ISOLAMENTO EM FAMÍLIA 05/04/2020 16h43

A brincadeira do Fusca azul

A brincadeira pegou entre a garotada, nas ruas e escolas, até perder a graça, algum tempo depois. Mas não para a Ágatha

A brincadeira do Fusca azul chegou lá em casa trazida pelos mais velhos, creio que pelo Júnior ou pela Isadora. Por um tempo, foi moda entre seus colegas de aula. Funciona assim: sempre que se percebe a passagem de um Fusca azul, se grita:

 – FUSCA AZUL! – e se dá um tapinha na testa de quem estiver mais perto.

Claro que há uma forma de se defender. Se a vítima em potencial também perceber, a tempo, a passagem do Fusca azul, deve cruzar os dedos e gritar:

 – FUSCA AZUL, RISQUEI! – ficando, assim, imune ao tapinha.

É importante ressaltar que, por tapinha, entende-se um leve toque na testa da vítima. A regra é clara. O objetivo não é agredir, e sim, desmoralizar quem não foi ágil ante a passagem do Volks.

Ainda assim, a brincadeira não tem nada de pedagógica ou instrutiva, como se pode perceber. No máximo, treina a motricidade das crianças, bem como sua agilidade e, particularmente, a capacidade de ficarem atentas ao que transcorre no entorno. O que também pode ter efeitos nocivos, como a sensação de medo ou insegurança diante da possibilidade de, a qualquer momento, um Fusca azul aparecer na próxima esquina. De certa forma, a brincadeira acaba deixando os pequenos em constante estado de vigilância, o que pode ser bom ou ruim.

Ademais, há um quê de irracional, de inexplicável, na brincadeira. Intrigam-me suas origens e as justificativas das normas de seu estatuto. Afinal de contas, por que tem de ser um Fusca azul? Claro que há todo um componente mítico em torno do Fusca, um carro lendário, que congrega em torno de si tanto legiões de fãs quanto de críticos. Além disso, o Fusca é inconfundível, o que contribui para dirimir a possibilidade de erros durante o jogo. Se o carro fosse uma Brasília, por exemplo, haveria o risco de, no calor da brincadeira, ser confundido com uma Variant ou um TL – quem tem 40 anos ou mais sabe do que estou falando.

Tudo bem que seja um Fusca, portanto. Mas por que tem de ser azul? Por que não vermelho, verde ou amarelo? Qual a misteriosa origem da opção pelo azul? Por sorte, a regra não vale para Fuscas brancos, bem mais comuns, o que geraria uma epidemia de tapinhas ou de dedos “riscados”.

Contudo, é fato que, por um tempo, a brincadeira pegou entre a garotada, nas ruas e escolas, até perder a graça, algum tempo depois. Mas não para a Ágatha. A caçula contagiou-se a tal ponto com a brincadeira do Fusca azul, que se tornou uma entusiasta dela. E, até pouco antes da suspensão das aulas por conta da quarentena, eu vinha levando tapinhas na testa por não “riscar” a tempo.

A situação se agravava porque há algumas normas da brincadeira que não são claras, o que provocava discussões. No trajeto para a escola das crianças, por exemplo, havia um Fusca azul sendo restaurado em uma garagem. Da rua era possível vê-lo sobre cavaletes, sem as rodas, o capô e as portas. Porém, o estatuto da brincadeira não especifica se um Fusca azul desmontado, seja em fase de restauração ou mesmo apodrecendo em um ferro-velho, tem o mesmo valor que um Fusca azul rodando. Particularmente, creio que não. Mas Ágatha tinha opinião diferente:

 – FUSCA AZUL – e pafff.

 – Mas aquele Fusca não vale!

 – Vale…

 – Mas é um Fusca em pedaços, não anda, está até sem as rodas.

 – Mas ainda é um Fusca azul…

Para evitar tanta discussão, comecei a tomar o cuidado de “riscar” sempre que passávamos por ali. E já estava avaliando a possibilidade de mudar de rota.

Mas então começou a pandemia, a suspensão das aulas e a quarentena. O risco de levar um tapinha ante a passagem de um Fusca azul deu lugar a um perigo infinitamente mais temeroso e assustador, o do coronavírus. E, de lá para cá, as crianças não colocaram mais o nariz para fora do pátio.

Contudo, quando eventualmente sentamos para um mate na varanda da frente, Ágatha se coloca junto, atenta ao movimento do outro lado das cercas. Nossa rua, no entanto, já era muito tranquila mesmo antes do confinamento e, hoje, são raros os carros que passam por ela. E, dentre esses, não há nenhum Fusca azul.

Porém, Ágatha é persistente e, nestas ocasiões, não arreda pé da vigília. E, certamente, já deve estar tramando um novo estatuto, talvez ampliando a abrangência da brincadeira para a passagem de veículos de qualquer modelo, ou de pássaros no céu, ou de formiguinhas no chão…