Versatilidade, determinação e talento. Tais palavras definem a carreira do ator André Segatti. Nascido em 15 de maio de 1972, em São Paulo (SP), filho do casal Jamil e Nilza, um dia, ainda menininho, disse à mãe que gostaria de se tornar um artista; pois passou a atuar já aos 7 anos. Ao longo do tempo, construiu uma consolidada carreira nos palcos de teatros, na televisão e no cinema.
Na telinha, integrou o elenco de séries como Malhação e A Turma do Didi, além de ter se tornado famoso no papel de vilão, incluindo Gerião em Uma Prova de Amor e Paltiel em Rei Davi. Participou ainda de Balacobaco, vivendo Magno, e de Caminhos do Coração, como o personagem Ernesto.
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Nas telonas, Segatti estreou em O Trapalhão e a Luz Azul com dois papéis, o rockstar Davi e o príncipe Levi, no qual contracenou com Renato Aragão, que se tornou seu padrinho. Já em 2018, deu vida ao personagem Drago no longa-metragem policial E.A.S.: Esquadrão Antissequestro.
Já em 2025, o paulista retornou aos cinemas em CIC – Centro de Inteligência Cearense, dirigido por Halder Gomes, no qual contracenou com Edmilson Filho – duas das principais referências da comédia e da ação na atualidade. No papel de Cortez, pode mostrar mais uma vez seu talento para interpretar antagonistas e seu lado cômico, evidenciando sua versatilidade.
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Para além da carreira de ator, Segatti já produziu e escreveu peças teatrais e roteiros de produções audiovisuais. Com vários projetos pela frente, planeja em breve dirigir o longa-metragem Depois do Mar, que terá como protagonista sua esposa, a atriz santa-cruzense Louise Nagel.
A união dos dois vai muito além da vida pessoal. Contracenaram na peça A Paixão de Cristo, na qual Segatti interpretou Jesus e Louise atuou no papel de Maria. Ainda realizam palestras e trabalham com marketing.
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Após anos no mercado nacional, o próximo passo do casal é partir para os Estados Unidos a fim de deixar sua marca na indústria cinematográfica norte-americana. Para o ator, o momento é ideal, em especial devido ao reconhecimento internacional de produções brasileiras como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto.
Em férias com a família em Santa Cruz do Sul, Segatti recebeu a equipe da Gazeta do Sul na casa de sua sogra, Iloni Nagel, no Bairro jardim Europa. Na entrevista, na companhia de Louise e do filho Bryan, refletiu sobre a carreira, os planos para o futuro e a sua relação com o município.
Entrevista André Segatti – ator
- Gazeta do Sul – Em CIC – Centro de Inteligência Cearense, você interpretou o vilão Cortez. É uma comédia que brinca com elementos culturais norte-americanos, mas que é totalmente brasileira.
André Segatti – Totalmente característico do Brasil. Há um elemento regional cearense que o Edmilson e o Halder Gomes [o diretor] imprimem em seus filmes que é a grande sacada. Em uma conversa, o Edmilson brincou: “Rapaz, quem me daria um protagonista em uma novela? Quem colocaria um cearense como protagonista de um filme ou de uma novela?”
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E respondi que, com o talento que ele tem, qualquer um colocaria. Mas entendo essa resistência da língua e do sotaque. O Edmilson e o Halder são apaixonados por filmes de ação e de luta, e aí começaram a fazer os seus próprios. Primeiro foi Cine Holliúdy, que deu certo, virou série na Globo e mostrou o caminho. E eles acertaram demais.
Nada como você acreditar na sua verdade e na sua essência. E a essência deles é essa, filmes de comédia com ação, com muita luta, e essa coisa emblemática da língua deles.
Para mim, foi uma bênção trabalhar com eles e virar amigo deles. Porque eu e minha esposa estamos em um processo de cinema há muito tempo. Perguntam para mim por que não estou mais em novelas. Em 2015 foi minha última novela. Depois fiquei no Tá no Ar, com o Marcelo Adnet, e no Zorra Total. Mas comecei a me dedicar muito ao cinema, já que desde os 7 anos de idade eu havia começado fazendo cinema. Fiz mais de cem comerciais e aos 24 anos participei da minha primeira novela.
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- Como surgiu a oportunidade de trabalhar com o Edmilson Filho?
Quando a gente pensa positivo e determina algo na mente, o corpo obedece. E o tempo não é nosso, o tempo é de Deus; as realizações acontecem no tempo divino, é assim que acredito. Há uns cinco anos, fui assistir uma peça do Dedé Santana, O Palhaço, dirigida pelo Alexandre Borges. E encontrei o Edmilson no teatro. Já tinha visto quase tudo dele e falei que era apaixonado por comédia.
Tenho uma paixão pelos cearenses, pela cultura e o talento que eles têm, porque é um povo extremamente talentoso na comédia. O cearense Renato Aragão foi quem me apadrinhou, foi quem me deu uma grande oportunidade na minha vida. Em meu primeiro filme como protagonista, foi o Renato Aragão quem me abençoou.
E aí disse para o Edmilson que adorava os seus trabalhos e emendei: “Vamos trabalhar juntos um dia.”
Plantamos essa sementinha. Ficamos amigos, sempre conversando, e aqui [em Santa Cruz do Sul], há uns dois anos, tinha acabado de assistir a Cangaceiro do Futuro e uma coisa ficou me incomodando. Havia uma voz falando comigo, Deus, me cutucando. Na academia aqui na cidade, parei meu treino e fiz um vídeo sobre o Edmilson Filho, convidando as pessoas a conhecerem o trabalho dele. Falei do meu coração o que eu achava dele.
Não deu cinco minutos e ele mandou uma mensagem para mim. Falou: “Rapaz, vi que você fez o vídeo”. E eu perguntei se ele não gostara, pois eu poderia apagar. Mas disse: “Não, que bom que você fez, foi na hora certa”.
O Edmilson falou sobre o novo filme que estava produzindo, o CIC, e sobre o vilão. Perguntou se eu falava espanhol fluente e se lutava. Me enviaram cinco páginas de texto, em espanhol. Daí perguntei: “Posso pirar?”
Fiz um teste bem despretensioso, mas muito focado, de uma forma como eu acreditava mesmo, sem muitos melindres. Gravei aqui na piscina. Eram várias cenas; eu peguei todas as falas do personagem, do Cortez, e montei um monólogo.
A produção me aprovou. E o personagem não era para se chamar Cortez, mas Drago, uma analogia ao Dolph Lundgren. Só que eu já tinha feito dois personagens com esse nome em Malhação e Esquadrão de Sequestro. Aí eu expliquei para o Edmilson e ele falou para mudar. Fiz uma mistura de Popeye e Robocop. Eu estava com os cabelos louros e pintei de preto. Daí malhei mais para ficar mais forte e tornar o personagem mais emblemático. E deu certo.
- Como foi a preparação para interpretar o Cortez?
Foi muito difícil, porque a composição dele não foi fácil. Quando eu recebi o roteiro, me perguntei como iria fazer. O Cortez tem paixão pelo personagem do Edmilson, o agente Karkará. É uma coisa platônica: ele quer matar, mas também quer pegar. Quer matar, quer namorar.
E o cara é bravo. Aquela voz é minha, não foi modulada ou editada. Comecei a trabalhar na composição. Eu já havia construído ele psicologicamente. Quando fui, chegou a parte física, e aí me complementou.
A Emy, que é uma caracterizadora maravilhosa, falou para fazer uma cicatriz no estilo dos filmes do 007. Achei que tinha tudo a ver, e não me incomodei. Perguntaram se colocaria um olho de vidro, e respondi que era melhor ainda.
Às vezes ficam vendo se tu vai fazer ou não. Mas eu sou ator. Estou aqui para me jogar. Se tem que arrancar um dente, a gente arranca. Se tiver que raspar o cabelo, nós raspamos. Porque o personagem tem que ser o grande viés. O grande protagonista é o personagem, não sou eu. Eu sou apenas um corpinho que vai dar vida àquilo.
Como nós falamos: o ator é um boneco que anda e fala. Se você não tiver essa consciência, você não vai construir um personagem para se desligar do seu eu. Quando você faz personagens que são similares a você, são personagens do bem.
E como o Cortez é o oposto, é um vilão completamente distante demais, eu até prefiro. Não é que seja mais fácil, mas é um pouco mais cômodo com os arquétipos que você tem para utilizar.
E aí veio. O personagem se complementou de forma inteira. Depois veio o mais pesado: os ensaios. Um mês de luta, seis horas de treinamento por dia. Não usei dublê. Todos os saltos mortais, eu que fiz. Me machuquei pra caramba.
- O seu trabalho remete muito ao do Leslie Nielsen em Corra que a Polícia Vem Aí. Ele interpreta um policial sério na comédia. Quais os desafios de interpretar esse personagem sem cair na gargalhada?
O grande barato é quando o personagem toma conta. A pergunta me arremeteu a um pensamento de quando eu trabalhei com o Renato Aragão. Eu não tinha um personagem de composição, era eu mesmo. Tanto que ele colocou o nome de Andrezão no personagem. “Vai ser maravilhoso para a sua carreira”, ele disse.
Achei perfeito. Eu não tinha uma composição profunda de personagem, era mais difícil de me controlar, porque eu estava despido de um personagem, não estava com um personagem pra me proteger.
Porque quando você tem um personagem, ele está te protegendo de certa forma. Demorei três meses para parar de rir com o Renato Aragão. Fiquei cinco anos com ele, mas foram necessários três meses para parar o processo de riso.
No filme, por estar vestido por esse personagem, brincávamos nos ensaios, mas na hora do valendo, tudo some. É o texto que vale. E também tinha aquela consciência para não machucar, porque são cenas de luta.
Eu acabo de fazer a cena e exorcizo na hora. Tem pessoas que não conseguem, levam para casa e ficam com aquele ranço. Eu consigo eliminar ali na hora. Saio da vilania e volto para o meu eu. Porque é um processo de técnica já desenvolvido há muito tempo, desde os meus 7 anos. Sou um ator stanislavskiano; eu vou na verdade cênica, na verdade mais pura da personagem. Por atuar nessa forma e nesse mecanismo, eu não tenho problema de me perder no meio da cena ou o Edmilson me desestabilizar.
O cinema é uma construção. Você estuda muito e se prepara muito. Então, você está com o personagem inteiro desde a primeira cena à última. E você nunca filma numa ordem cronológica. Por isso, a construção tem que ser muito perfeita em todos esses elementos.
O orgulho de contracenar com o ídolo Renato Aragão
- O Renato Aragão é uma das figuras mais importantes do nosso cinema. Qual o maior aprendizado que ele te ensinou no período em que trabalharam juntos?
A maior lição que o Renato me deu foi de humildade e de fazer tudo com amor. Qualquer coisa que você se propuser a fazer, faça com toda a sua entrega, com todo o seu amor, com toda a sua devoção. Porque assim vai dar certo. Esqueça o resultado, foque no trabalho e naquilo que você realmente está fazendo. Me ensinou também a estudar muito, porque a comédia é um lugar que as pessoas acham muito fácil, mas a comédia é o lugar mais difícil para um ator.
Imagina se você está passando algum problema e tem que ir pro teatro, pro cinema ou para a televisão e precisa fazer as pessoas rirem. Imagina o poder de concentração que você deve ter. É o seu trabalho, você não pode errar. Porque tem pessoas que dependem de você. A minha família depende de mim, e eu dependo dos meus feitos para que eles aconteçam de uma forma positiva e outras coisas venham a acontecer.
- E como vocês se conheceram?
A história com o Renato é muito legal. Eu produzia a peça musical do Hércules e estava fazendo vários programas de televisão. Um dia fui promover a peça no programa da Xuxa e ele me viu. Depois mandou me chamar pra fazer uma participação. Chamava Assalto à Própria Casa. Só eu e ele.
E foi demais. Eu tinha 28 anos. Ele abriu os braços e eu o abracei. Veio uma emoção que eu não conseguia controlar. Comecei a chorar de emoção. Era o meu ídolo, com 12 anos eu já tinha visto todos os filmes que ele havia feito na época. Era uma paixão e era um desejo a minha vida inteira de trabalhar com ele.
E tive esse momento mágico. Fizemos o programa, foi maravilhoso. Rolou uma química muito bacana. Logo depois, me chamou para fazer outro personagem. Fiquei sabendo que ele estava me testando nas participações.
Só que eu não tinha feito o contrato ainda. E ele me chamou para uma terceira participação, Três Solteirões e Um Bebê. Estava a filha dele, a Lívia, que havia acabado de nascer. O programa deu um ibope. E ele já tinha em mente fazer a Turma do Didi. Só que não tinha um suposto galã como o Dedé Santana havia sido a vida inteira.
Eu estava cotado para fazer uma novela com o Jayme Monjardim. Para Terra Nostra, se não me engano. E eu tinha uma reunião com o Jayme. Fui pro Projac e queria dar um abraço no Renato. Ele estava lá no camarim. A hora em que me viu, me puxou igual uma criança e disse que o programa que fizemos deu um Ibope maravilhoso.
E aí perguntei para o Renato se estava faltando um personagem no programa. Ele perguntou se eu queria ficar e respondi que sim. Perguntou se eu estava falando sério, parou, deu aquela pausa dramática e mandou eu ir assinar o meu contrato.
As pessoas não sabem desses bastidores e eu faço questão de contar. Porque tudo é o que você pensa e o que você deseja. A palavra tem poder. Fui lá na produção para fazer o contrato. Mas era só de um mês. Eu liguei para o Renato, expliquei e ele falou com o responsável. “Rapaz, você está com um padrinho forte”, ele me respondeu.
Assinei e fiquei por cinco anos. Foi maravilhoso, foram 300 programas, shows pelo Brasil inteiro e gravamos cinco discos. Estar com ele foi um momento único na minha vida, me abençoando com o meu primeiro filme, O Trapalhão e a Luz Azul, no qual fazia dois personagens, o cantor de rock e o príncipe.
De lá pra cá, fiz 25 novelas, cerca de 15 filmes e muito teatro. Mas o Renato foi o grande cara que acreditou no meu trabalho e me deu oportunidade.

- Você tem uma vasta lista de trabalhos na televisão. Como foi no início?
A minha primeira novela foi O Amor Está no Ar. Não era um personagem grande. Lembro de a diretora me falar que não tinha um personagem à minha altura, mas achou que seria legal eu fazê-lo. Na época, não conhecia o mecanismo da televisão, nunca havia feito uma novela. Queria entender, estudar e conhecer.
Não estava preocupado com a grana ou em querer aparecer. Queria aprender e entender esse universo. Depois vieram Torre de Babel, Andando nas Nuvens, Malhação, Chiquinha Gonzaga e Labirinto, que mudou a minha carreira. Foi onde o Renato me viu.
Na época, fazia três peças de teatro ao mesmo tempo. Foi uma época bem intensa, mas é o que eu te disse: se você quer crescer, tem que aprender a dormir no barulho; dormir no barulho é fazer as coisas acontecerem mediante todo o caos que está acontecendo.
Eu não estava numa posição tão confortável na época, ainda não tinha a minha casa e as minhas coisas. E o meu desejo era ter o meu canto e as minhas conquistas. Eu falei: vou ter que trabalhar e mostrar o meu talento.
Fazia Hércules aos sábados e domingos no Barra Shopping. Nas sextas e nos sábados, ia na Villa-Lobos fazer Paralelo. E ainda tinha Aluga-se Um Namorado. Era tudo ao mesmo tempo, dois eram na Barra e o outro era lá em Copacabana, no Villa-Lobos. Então, foi uma época louca na minha vida.
Mas aí resolvemos levar a peça do Hércules para São Paulo. Só que não queria abandonar as outras. Eu viajava do Rio de Janeiro para São Paulo. E não perdi nenhuma peça, e nunca cheguei atrasado.
Além da determinação, tinha o fator necessidade também. Precisava trabalhar e ganhar dinheiro. E as pessoas precisavam me ver. Eu precisava mostrar meu trabalho.
- É uma jornada e tanto. E agora está traçando seus planos no exterior. Como tem sido?
Agora eu busco a minha carreira internacional. Temos um sócio-produtor lá em Los Angeles, que é ator e diretor, o Sascha Saballett, da Liquid Light Entertainment. Inclusive, o último curta-metragem que ele fez recentemente por pouco não concorre ao Oscar.
Ele tem muitas conexões e nós estamos com alguns projetos de cinema. Um deles é Naked Agents [“Agentes Nus”, tradução literal] sobre um tema real, o tráfico humano. Vai muito além do sequestro, mas tem os casos de meninos que são castrados e vendidos como meninas.
E ele ficou muito encantado com um personagem que eu fiz, o Gerião, de Prova de Amor, e disse para usarmos no cinema e fazermos algo diferenciado. É um personagem que tem um carisma muito grande, mesmo sendo vilão. Aí chamei o Ayrton Battista, que é um autor brasileiro, um cara com quem eu já venho desenvolvendo algumas coisas há muito tempo, e escrevemos o filme.
Ele vai se passar nos Estados Unidos e no Brasil, sobre dois agentes da Interpol. Meu personagem é filho de uma brasileira e um americano. E aí ele vem para o Brasil, após o falecimento da mãe. Ele nunca teve um caso grande e viva às sombras do pai, que foi um importante agente na Interpol.
Acontece que ele se envolve em um caso de tráfico humano. E se infiltra em boates para desvendar esse meio. Tem um vilão misterioso que possui um passado com os protagonistas. É um tema totalmente em evidência, mas a ideia é que seja um filme que mistura comédia e ação; será no estilo de A Hora do Rush.
- Como é o processo de escrever personagens que você interpretará?
Já havia escrito. A primeira foi para o teatro, Os Duelistas, clássico do Joseph Conrad, no qual luto esgrima. Na minha versão, os personagens principais são irmãos, mas eles não sabem, e se apaixonam pela mesma mulher. No decorrer da história, reencontram-se por conta desse amor e se digladiam. Os dois se odeiam e querem se matar. Porém, no final, descobrem que são irmãos.
O espetáculo é maravilhoso. Nevava e chovia em cena. Eu produzi na época, gastei uns R$ 800 mil, algo que custaria uns R$ 2 milhões atualmente. Era uma produção enorme, com 24 pessoas em cena. Só que eu não escrevi para mim o mocinho. Escrevi o vilão. É lá onde eu vou mostrar meu trabalho. E foi lá que o Tiago Santiago, autor de Prova de Amor, Caminhos do Coração e Os Mutantes, me viu. Ele me colocou de protagonista e antagonista nessas três novelas porque ele tinha visto meu trabalho como ator.
E agora estamos produzindo para o cinema. Que vai me dar um personagem que eu gostaria de fazer. Às vezes é um presente que acontece, mas é difícil. E aí começamos The Naked Angels, que foi muito rápido. Terminamos em um mês. E é muito legal porque é um filme que vai ser falado em inglês, para levar o filme para o mundo. Queremos levar a nossa arte para o mundo.
Nossa ideia é estar com o pé lá fora cada vez mais. Já tem muitos anos que eu vou para fora. Moro fora desde os 18 anos. Outro dia conversávamos sobre isso e pensei por que eu não fiquei. Tinha uma carreira muito forte na moda.
Hoje eu entendo o motivo. Entendi que todas essas minhas voltas serviram para ter conhecido a Louise, há 16 anos, e ter o nosso filho pequeno, o Bryan. Deus sabe o que faz. Mas agora eu vou levar o bonde. Então, estamos com os nossos planos, projetos e sonhos. É estar lá, tirar nosso green card e estar com um pé lá e aqui. Até porque estamos vivendo essa valorização do cinema nacional lá fora…

Próximo passo é conquistar o mercado internacional
- Qual a sua avaliação sobre o momento atual do cinema brasileiro?
É fantástico o que está acontecendo. Temos só que aplaudir nossos atores brasileiros. Começou com a Sônia Braga, foi a primeira abertura para uma pessoa brasileira. E aí tivemos a sobrinha dela, a Alice, que está fazendo um trabalho extraordinário – e começou com Cidade de Deus.
Tivemos o Rodrigo Santoro, o Wagner Moura e o último foi o Selton Mello. Além da Fernandinha Torres. Isso tudo só enobrece a gente. Não só os atores, mas todos que trabalham em função da arte e da cultura no Brasil. Estamos criando uma vertente internacional; é bom pra todos nós. E costumo dizer isso em todas as entrevistas. O ator brasileiro é o melhor ator do mundo.
Ninguém estuda tanto como um ator brasileiro. No cinema, em questão de três meses você fez um filme. Você nem tem muitas cenas, talvez 20 ou 30. Na novela, tinha 50 cenas em dois ou três dias.
Quando você é protagonista ou antagonista em uma novela, tem 50 páginas de texto por dia. Imagina se preparar para isso. Uma novela tem 200 episódios, são quase 200 filmes, de certa forma. Uma das coisas muito incríveis que está acontecendo é a quebra do preconceito pelo fato de não termos um sotaque no inglês. E aí está a genialidade; é não ser igual.
Fiz teste para o filme do Bolsonaro, que terá o Jim Caviezel como protagonista. Recebi o roteiro. E aí perguntaram se iria fazer por ser de direita. Eu sou um artista, não estou lutando nem pela direita nem pela esquerda, quero fazer a minha arte.
Eu quero apenas trabalhar como ator. Acho uma bobagem o que está acontecendo: a arte ser tachada de A, B ou C. A arte não poderia ter isso. Os atores, os artistas, acho que não poderiam tomar partido da forma como estão tomando, pois a arte está ficando em segundo plano. Aí está havendo uma questão política em primeiro lugar e a arte está ficando secundária. Não, a arte tem que estar em primeiro plano.
As questões políticas, cada um tem a sua. Porém, se interferir, atrapalha a arte. Então, vamos para um outro caminho, vamos fazer um trabalho bonito.
E o filme do Bolsonaro foi mais uma tentativa para fazer minha história em uma produção em inglês. O teste todo foi em inglês, bem legal. Acabou que não rolou, mas só o fato de ter feito o teste já foi incrível. É o que a gente fala, você faz cem testes, cem nãos para ter um sim. Mas é o que te forja e o que te fortalece.
Por isso estou mexendo em produções com essa dualidade da língua. Agora que as comportas foram abertas, quem quer vai, e se dedica quem quer. Não é fácil. Mas a vontade determina a realização. O que uma mente concebe, o corpo pode realizar.
E há mais projetos pela frente?
Estamos nos mexendo. Há um filme que estou produzindo que está na fase de pré-produção. Chama-se Depois do Mar; Louise vai ser protagonista. Você já viu A Cabana? Será um filme de fé, do Adiel Hazaitz, um autor e diretor cristão fantástico, com um texto lindo. Ele me convidou inicialmente para fazer um personagem, o anjo Uriel, que costura a história toda. E aí conheceu a Louise, se encantou com o trabalho dela e a convidou para ser a protagonista. Depois me passou a produção e assumi a direção, pelo fato de confiar no meu trabalho.
O filme é sobre a Beatriz, uma mãe que pega Covid e entra em coma. Ela vai para uma ilha onde tem um pescador, que é Deus materializado, e todas as pessoas que estão lá são anjos. É um filme que me tocou profundamente. Havia conseguido uma verba de Mangaratiba, em Angra dos Reis. Eles querem fazer um polo de cinema lá. É um filme que está orçado em R$ 5 milhões, ia começar, fazer uma mostra. Só que o dinheiro que tinha caiu. Tive outra proposta, mas não era uma coisa em que acreditava. Não quero dinheiro que vem de lugares com que não compactuo. Aí segurei.
Tem também uma peça de teatro que estamos para montar. Chama-se Amor de Comédia, eu e a Louise, para viajar o Brasil inteiro e os festivais internacionais de comédia. E o último projeto, tão importante quanto todos, é o do Xaropinho. Sou muito amigo do Eduardo Mascarenhas, que dá vida ao personagem no programa do Ratinho. Aí estamos trabalhando em programa totalmente educativo e familiar, exaltando a educação e a família. É algo lúdico, para invadir o coração dos pais e das crianças com instrução. Precisamos de um herói no Brasil. Qual é o herói brasileiro? No cinema, por exemplo, o Edmilson está fazendo. Tanto que o CIC – Central de Inteligência Cearense é para ser uma trilogia.
Temos projetos em cinema, teatro e televisão. São trabalhos nos quais nós acreditamos, com temas de que gostamos. A última coisa que pensamos é no dinheiro. Queremos fazer algo que você possa assistir e mostrar para o seu filho.

Admiração por Santa Cruz
- Chama a atenção essa parceria com a Louise nos trabalhos. Como se conheceram?
Conheci a Louise da forma mais inusitada. Independentemente da fé e da religião – até porque eu não tenho religião, me considero cristão porque acredito em Cristo –, não faço nada na minha vida sem consagrar e sem entregar para Deus. Porque, se eu tiver a bênção de Deus, faço em paz. Se não, não faço. Graças a Deus, não faço mais pelo dinheiro, faço pelo que acredito.
Eu tive uma família e não soube valorizar. Era muito menino, comecei a namorar com 15 anos, aí com 23 virei pai. Não tinha vivido a coisa do jovem antes de casar e de ter filho. E acabou que me separei. Mas eu sempre fui família, pela história dos meus pais. Minha mãe conheceu meu pai, ela tinha 12 anos, ele com 17; viveram 55 anos juntos. Então, sempre acreditei na instituição família, que é o que constrói e edifica. Numa conversa com Deus, falei: “Senhor, me manda um amor, eu quero uma família. Quero ter essa bênção de novo”.
Um dia, eu navegando na internet, olhei uma sugestão de amizade e encontrei essa loirinha. O olhar dela me conquistou. Veio um desejo de conhecê-la. É muito louco isso. Ficamos três meses conversando. Ela estava morando em São Paulo e eu no Rio de Janeiro. Me preparava para fazer o Rei Davi, estava estudando e não conseguia viajar. Mas um dia avisei que estava indo para São Paulo e iríamos nos encontrar.
Ela sugeriu um restaurante a que ia com as amigas e marcamos. No dia, ela estava com várias amigas [risos]. E desde então nunca mais nos desgrudamos. Sempre vi meus pais trabalhando e crescendo juntos; montaram uma empresa e ficaram mais de 50 anos juntos. Eu vi essa força, marcada pela união e pelo respeito.
Nós começamos a trabalhar juntos, produzir conteúdo de marketing e fazer palestras. Ela chega aonde eu não chego, e eu chego aonde ela não chega. Em se tratando da arte também, a mulher tem uma sabedoria que nós, homens, não temos; a mulher tem às vezes umas proteções, e é mais da razão e mais pé no chão. É um casamento que acontece não só na vida, mas no profissional, que dá muito certo e é bom. Não é todo mundo que se dá bem, mas também é normal se você tiver discussões e pontos de vista diferentes. Com respeito, se tiver respeito, vai a todo lugar.
Em se tratando do trabalho, já ajudei muita gente que nunca tinha visto na vida. Então, se fiz para o outro, por que não posso fazer para minha mulher? Não faz sentido, acho que temos que ajudar a família. Assim como meu filho mais velho, o Kauã, que é um ator maravilhoso, canta, dança e atua. Está lá nos Estados Unidos, buscando uma carreira. Estou colocando ele em umas agências de Miami para começar a voar. Daqui a pouco vão ouvir falar muito dele, Kauã Segatti.

- E qual a sua relação com Santa Cruz do Sul?
Gosto de relaxar aqui. Me sinto em paz, posso caminhar na rua sem medo de alguém roubar meu telefone. E sou muito bem recebido. Desde o primeiro momento em que vim para cá, a cidade é muito acolhedora para todos. E quando as pessoas me reconhecem, elas têm um carinho exacerbado e bem diferenciado. É uma abordagem muito carinhosa, supergostosa. É uma cidade de que eu sou apaixonado, de verdade.
Amo a Catedral, fico encantado com o estilo neo-gótico. Mas muito mais também com o comportamento das pessoas, a forma como vocês se colocam perante o próximo, são mais amorosos, são mais humanos. Porque eu vejo que é uma cidade que não é de interior. São 138 mil habitantes, mas para mim não é uma cidade de interior, é uma cidade moderna, bem avançada.
Acho que podia ter um shopping mais elaborado, com mais salas de cinema, e um teatro mais emblemático. Acho que somaria muito para a cidade. Porque é uma cidade que merece. E mais espetáculos culturais também. Seria muito bacana ter uma peça de Paixão de Cristo aqui. Conversei com o Douglas Albers, secretário municipal de Cultura. Se levantarem uma verba, produzo e dirijo, trago o elenco e monto a estrutura. Isso vai enaltecer a cidade.
- Santa Cruz tornou-se uma referência no setor. Além do Festival de Cinema, contamos com a Film Commission e o Polo Audiovisual. Quem sabe em breve você poderá fazer um filme aqui…
Eu quero, na verdade. Quando fizemos uma reunião com o secretário municipal de Cultura, falei sobre trazer a peça Paixão de Cristo, pedi também apoio para rodar o filme aqui. Podemos retratar a situação das enchentes. Tenho vontade de fazer cinema aqui, e teatro também.
Tenho 50 anos, mas me sinto um garoto. A aparência pode não ser de um garoto de 20 anos, mas o meu coração e a minha energia sim. Meus hormônios estão em ebulição. Olha o Sylvester Stallone, está com 79 anos e não para de trabalhar. O Arnold Schwarzenegger também está com 78. E olha o Clint Eastwood, que aos 95 anos ainda dirige filmes. Esses são os meus exemplos. Artista não se aposenta. Eu quero fazer arte até os últimos dias da minha vida.
A missão de levar a arte ao mundo
Aos 53 anos, o ator André Segatti mostra que tem energia e criatividade de sobra para sua empreitada em terras estrangeiras, ao lado da esposa Louise Nagel. Da criança sonhadora até a condição de artista consolidado, sua jornada evidencia a história de quem se dedicou e batalhou para conquistar cada trabalho.
Com seu currículo, seu talento e sua história, Segatti quer unir-se aos atores brasileiros em evidência no mercado mundial – Alice Braga, Rodrigo Santoro, Wagner Moura e agora Selton Mello – para mostrar a força dos artistas e da cultura nacional.
E, apesar dos planos de mudar-se para os Estados Unidos, ele e sua família querem continuar a trabalhar no Brasil, sem deixar de lado as viagens para Santa Cruz do Sul, onde pode descansar enquanto trabalha nos próximos projetos. Uma coisa é certa: o ator ainda tem muito a oferecer e será mais um brasileiro a levar nossa arte para o mundo.


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