Santa Cruz do Sul 02/03/2019 18h04 Atualizado às 19h15

Hora de discutir o futuro do Túnel Verde

Metade das tipuanas da Marechal Floriano está doente e situação exige uma decisão: o que fazer com um dos cartões-postais de Santa Cruz?

Até maio do ano passado, quando a Prefeitura de Santa Cruz deu início à operação de cuidado e monitoramento do Túnel Verde, existiam 178 tipuanas plantadas na Rua Marechal Floriano, no trecho entre as ruas Senador Pinheiro Machado e Tiradentes. Quatro árvores já foram removidas e outras três estão na lista do corte para o dia 10 deste mês. Se considerado apenas o estado de saúde das plantas e as condições nas quais elas se encontram no espaço, aplicando o que prevê o Plano Diretor do Município, quase todas precisariam ser retiradas de lá o quanto antes. 

Conforme a coordenadora técnica do projeto de preservação do Túnel Verde, a bióloga Daniela Silveira, à luz do que determina o Plano Diretor, a maioria das árvores deveria ser removida. “Mas a gente não olha só a lei. A avaliação é integral, observa-se a condição da planta e a necessidade iminente de remoção ou não.” 

Segundo Daniela, desde maio do ano passado, quando a força-tarefa do Túnel Verde foi iniciada, envolvendo as secretarias municipais de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade; Transportes e Serviços Urbanos; e o gabinete do prefeito, mais de 30 visitas técnicas foram realizadas. Nessas verificações, a bióloga e a engenheira florestal que se dedicam ao estudo avaliaram as condições das tipuanas, as características gerais do Túnel Verde e o que prevê o Plano Diretor. “As intervenções feitas até aqui foram podas de galhos que ofereciam risco ou corte das árvores que estavam condenadas”, explica a coordenadora. 

De acordo com Daniela, ainda neste mês, o projeto de preservação terá o diagnóstico das árvores concluído, inclusive com indicações de corte e substituição. Para além disso, existe a necessidade de manter, de forma permanente, o trabalho de prevenção. “O ciclo de vida dessas árvores não é mais tão longo. As tipuanas vivem até 140 anos, mas na natureza, sem a interferência de veículos, de prédios ou parasitas. É difícil dizer hoje quanto tempo elas irão durar. São árvores que apresentam condições precárias, não estão totalmente saudáveis”, alerta a coordenadora. 

Comunidade será chamada a opinar, garante o prefeito

Preocupado com o quadro prévio apresentado sobre o Túnel Verde, o prefeito Telmo Kirst (PP) afirma que a hora de discutir sobre o futuro do espaço é agora. “O futuro do Túnel Verde e das tipuanas é um debate que precisa ser feito. Não dá mais para esperar”, ressalta. 

Para o chefe do Executivo, a queda de galhos já deu vários “sustos” na comunidade. Por causa disso, é necessário que se faça um debate com a população. “Substituir ou manter as árvores, por exemplo, é uma decisão que precisa ser tomada logo ali na frente. E que não pode ser tomada só pela Prefeitura. A comunidade precisa se envolver e opinar. Não podemos fugir de uma decisão sobre o futuro.”

Conforme nota encaminhada pela Secretaria Municipal de Comunicação, a Procuradoria Geral do Município (PGM) estuda a melhor forma de realizar a consulta pública a respeito do Túnel Verde. “É necessário que se respeitem critérios técnicos com relação ao manejo dessas árvores. Mesmo que a população se posicione contra o corte, aquelas tipuanas que oferecerem risco deverão ser cortadas, e isso precisa estar claro neste processo”, afirma o texto. 

A PGM vai elaborar um parecer jurídico para informar ao prefeito a maneira como a consulta popular deve ser realizada. “O importante é que o prefeito quer ouvir a comunidade e nós precisamos saber como isto será feito”, ressalta a nota da Secretaria Municipal de Comunicação. 

A relação de preocupação e amor da comunidade

Foto: Bruno PedryKroth: não há como ficar sem o Túnel Verde
Kroth: não há como ficar sem o Túnel Verde

Do alto do 12º andar do edifício que tem o mesmo nome das árvores do Túnel Verde, Cornel Boettcher observa a paisagem a partir da copa das tipuanas. Há oito anos no endereço, ele não troca a vista que tem por qualquer coisa, tampouco crê na possibilidade de ficar sem ver as árvores. “É maravilhoso, ninguém pode dizer que não é lindo, mas convivemos com cupins, que sobem das árvores para o prédio”, comenta.

O morador explica que não é possível fechar os olhos aos problemas, como pragas de insetos, queda de galhos ou calçadas danificadas. “É necessário que se criem ações para evitar esses problemas, pois o Túnel Verde precisa ser ampliado. Imagina se tivéssemos dois túneis em Santa Cruz.”

A vendedora Janaina Dummer da Rosa conta que às vezes nem percebe quando está chovendo, tamanha é a cobertura da copa das árvores na Marechal Floriano. “Toda vez que a cidade recebe algum evento grande, é comum vermos turistas tirando fotos e comentando como Santa Cruz é bonita. Nos sentimos felizes com isso.”

O empresário João Carlos Kroth, da Loja do Esportista, conta que as tipuanas são “parceiras” da loja. “As raízes delas estão por toda parte, embaixo do prédio. A cada 15 dias é preciso limpar as calhas que ficam entupidas, mas não há como ficar sem ele”, revela. Kroth conta que o Município precisa pensar em soluções diferentes, realizar uma manutenção preventiva para oferecer segurança ao cartão-postal da Marechal Floriano. “Se tirarmos o túnel o Centro ficará feio, os prédios não são bonitos o suficiente para manter a beleza de nossa cidade.” 

Ambientalista crê na continuidade das tipuanas

O biólogo e ambientalista José Alberto Wenzel, que já foi prefeito de Santa Cruz, diz que o município mantém um tesouro vivo no Centro. O “ouro verde” de Santa Cruz é o Túnel Verde, segundo ele. “As torres da Catedral São João Batista apontam para o céu; as tipuanas abraçam-no, é lindo demais.”

O ambientalista explica que as árvores fazem parte do contexto histórico, cultural e social de Santa Cruz. Estão dentro do patrimônio intangível, que não tem valor, não está à venda e precisa ser mantido. “O túnel é uma floresta urbana e por isso absorve ruído, absorve calor e minimiza a poeira, purificando o ar. Ele precisa ser preservado e cuidado, não trocado”, ressalta.

Para o ex-prefeito de Santa Cruz, conviver com raízes que danificam calçadas e construções faz parte da natureza, da inserção do verde no meio urbano. “Não é feio, a gente não precisa de calçadas retas, tudo quadrado. Aquela imperfeição na calçada mostra que ali tem vida, isso é maravilhoso.”
 

Foto: Bruno Pedry

 

Saiba como Porto Alegre cuida das suas árvores

Em Porto Alegre existe a Rua Gonçalo de Carvalho, que é considerada a “rua mais bonita do mundo”, pois é formada por 96 tipuanas. Conforme a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, desde 2017 há um programa de manejo arbóreo na Capital que prevê a manutenção dessas tipuanas, plantadas ainda na década de 1930.

Segundo a Prefeitura, um levantamento preliminar indica a necessidade de podas, levantamento de copas, retirada de galhos secos e remoção de ao menos três unidades da Gonçalo de Carvalho. Ao todo, 15 equipes trabalham na manutenção das árvores em Porto Alegre. A prefeitura conta ainda com um número de telefone, o 156, para a comunidade participar com informações sobre as árvores e a necessidade de manutenção, nos diferentes pontos da Capital.

Inspirado na Cidade Maravilhosa

Em 1942, o então gerente do Banco Agrícola Mercantil de Santa Cruz, Carlitos Kaempf, sugeriu ao prefeito da época, Dário Barbosa, que se fizesse um corredor de tipuanas na rua principal. A inspiração vinha da Rua Uruguaiana, da cidade do Rio de Janeiro.

Naquela época, as mudas das tipuanas do Túnel Verde foram trazidas para Santa Cruz de Porto Alegre, já com porte adulto. O túnel levou um ano para ser replantado na Marechal Floriano. 

O diagnóstico

174 árvores atualmente;

3 devem ser removidas na próxima intervenção, programada para a primeira quinzena deste mês, já com autorização de corte;

96 com espaços ocos significativos no tronco, e mais de 70 anos de vida;

169 estão plantadas em canteiros inadequados, ou em locais que o regulamento do Plano Diretor não permite, como nas esquinas. Apenas cinco canteiros estão ajustados para o tamanho das árvores;

112 estão com as raízes aflorando pelas calçadas, prédios ou rua;

37 têm raízes que provocam elevações nas calçadas;

98 árvores têm raízes que passam por baixo da Marechal Floriano;

45 estão com lesões provocadas por choques de automóveis ou caminhões. O tronco apresenta falhas, que muitas vezes não se regeneram;

107 têm focos de cupins ou ninhos de formigas no tronco. Onde há formigas, existem fungos. Onde existem fungos, há espaços ocos no tronco; 

13 tipuanas têm ninhos de abelhas nativas em seus troncos. Essas abelhas não têm ferrão, são “boas”; 

52 é o número de espécies de pássaros catalogadas, habitando copa ou tronco das tipuanas. Destas, 12 espécies são migratórias. 

Conforto térmico de até 10 graus durante o calor do verão 

Para o professor de biologia da Unisc, Andreas Köhler, mais que embelezar o Centro de Santa Cruz, o Túnel Verde é abrigo de espécies de aves, insetos e plantas, além de ser um grande guardasol armado sobre as cabeças dos santacruzenses, especialmente no verão. 

“A literatura conta que uma sombra, em dias de calor, consegue reduzir a sensação térmica em até 10 graus. Essa é a grande diferença entre estar embaixo do túnel ou em ruas que não essa cobertura”, explica. Segundo Köhler, mesmo sendo formado por árvores exóticas, que não são naturais da região, as tipuanas cumprem a função ecológica de preservar outras espécies, oferecendo sombra e o embelezamento do Centro. 

O pesquisador defende a criação de um projeto escalonado de substituição. Conforme Köhler, existem árvores de porte semelhante às tipuanas, com raízes menores e menos chances de provocar acidentes e prejuízos. “Nada impede que essa troca seja gradual. Se a cada ano fosse substituído 10% delas, ao final de uma década teríamos novas árvores, parte delas com um bom porte, renovando o nosso Túnel Verde.”