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OPINIÃO

Régis de Oliveira Júnior: “IA muda o jogo do câncer ao antecipar diagnósticos no SUS”

Foto: Freepik.com

No Rio Grande do Sul, a inteligência artificial deixou o debate acadêmico e passou a ocupar o centro das decisões sobre saúde pública. Universidades, centros de pesquisa e hospitais de alta complexidade avançam na integração de dados clínicos, exames e sistemas de acompanhamento para enfrentar um gargalo histórico do estado. O atraso no diagnóstico oncológico, agravado pela concentração de serviços especializados e pelas longas distâncias percorridas por pacientes do interior.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil registrou mais de 700 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2023-2025, número que ainda orienta a pressão assistencial em 2026. No Sul, o impacto é intensificado por filas persistentes em radioterapia e pelo tempo entre a suspeita clínica e o início do tratamento. A inteligência artificial atua exatamente nesse intervalo. Ela não cria vagas nem substitui profissionais, mas organiza prioridades e evita que casos suspeitos se percam no sistema.

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Não se trata de futuro. É o prontuário de hoje. Algoritmos já analisam exames de imagem com alta precisão e funcionam como segundo leitor em mamografias, tomografias e exames dermatológicos. Estudos publicados na Nature Medicine e na The Lancet Digital Health demonstram redução de falsos negativos quando a leitura algorítmica atua integrada à avaliação clínica. Menos erros silenciosos. Menos tempo desperdiçado.

As biópsias líquidas também avançam. Sistemas em fase de implementação clínica utilizam inteligência artificial para analisar marcadores tumorais no sangue e indicar risco oncológico antes do surgimento de sintomas. O efeito prático é ampliar o rastreamento e reduzir procedimentos invasivos desnecessários. O limite permanece regulatório e científico, mas o caminho já está aberto e monitorado por protocolos internacionais.

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No Rio Grande do Sul, esse movimento começa a produzir efeitos concretos em instituições de referência. Modelos preditivos aplicados à análise de imagens oncológicas já contribuem para reduzir o intervalo entre a suspeita clínica e a confirmação diagnóstica em serviços de alta demanda. O impacto direto recai sobre a fila que não aparece nos relatórios oficiais, mas define o prognóstico do paciente.

Na pesquisa acadêmica, sistemas desenvolvidos por universidades públicas do estado demonstram capacidade de identificar padrões de risco para câncer bucal antes do surgimento de lesões visíveis, a partir do cruzamento entre imagens clínicas e histórico populacional. O ganho social é evidente. O câncer de boca ainda está associado a diagnóstico tardio em populações com menor acesso a acompanhamento contínuo, e a triagem algorítmica atua como filtro de prioridade.

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A integração entre prontuários eletrônicos, exames e protocolos de acompanhamento também avança em hospitais de alta complexidade do estado. Algoritmos passaram a sinalizar pacientes que não retornaram para exames críticos após laudos suspeitos. O resultado é menos abandono involuntário e maior previsibilidade no início do tratamento. O alerta é automatizado. A decisão segue clínica.

No Vale do Rio Pardo, essa realidade ainda não está implantada. O que existe é potencial. A região reúne condições acadêmicas, técnicas e assistenciais para, no futuro, incorporar sistemas de triagem algorítmica capazes de acelerar diagnósticos oncológicos. Para isso, será necessária integração entre exames realizados localmente e centros de referência estaduais. Trata-se de uma possibilidade concreta em construção, não de um sistema já operacional.

Nesse desenho, exames feitos em Santa Cruz do Sul poderiam vir a ser analisados com apoio de inteligência artificial e compartilhados de forma segura e interoperável com serviços especializados em Porto Alegre. O efeito esperado seria reduzir deslocamentos desnecessários, encurtar o tempo de espera por laudos e antecipar decisões clínicas em casos suspeitos. Nada disso ocorre sem coordenação pública e protocolos comuns.

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O avanço da conectividade, impulsionado pela expansão do 5G, e a atualização da Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) criam o ambiente técnico para que essa integração se torne viável. O obstáculo não é tecnológico. É institucional. Sem governança, a inteligência artificial não escala e não chega ao paciente que está na ponta.

Quando o dado certo chega antes do sintoma, o tratamento começa no tempo da cura, não no tempo da fila. Há um ponto ainda pouco discutido nesse debate. A alfabetização em dados do paciente. Em 2026, o cidadão precisa compreender que seus exames e informações clínicas fazem parte de uma engrenagem coletiva de cuidado. 

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Quando os dados circulam de forma segura e interoperável, o serviço local conversa com o centro de referência, o laudo não se perde e o sistema aprende com cada caso. Privacidade e compartilhamento não são opostos. São parte do mesmo pacto de confiança.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que inteligência artificial sem governança amplia desigualdades. Com governança, reduz ineficiência. O antagonista não é a tecnologia. É a adoção fragmentada, sem coordenação pública e sem critérios claros de responsabilidade.

O Rio Grande do Sul tem diante de si uma escolha estratégica. Ao integrar ciência, assistência e inovação em seus pólos tecnológicos e acadêmicos, o estado pode transformar inteligência artificial em política pública real. Quando o algoritmo organiza, o médico decide e o Estado coordena, a tecnologia deixa de ser promessa e vira cuidado concreto.

Para quem espera o exame, a pergunta é simples. Vai sair mais rápido. Em muitos lugares do estado, já começa a sair. Em outros, pode sair. A diferença está nas decisões tomadas agora.

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