China 22/02/2021 06h54 Atualizado às 20h26

Pelo Mundo: Xinjiango, Portal da Rota da Seda

O território é dominado pelo deserto do Taklamakan e pelas montanhas do Himalaia, incluindo o K2, segundo pico mais alto do planeta, e tem fronteiras internacionais

Desembarquei em Urumqi, capital da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, China, no meio da madrugada, depois de um curto voo desde Almati. Surpreendi-me de imediato com a quantidade de policiais pelos corredores e saguões do aeroporto. Tendo entrado na China mais de 50 vezes nos últimos 20 anos, dessa vez causou-me estranhamento a quantidade de perguntas dos agentes de imigração. Por fim, um deles me pediu desculpas pela demora e me alertou que eu estava entrando numa região com risco permanente de conflitos.

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Para não sacrificar o anfitrião que me levaria a uma empresa local, pedi que me buscasse no aeroporto às 7 horas e, insone, fiquei trabalhando na ampla área de desembarque. Passados poucos minutos, dois policiais me interpelaram, explicando que eu deveria sair do aeroporto imediatamente devido a uma ameaça de bomba. Apesar do inglês pobre da dupla de oficiais, a palavra bomba ficou bem clara e rapidamente, me juntei a outros passageiros e funcionários que se congregavam sob a temperatura negativa dos arredores do aeródromo. O incidente, inicialmente amedrontador, acabou se revelando uma ótima oportunidade para conversar com alguns nativos, todos de origem uigur, o que me ajudou a entender melhor essa região remota com um povo peculiar no noroeste chinês.

A amálgama de duas culturas riquíssimas forma ali uma cativante paisagem humana

Xinjiang, ou Sinquião, é uma subdivisão com status de província da República Popular da China, compreendendo uma área igual à do Amazonas. Da população de 25 milhões de habitantes, 45% são de etnia uigur, um povo de origem turca que ali vive desde a chegada de seus antepassados nômades, há mais de 2 milênios, e que faz do território um lugar bastante diferente do restante do país de Confúcio.

A região é considerada o portal da Rota da Seda, a rota comercial culturalmente mais importante de todos os tempos, cuja artéria principal levava seda e outros produtos a partir de Xiam, na China, até Bizâncio (rebatizada como Constantinopla em 330, e hoje Istanbul, na Turquia). O território é dominado pelo deserto do Taklamakan e pelas montanhas do Himalaia, incluindo o K2, segundo pico mais alto do planeta, e tem fronteiras internacionais com Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia.

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Possivelmente como forma de diminuir a influência dos uigures, a região está recebendo hordas de imigrantes (quase 2 milhões nos últimos 20 anos somente na capital Urumqi) da principal etnia do país, os Han chineses, que já somam 40% da população. O desejo separatista uigur quer formar o Turquestão Oriental, e acirrou-se após o apoio chinês à invasão soviética no Afeganistão, quando Pequim enviou e armou majoritariamente uigures, alguns dos quais retornaram a Xinjiang utilizando práticas terroristas.

Elementos associados à religiosidade fazem parte do cotidiano da população na região

A capital Urumqi é a cidade com mais de um milhão de habitantes mais distante de qualquer oceano e, após a segunda guerra mundial, se desenvolveu rapidamente, com uma indústria baseada em recursos minerais, especialmente o petróleo. No vibrante mercado público da cidade (Bazar Erdaoqiao), a amálgama de duas culturas riquíssimas forma uma cativante paisagem humana. Kashgar, um pouco mais ao sul, estava sobre a Rota da Seda, e ainda tem 90% de sua população formada por uigures.

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O governo americano, baseado em alegados campos de concentração para uigures e outros povos muçulmanos, declarou no final de 2020 que a China estaria promovendo um genocídio na região. É difícil saber o que é real e o que é propaganda, de ambos os lados, e mais especialmente no que vinha da antiga Administração Trump. Contudo, como pude notar desde minha chegada, Xinjiang é evidentemente governada com rigor acima da média pela mão forte do Partido Comunista, que admite aplicar métodos sofisticados de vigilância e de “reeducação”.

Por mais que restrições e abusos sejam ocultados, os próximos anos dirão se as suspeitas são procedentes, já que se torna cada vez mais difícil monitorar celulares e evitar vazamento de fotos e vídeos. Apesar das diferenças marcantes de etnia, religião, línguas e costumes, espero que a diversidade e a bela cultura uigur que testemunhei em Xinjiang possam voltar a conviver em relativa harmonia nessa lendária província chinesa.

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