AGRONEGÓCIO 14/02/2020 19h12 Atualizado às 22h23

O arroz não está mais só: ele casa bem com a soja

Rotação de culturas ganha espaço junto aos produtores, que começam a colher a safra com nova redução da área de cultivo

Se Pelotas é a terra dos doces, como o bem-casado, a abertura oficial da colheita do arroz da safra 2019/2020, que ocorre desde quarta-feira, 12, até esta sexta, 14, na Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa em Capão de Leão, naquela região, coloca em ênfase o bom casamento que se firma entre o cereal e a soja, assim como outras culturas e a pecuária. Foi a maneira encontrada pelo setor para buscar a sua sustentabilidade, cuja intensificação está sendo colocada como tema desta edição, a trigésima no total e a segunda naquela unidade.

A rotação de culturas é fundamental nesse processo, diz Alexandre Velho, presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Estado (Federarroz/ RS), organizadora do evento, junto com a Embrapa e o apoio do Instituto Rio-grandense do Arroz (Irga) e diversas empresas e instituições. Ele observa que a produção tem custos muito altos e a rotação permite reduzir esse encargo, além de aumentar a produtividade, como ele mesmo comprovou na sua propriedade em Mostardas (RS), onde planta arroz durante quase 30 anos e soja há sete. O custo diminui 15% e o rendimento físico por área, entre 10% e 20%, constatou.

Experiências em destaque na abertura oficial da colheita do arroz, em Capão do Leão, mostram os ganhos do consórcio do cereal com outras culturas, caso da soja | Foto: Lula Helfer

Nesse sistema, enfatiza ainda o uso de agroquímicos diferenciados, o que diminui a resistência, e a cobertura vegetal do solo, com pastagens de inverno, incluindo a pecuária, outra fonte de renda, na propriedade. As vantagens do procedimento são reforçadas por Guinter Frantz, presidente do Irga, segundo o qual a propriedade precisa ser olhada como sistema de cultivo saudável, que preveja o menor revolvimento possível do solo, menor uso de agroquímicos e manejo da fertilização, preservando o meio ambiente, melhorando resultados e, ao final, colocando no mercado um alimento mais saudável.

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Frantz, do Irga: sistema mais saudável | Foto: Lula Helfer

Ambos verificam uma redução na área cultivada de arroz no Estado, principal produtor do País (segundo Velho, foram 250 mil hectares a menos em dez anos), e assim deve continuar, ao mesmo tempo em que aumenta a rotação. Isso, conforme o dirigente da Federarroz, é reflexo das dificuldades do segmento, como falta de renda (no último ano, houve aumento no pico da entressafra, quando o produtor não tinha mais oferta), levando assim à busca de meios alternativos de sustentabilidade. Na safra 2019/20, o cultivo gaúcho ficou em 930 mil hectares (contra 964 mil na etapa anterior) e para a próxima, a previsão é de que não chegue a 900 mil hectares.

Velho, da Federarroz: menos custos | Foto: Lula Helfer

Mercados
Outro aspecto que preocupa a federação do setor é a busca de novos mercados, tema inclusive abordado nessa quinta-feira, 13, no evento de abertura da colheita. O foco da entidade é de conquistar novos destinos para diminuir a pressão no mercado interno e trazer valorização dos preços ao produtor, afirma o presidente Alexandre Velho.

Nesse sentido, um dos principais objetivos atuais é intensificar negociações com o México, que importa 800 mil toneladas no total e apresenta oportunidade de ingresso do produto brasileiro com menor safra dos Estados Unidos, principal fornecedor, e ocorrência de seca em terras mexicanas.

O Brasil, que vem aumentando a exportação de arroz nos últimos anos, conseguiu colocar o produto naquele país no final de 2019 e pretende incrementar essas operações, o que vai ser buscado também em feira local que acontecerá no final de março próximo e vai contar com a presença do dirigente da Federarroz. Mas Alexandre Velho salienta que outros mercados ainda estão sendo visados, como é o caso do Panamá e a Guatemala. “Não podemos ficar dependentes de países muito instáveis politicamente, a exemplo da Venezuela”, completa.

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