouco acima do banco, mas então soltou uma praga. Naquele exato momento, um carro-forte estava na frente da agência, descarregando valores cercado por guardas.

O trio então desistiu do roubo e concluiu que o melhor era sair de Santa Cruz. O Voyage avançou pela Ramiro, passou na frente da Catedral e ingressou em plena Marechal Floriano, repleta de transeuntes. “Eu olhava para todas aquelas pessoas, do lado de fora, e me sentia impotente, sem ter como pedir ajuda. Muitas eram conhecidas minhas e nem tinham como imaginar minha aflição.”

Helena lembra que, na esquina do Quiosque, Kurt ainda tentou fazer um sinal para um conhecido, mas a intenção foi percebida pelo bandido que se espremia com as vítimas no banco de trás. “Tu quer ser o primeiro a morrer?”, rugiu o assaltante. A gerente, por sua vez, tentou acalmar o aposentado. “Calma, vai acabar tudo bem.”

Em dado momento, os ladrões decidiram libertar Kurt. Mas, para Helena, a viagem ainda estava longe do fim.

A aliança e o anel com os dentes de leite foram devolvidos: valor sentimental

O primeiro assalto

Funcionários do Banco Meridional, Germano Eick e Ênio Kessler – falecido em 28 de maio de 2018, aos 65 anos – tinham uma rotina parecida com a de Helena Hermany. Diariamente, seguiam pela manhã até Trombudo para abrir a agência levando documentos e um malote com dinheiro. “Naquela época, carro-forte era coisa rara. Só eram usados para grandes quantias. Assaltos eram raríssimos, então, fazíamos o trajeto sem medo”, relembra Germano, hoje com 63 anos.

Porém, na manhã de 6 de dezembro de 1989, o tema insegurança, debatido no Programa Lauro Quadros, na Rádio Gaúcha, chamou-lhes atenção enquanto seguiam a Trombudo. O gancho do assunto em debate na emissora era o assalto a um empresário, ocorrido dois dias antes em Porto Alegre. Na ação, três homens levaram o automóvel da vítima – um Gol GTS branco. Na manhã seguinte, Germano e Ênio topariam com o mesmo carro.

Eram cerca de 9h40 de 7 de dezembro de 1989 quando Germano, ao volante de sua Brasília, foi “fechado” pelo Gol branco, por um Escort XR3 e por um Alfa Romeo, dois quilômetros depois do trevo de acesso a Trombudo. Em uma ação rápida, bandidos desceram dos três carros, arrancaram os bancários de dentro da Brasília e se apossaram de um malote com 4,5 mil cruzados novos. Ênio foi obrigado a embarcar no Escort e Germano foi colocado no Gol roubado em Porto Alegre.

“O carro estava cheio de armas, revólveres e espingardas de calibre 12. Tive que sentar no banco de trás, com um revólver encostado na barriga”, recorda. Um dos assaltantes assumiu o volante da Brasília, ingressou na RS-509 e avançou alguns quilômetros em direção a Candelária, seguido pelo Gol e pelo Escort. Possivelmente para despistar a polícia, o grupo parou, abandonou a Brasília e voltou caminho na direção de Santa Cruz, agora com Germano instalado no banco traseiro do Escort, ao lado de Ênio e de um dos bandidos.

Logo após o trevo de acesso a Trombudo, um carro que vinha em sentido oposto chamou a atenção dos bandidos. “É ela, é ela”, um deles gritou. “Deixa, que os outros vão atrás”, retrucou um comparsa. Germano então percebeu que o Gol branco deu meia volta sobre o asfalto e seguiu novamente rumo a Trombudo. Na hora, os reféns não entenderam o que estava acontecendo. Só mais tarde, depois de libertados e colocados a par das notícias daquele dia, ficariam sabendo que “ela”, no caso, era Helena Hermany.

Alívio que custou a vir

O Escort XR3 era outro carro com fama de rápido naquela época. Germano e Ênio tiveram prova disso no trajeto até a Tabaí-Canoas. “O motorista aloprou, com manobras arriscadas em alta velocidade”, conta Germano. A angústia dos reféns terminou na altura de Nova Santa Rita, onde os bandidos pararam o carro e os mandaram descer. Para desespero de Germano, o colega ainda protestou. “Vão nos deixar aqui sem nenhum dinheiro para apanhar um ônibus?” Os bandidos então alcançaram-lhes alguns trocados e se foram.

Os dois colegas caminharam até um posto de combustíveis, onde ligaram para o banco e a Brigada Militar. A seguir surgiu uma viatura e os bancários ainda tiveram que acompanhar os PMs em uma incursão por lugares barra-pesada da Região Metropolitana, onde poderiam topar com o Escort ou com os assaltantes e reconhecê-los. “Minha vontade era pedir aos policiais que nos deixassem descer. Já havíamos nos livrado dos bandidos e, agora, tínhamos que tentar reencontrá-los”, narra Germano.

As buscas não deram em nada e, por fim, os dois bancários tomaram um táxi para retornar a Santa Cruz do Sul. “Voltamos quase deitados sobre os bancos do táxi, com medo de sermos vistos pelas janelas, imaginando que os bandidos ainda poderiam estar pela estrada…”

“A senhora sabe nadar?”

A pergunta brotou de um dos sequestradores, enquanto o Gol branco passava, a toda velocidade, na ponte sobre o Rio Taquari, em Mariante. “A senhora sabe nadar?” O sangue de Helena Hermany gelou, mas ela respondeu que sim. “Menti que nadava muito bem, mesmo sabendo que, na verdade, me afogaria em instantes. Imaginei que, respondendo aquilo, eles desistiriam de me jogar da ponte, se a ideia era realmente me matar”, lembra a vice-prefeita.

Todo o trajeto foi marcado por intimidações como aquela. Os ladrões diziam que eram fugitivos da cadeia, que já haviam matado muita gente e, para eles, matá-la não faria a menor diferença. “Mataram um companheiro nosso ontem, e estamos loucos. Somos todos bandidos”, afirmou um deles. O que mais assustou Helena, porém, foram as ameaças a sua família. “Eles demonstraram conhecer toda nossa rotina, onde os guris estudavam, onde jogavam futebol, em que horários saíam de casa. Creio que nos seguiram por alguns dias, antes do assalto. Disseram que, se eu contasse algo à polícia, voltariam depois para se vingar.”

Apesar do medo, Helena fez de tudo para manter o controle. Por coincidência, dias antes, havia feito um curso sobre inteligência emocional e buscou colocar o que aprendera em prática durante o sequestro. “Hoje, penso que foi a Providência Divina que me levou a fazer aquele curso, pouco tempo antes. Busquei acalmar os próprios bandidos, interagindo com eles.”

O motorista do Gol era o mais agressivo. Já o que demonstrou ser o mais simpático – pelo menos, diante das circunstâncias – era o ocupante do assento ao lado do condutor, que tinha rosto de menino e cabelos longos, encaracolados. Ele chegou a elogiá-la, por demonstrar tranquilidade. Helena, então, aproveitou a deixa e pediu que ao menos lhe devolvessem os anéis, em razão do valor sentimental. Os criminosos se entreolharam e o cabeludo assentiu: “Vamos atender o pedido. Ela foi uma boa refém”.

Surge um bom samaritano

As notícias sobre o desaparecimento de Helena começaram a se espalhar assim que a Marajó foi encontrada com marcas de acidente. Além da Brigada Militar e Polícia Civil, por ordem de Arno Frantz todos os veículos da Prefeitura foram mobilizados nas buscas. Uma aglomeração se formou na frente da casa dos Hermany, no Bairro Goiás.

“A quadra toda ficou cheia de gente esperando por notícias, foi um alvoroço”, relembra uma cunhada de Helena, que ainda hoje prefere não ser identificada por medo dos bandidos. Foi com alívio que ela viu a esposa do irmão Edmar chegando em casa, às 15 horas. Helena havia sido abandonada pelos criminosos nas proximidades do Polo Petroquímico de Triunfo. “Quando chegou, ela estava muito abalada, com um semblante pesado. Parecia ter vindo de uma guerra. Ainda abanou para as pessoas na rua e entrou”, lembra a cunhada.

Em casa, Helena foi atendida pelo seu médico, o conhecidíssimo Carlos Alberto Kämpf, e orientada a repousar. Os três filhos foram enviados para passar a noite na casa das madrinhas. E no outro dia, ela se apresentou, antes das 10 horas, na agência de Trombudo. “O clima de medo persistiu entre nós, porém, imagino que mais ainda para a Helena, que viveu tudo aquilo. Ainda assim, ela seguiu a rotina, pois tudo na agência dependia dela”, relembra Marco Machado, na época estagiário do posto avançado e hoje diretor do Hospital de Vale do Sol.

A identidade dos assaltantes nunca foi descoberta. Já a tensão que Helena viveu naquele dia refletiu-se no estômago: por muitos dias, não conseguiu comer. “Não digo que fiquei traumatizada, simplesmente não tinha fome. Só me alimentei por mérito de meu sogro”, conta. O sogro, Ewaldo Waldemar Hermany, ministrou-lhe a comida em doses homeopáticas, com uma colher de sopa. “Você precisa comer, Helena”, insistia.

Por 30 anos, Helena se perguntou quem teria sido o benfeitor que a encontrou em Triunfo, ainda desorientada, e a levou para casa. Após o medo nas mãos dos bandidos, a viagem de volta tornara-se um borrão na memória. Foi por acaso que o seu filho mais velho, o professor de Direito Ricardo Hermany, descobriu o nome do motorista. Ricardo falou sobre o sequestro durante uma reunião, há algumas semanas, e um dos presentes revelou ter escutado a mesma história, só que de outra fonte – no caso, do próprio homem que levara a vítima de volta para casa.

O benfeitor fora Airton Bloemer, motorista da Souza Cruz. No dia do sequestro, ele havia levado um comprador de tabaco estrangeiro para o Aeroporto Salgado Filho e estava voltando sozinho quando notou Helena à beira da estrada. Então, pisou no freio e deu marcha à ré no Opala Diplomata. “Eu a reconheci, pois tinha conta no Banco do Brasil. Ela ainda segurava uma corda na mãos, acho que havia sido amarrada. Perguntei o que havia acontecido e ela me falou do sequestro”, recorda Airton, hoje com 67 anos e morador de Indaial (SC).

O motorista viu-se então diante de um dilema. A regra da empresa era não dar carona, mas aquele caso era diferente. “Azar”, pensou. Então, acomodou Helena no assento, passou-lhe o cinto de segurança e seguiu viagem até a residência dos Hermany. “Ela não falou nada durante todo o trajeto, estava em choque.” Naquela tarde, ao chegar em casa, Airton relatou o episódio à esposa Rejane e, por fim, confidenciou: “Ela estava tão assustada que desceu do carro e correu para dentro de casa. Nem me agradeceu”.

Salvo a um ou outro amigo, o casal Bloemer também evitou falar sobre o episódio. Helena, por sua vez, sempre nutriu curiosidade em relação à identidade do benfeitor, para dizer-lhe o “muito obrigado” que ficou devendo. Sua ideia, agora que o nome dele foi revelado, é reencontrá-lo. “Quero vê-lo pessoalmente, para agradecer. Ele foi um anjo.”

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