LITERATURA 22/03/2020 21h47 Atualizado às 22h44

Para viajar sem tirar as crianças de casa

Caderno Magazine elegeu os livros como as melhores companhias para estes dias de privação de rotina escolar e convívio social

O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, na abertura de seu livro mais famoso – talvez o mais conhecido livro da face da Terra, depois da Bíblia –, O pequeno príncipe, pede perdão para as crianças por dedicar sua obra para um adulto, Leon Werth. E ele enumera alguns motivos para isso, dentre os quais o fato de Leon ser o seu melhor amigo. E também porque, segundo Antoine, “essa pessoa grande (o Leon) mora na França e ela tem fome e frio. Ela precisa de consolo.” E Leon, um dia, também já foi criança.

Estamos vivendo um período em que todos, de uma certa maneira, precisam de consolo, ao mesmo tempo em que necessitam ser o melhor amigo… de si e de quem está bem próximo. Privados temporariamente de uma rotina escolar normal e de todo e qualquer tipo de convívio social por conta do coronavírus, as crianças e os pré-adolescentes esperam de você, dos pais ou responsáveis, uma solução legal para tornar estes dias de chumbo, pelo menos um pouco mais leves para eles. E, para tanto, o caderno Magazine elegeu os livros como a melhor companhia, a começar pelo próprio O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (Harper Collins, 94 páginas, R$ 21,90).

Claro que um especialista no assunto, o livreiro Pedro Zinn, 23 anos, que há dois trabalha no time de frente da Livraria e Cafeteria Iluminura, auxiliou de forma muito cordial – e competente! – nesta agradável empreitada. Pedro, não faz muito, também já foi criança e sabe direitinho o que elas mais gostam de ler.

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Por conta da quarentena, o livreiro disse que a direção da loja esteve reunida com os seus funcionários na quinta-feira à noite e decidiu que eles não vão fechar, porem vão trabalhar com um horário reduzido, que seria definido ainda neste final de semana. O telefone da Iluminura é o 3056 2871, e o e-mail iluminuracontato@gmail.com.

O que pode ajudar a seduzir as crianças em O pequeno príncipe é que ele é todo ilustrado com aquarelas produzidas pelo próprio autor. Apesar da presença explícita de dois personagens e do registro de um diálogo entre um aviador e uma criança, diversos aspectos autobiográficos estão presentes na narrativa, publicada pela primeira vez em 1945.

Por intermédio de imagens simbólicas, as passagens de ordem temporal, na vida do autor, estão ali presentes: casamento/separação, profissões, sonhos, decepções. Os dois personagens tornam-se representações do próprio Saint-Exupéry, em um monólogo interior entre o “eu” e o “outro”. E você pode ler livro acompanhando o filme, no Youtube.

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DICAS

O melhor lugar
Na linha infantil de descobrir coisas por aí está Aqui, ali e em todo lugar (Martins Fontes, R$ 64,90), de Sam McBratney, que retoma os personagens de Adivinha quanto eu te amo, de 2018, que fez sucesso no mundo inteiro.

Em quatro pequenas histórias, o Coelhinho Marrom sobe na “árvore esconderijo”, foge da neblina das “montanhas nubladas” e vai sozinho até os campos distantes. E, no fim, ele descobre que o melhor é a “volta para casa”, porque lá está seu pai, o Coelho Marrom.

As fábulas do bem
Os textos de Jean de la Fontaine adaptados por Regina Drummond para uma edição da Paulus, Fábulas de la Fontaine (80 páginas, R$ 60,00), de 2018, também se configuram em preciosa publicação para crianças, nestes tempos de recolhimento. Ainda mais com as ilustrações de Veruschka Guerra. La Fontaine viveu na França, de 1621 a 1695, e frequentou a corte de Luis XIV, o Rei Sol, o que lhe serviu de base para as fábulas que o tornaram famoso. Ele também reescreveu algumas das fábulas de Esopo (século VI a.C.). Foi um grande contador de histórias, e um grande observador do cotidiano de sua época.

Uma história de cor
O jornalista e escritor Tarso de Castro considerava Flicts, de Ziraldo, que conta a historinha da cor que dá nome ao livro, “uma das coisas mais bonitas já feitas neste país”. Com esta nova edição da Melhoramentos, (80 páginas, R$ 59,00) que saiu no ano passado, comemorativa de 50 anos, a partir da primeira, de 1969, ficou ainda mais bonito. Outro jornalista, o Zózimo Barroso do Amaral, escreveu no Jornal do Brasil, em 20 de agosto de 1969: “Uma obra de beleza incomparável.” Flicts, uma cor desprezada pelas outras cores, vira um sucesso quando… Bem, é melhor que você descubra, lendo o livro.

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Vamos muito longe
O best-seller que encantou leitores de todo o mundo, de Francesca Cavallo e Elena Favilli, está de volta com novas fábulas da vida real. Histórias de ninar para garotas rebeldes 2 (V&R Editoras, 210 páginas, R$ 109,90) celebra mais 100 mulheres extraordinárias – da jogadora Marta à cantara Beyoncé, da revolucionária Anita Garibaldi à escritora J. K. Rowling. Rainhas e ativistas, bailarinas e advogadas, piratas e cientistas, astronautas e inventoras – experiências de vida incríveis que vão inspirar a construção de um mundo melhor.

Os textos que remetem ao estilo de conto de fadas começam com o clássico “Era uma vez”, pois, segundo Favalli, a ideia é dar uma boa sensação, para embalar o sono das pequenas e dos pequenos antes de dormir. “Tudo o que podemos sentir é esperança e o entusiasmo pelo mundo que estamos construindo. Um mundo onde gênero não defina quão alto você pode sonhar nem quão longe você pode ir.”

Não é o fim
Depois que o planeta é invadido por monstros e zumbis, Jack se une aos seus amigos para encarar o apocalipse, com muitas aventuras e diversão. Assim é Os últimos jovens da Terra – 4 contra o apocalipse (Faro Editorial, 232 páginas, R$ 34,90), de Max Brallier, com ilustrações de Douglas Holgate, livro que originou a série que você pode acompanhar no Netflix. O autor parte do princípio de que “o fim do mundo é melhor com os amigos”.

O livro tem sido considerado a mistura perfeita entre Diário de um Banana e The Walking Dead. Jack é um garoto de 13 anos que precisa encarar o apocalipse zumbi sozinho… ou não tão sozinho assim. No meio do caos que acontece no planeta, ele se junta ao seu melhor amigo nerd, ao ex-valentão da escola e à sua crush June Del Toro para encarar os desafios de um mundo dominado pelos zumbis. Aventura e diversão em um só lugar.

Onde tudo é maravilha
Os livros da editora Darkside dão gosto só de olhar! E as publicações de seu selo infantil, o Caveirinha, realmente mexem com a imaginação das crianças, desde a capa até a última página. Com muito capricho, lançou recentemente uma sensacional versão para Alice no País das Maravilhas (80 páginas, R$ 49,90), de Lewis Carrol, com tradução de Marcia Helena e as sensacionais ilustrações de John Tenniel, que vai impressionar a família inteira.

O livro conta a história de Alice, uma menina curiosa que segue um Coelho Branco de colete e relógio, mergulhando sem pensar na sua toca. A protagonista é projetada para um novo mundo, repleto de animais e objetos antropomórficos, que falam e se comportam como seres humanos. No País das Maravilhas, Alice se transforma, vive aventuras e é confrontada com o absurdo, o impossível, questionando tudo o que aprendeu até ali. A menina acaba fazendo parte de um julgamento sem sentido e sendo condenada à morte pela Rainha de Copas.

As ilustrações foram mantidas em preto-e-branco e um texto de abertura sugere que elas sejam coloridas e transformadas pelo olhar encantado de cada leitor. Um bom passatempo para estes dias em casa. O livro todo é um pequeno portal em que as palavras nos fazem sonhar.

Tudo o que veio de lá
A arte de contar histórias é muito antiga e surgiu antes mesmo da escrita. Na África, o contador de histórias é chamado de “griô”. Ele é o mestre das artes e da cultura popular e tem o papel de levar o conhecimento à aldeia. A escritora Silvana Salerno, apaixonada pela cultura brasileira, e com uma série de livros premiados, foi conhecer o continente e entender a sua influência na nossa cultura.

Em África – Contos do rio, da selva e da savana (Girassol, 80 páginas, R$ 60,00) são contadas histórias da África que ajudaram na formação da cultura brasileira, pois vieram dos países de onde os africanos foram trazidos como escravos para o Brasil. Uma leitura rica e interessante, com belas ilustrações feitas pela artista plástica Ana Lúcia.

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Mensagem de esperança
Outro livro que dá para ler acompanhando a série no Netflix é o luxuoso Nosso planeta – O único lar que temos (Harper Collins, 93 páginas, R$ 79,90), de Matt Whyman, com ilustrações de Richard Jones, e fotos de alguns dos mais importantes fotógrafos de todo o mundo. Na verdade, uma celebração visual do mundo natural, que combina as fotografias extraordinárias da série com belíssimas ilustrações, que trazem animais e plantas da terra e da água à vida de maneira envolvente e única.

É um convite para descobrir paisagens congeladas, densas florestas e vastos oceanos. Você poderá ver como esses biomas fascinantes se conectam para criar o único lugar que podemos chamar de casa – o nosso planeta. Vai inspirar e divertir as crianças. E sua mensagem de esperança ecoará em toda a família. Muito apropriado.

Na terra dos hobbits
Caprichada é também a edição da Harper Collins Brasil para O hobbit (329 páginas, R$ 59,90), de J. R. R. Tolkien, história de grande aventura, empreendida por um grupo de anões em busca do ouro guardado por um dragão. O parceiro relutante nessa demanda perigosa é Bilbo Bolseiro, um hobbit amante do conforto e nada ambicioso, que surpreende até a si mesmo com sua desenvoltura e habilidade como gatuno.

Bolseiro era um dos mais respeitáveis hobbits de todo o Condado, até que, um dia, o mago Gandalf bate à sua porta. A partir de então, toda a sua vida pacata e campestre soprando anéis de fumaça com seu belo cachimbo começa a mudar. Ele é convocado a participar de uma aventura por ninguém menos do que Thorin Escudo-de-Carvalho, um príncipe do poderoso povo dos Anões.

Essa jornada fará Bilbo, Gandalf e 13 anões atravessarem a Terra-Média, passando por inúmeros perigos, sejam eles os imensos trolls, as Montanhas Nevoentas infestadas de goblins ou a muito antiga e misteriosa Trevamata, até chegarem – se conseguirem – à Montanha Solitária.

Lá está um incalculável tesouro, mas há um porém. Deitado em cima dele está Smaug, o Dourado, um dragão malicioso que, bem, você terá de ler e descobrir, certo? Lançado em 1937, O hobbit é uma espécie de divisor de águas na literatura fantástica mundial. Mais de 80 anos após a sua publicação, o livro, que antecede os ocorridos em O senhor dos anéis, continua arrebatando fãs de todas as idades, talvez pelo seu tom brincalhão com uma pitada de magia élfica – ou talvez porque Tolkien tenha escrito um dos melhores livros infantojuvenis de todos os tempos.

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