Conversa Sentada 28/12/2017 09h43

Amigos

De um músico nativista aprendi que é bom ser compreensivo com aquele que se afasta. Quando ele cansar e se voltar, nada de cobranças

A mis amigos dedico esta zamba,
en ella siempre me recordarán,
unos con pena dentro del alma,
otros soñando con mi guitarrear;

En ellos supe encontrar un consejo,
en ellos supe encontrar un querer,
por eso a todos aquí les digo,
nunca un amigo debemos perder;
(Figueroa Reyes)

Ultimamente me ocorreram uns ataques de saudade de antigos amigos que não vejo pessoalmente há mais tempo. Amanheço, pego minha caminhonete e me meto na estrada para almoçar com o amigo e voltar. Bate e volta, como se diz. Gosto muito de alguns, com quem adoro passar o dia conversando. Sim, o dia inteiro. Tenho um amigo de infância que mora enfurnado num sítio, no meio do mato. Imaginem, o cara não tem celular. Como ele quase nunca sai da toca, visito-o sem prévio aviso. Uma vez, porém, bati com o nariz na cerca, pois ele viajara. Nessas visitas ele quase não fala e ficamos escutando música erudita, o único gênero que aprecia. Uma ou duas vezes por ano aparece na minha casa, faz suas romarias pelos sebos, armazena um monte de livros e se manda de volta ao seu refúgio.

Já notei, porém, que essa nova classe de amigos, os virtuais, é excelente, desde que permanecendo na virtualidade. Um dia inventei de combinar um almoço com um colega com quem me correspondia por mails e watts. Em poucos minutos a conversa “mermou”.

Penso que o primordial é que nunca se deve perder um amigo.

Se alguém te sacaneou, então ele não era teu amigo. Nesses raros casos penso ser melhor não falar mal. Deixa rolar, pode ser que mais na frente ocorra uma reconciliação ou se descubra que “a coisa não foi bem assim”.

Numa dessas charlas intermináveis de galpão, um amigo de Santiago me explicou que o amigo para pescarias talvez não seja o conselheiro ideal para teu investimento de um milhão de piastras em Miami. Até faz sentido. Mas ele tem outra tirada muito ferina: “Desconfia daquele amigo cuja esposa não gosta de ti.” Tese instigante, mas com a qual não me comprometi.

De um músico nativista aprendi que é bom ser compreensivo com aquele que se afasta. Quando ele cansar e se voltar, nada de cobranças! Siga o papo de onde terminou.
A amizade, contudo, não é salvo-conduto para falta de educação. Se teu amigo engordou ou pintou os cabelos, é melhor não tocar no assunto. Se ele aparecer com uma gatíssima a tiracolo, fica frio, pode não ser a filha...