O Rio Pardinho sempre foi mais do que um curso d’água que corta a região: é fonte de abastecimento, sustento e identidade para milhares de moradores de Santa Cruz do Sul e de municípios vizinhos. Mas a relação histórica com o rio ganhou contornos de tragédia em abril e maio de 2024. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, consideradas o maior desastre climático da história do Estado, fizeram o Pardinho transbordar, invadir casas, desalojar famílias e deixar um rastro de perdas materiais
e humanas.
Responsável pelo abastecimento de água de Santa Cruz, o rio já apresentava sinais de pressão ambiental antes da catástrofe. Após o alto volume de chuvas, a preocupação se intensificou diante da destruição das margens, do acúmulo de sedimentos e agravamento do assoreamento do leito.
Quase dois anos depois, o cenário ainda é de reconstrução e aprendizado. Intervenções como o desassoreamento e ações de recuperação vêm sendo realizadas ao longo do curso, que nasce na localidade de Quatro Léguas, em Boqueirão do Leão, e segue até a foz em Entre Rios, em Vera Cruz, onde encontra o Rio Pardo.
Publicidade
Mais do que recuperar um rio, o desafio agora é garantir sua preservação e resiliência para o futuro, reconhecendo a importância ambiental, social e econômica de um dos principais patrimônios naturais da região.
LEIA TAMBÉM: Ponte de ferro de Rio Pardinho é reaberta após revitalização

Ainda em 2024, a Prefeitura de Santa Cruz do Sul realizou a reconstrução de diversas taipas, também chamadas de diques marginais, às margens do Rio Pardinho, no Bairro Várzea. Foram 1.044 metros cúbicos de argila (ao custo de R$ 102.562,56) na reconstrução de cerca de 360 metros lineares de taipa. O serviço incluiu a reconstrução das estruturas e o reforço das que estavam parcialmente danificadas.
Publicidade
Também em 2025 o município aderiu ao programa Desassorear RS, do governo do Estado, a partir do qual foi feito o desassoreamento de dois trechos nas proximidades do Balneário Panke, no distrito de Rio Pardinho. Entre maio e outubro do ano passado, mais de 37,2 mil metros cúbicos de seixo de rio foram retirados. O material foi usado, posteriormente, na manutenção de estradas. Além dos sedimentos, também foram retirados entulhos, galhos e árvores de grande porte.
O engenheiro civil da Defesa Civil de Santa Cruz, Leandro Agostinho Kroth, salienta que ainda há muito material, como cascalho, seixo rolado, no local, cuja remoção se faz necessária para uma melhor vazão da água. “Esse material é muito volumoso e está depositado no centro do rio porque foi arrastado devido ao movimento das águas. E esse material precisa ser retirado, inclusive por quilômetros. É um trabalho moroso, de anos, e precisa ser permanente.”
Ele acrescenta que a expectativa é de realizar uma nova ação de desassoreamento, em parceria com o Estado. “Podemos dizer que a atuação que foi feita é paliativa, muito pequena, extremamente pequena. Essa verba repassada, esse trabalho que foi desenvolvido, não é suficiente. É algo que ajuda, mas precisa ser constante e permanente.”
Publicidade
LEIA TAMBÉM: Rio Pardinho: preservação e crescimento
Nesta semana, em agenda do governador Eduardo Leite em Santa Cruz, prefeitos de municípios da região, através do Consórcio Intermunicipal de Serviços do Vale do Rio Pardo (Cisvale), solicitaram um posicionamento do Estado e ações concretas para a recuperação regional. No rol de demandas levantadas pelo Comitê Pró-Clima – iniciativa do Cisvale que estruturou as demandas regionais de mitigação de riscos e reconstrução de áreas atingidas –, a recuperação de taludes em áreas ripárias (zonas ribeirinhas) nas bacias do Rio Pardo e do Rio Pardinho também foi motivo de questionamento junto ao governador.
Na ocasião, o presidente do Cisvale e prefeito de Vera Cruz, Gilson Becker, afirmou que a região necessita de previsibilidade e segurança institucional. “Os municípios cumpriram sua parte, estruturaram projetos técnicos e aguardam uma definição clara. A comunidade está cobrando e precisa saber quando essas intervenções sairão do papel.” Ele acrescenta que a recuperação de taludes e a qualificação das estruturas de travessia são medidas estratégicas para reduzir vulnerabilidades e evitar novos prejuízos sociais e econômicos.
Publicidade
Os levantamentos encaminhados detalham prioridades, trechos críticos e estimativas de custo, além de esclarecer a operacionalização do fundo regional. Leite informou que os investimentos estão sendo feitos a partir de avaliação do Estado, tendo em vista que os recursos do Fundo de Recuperação do Rio Grande do Sul (Funrigs), apesar de elevados, são finitos.

Projetos visam a restauração do ecossistema e minimizar os efeitos de futuras catástrofes
Uma força-tarefa encabeçada pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e pelo Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Pardo (Comitê Pardo), em parceria com a empresa JTI e a Prefeitura de Santa Cruz, tem trabalhado na recuperação do Rio Pardinho, assim como da bacia hidrográfica do Rio Pardo como um todo.
Proteção de nascentes

proteção de áreas mais sensíveis da bacia
Entre os projetos que têm sido executados está o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) na sub-bacia do Arroio Urubé, em Rio Pardinho. Produtores rurais são remunerados por realizarem ações de proteção de nascentes e do arroio. Até agora, 18 produtores já aderiram ao programa na localidade, e a expectativa é de que esse número chegue a 25 até o fim de março. A coordenadora técnica do Centro Socioambiental da Unisc e presidente do Comitê Pardo, Priscila Pacheco Mariani, frisa que a ação fortalece a proteção das áreas mais sensíveis da bacia a partir da valorização de quem está no território. “Os programas de PSA conduzidos pelo Centro Socioambiental integram ciência e aplicação prática. As áreas são monitoradas a partir de indicadores como qualidade da água, desenvolvimento da vegetação e biodiversidade, além de estarem associadas a ações junto à comunidade.”
Publicidade
LEIA TAMBÉM: Municípios da região voltam a questionar Estado sobre atraso em projetos do Pró-Clima
54 km de margem para ser recuperada
No ano passado, um diagnóstico identificou 129 áreas nas margens com processos erosivos e/ou ausência de vegetação adequada para proteção e estabilização dos taludes fluviais.
Somadas, essas áreas representam aproximadamente 54 quilômetros lineares de margens impactadas e cerca de 81 hectares com necessidade de recuperação. O levantamento faz parte do Programa Muda – Conservação de Solo e Água, desenvolvido pela Unisc, em parceria com a empresa JTI.
Segundo Priscila Mariani, os pontos cadastrados demandam diferentes níveis de intervenção, que devem iniciar em pontos estratégicos ainda neste ano. “São intervenções que vão de técnicas simples de engenharia natural e plantio florestal até soluções mais robustas ou técnicas combinadas, dependendo da complexidade de cada situação.”
Ações dentro das propriedades rurais
O programa também atua dentro das propriedades rurais. No Muda Rio Pardinho, serão implantadas Unidades de Referência Tecnológica (URTs), para de reestruturar os solos considerando os diferentes cenários pós-eventos extremos. O objetivo é aumentar a resiliência tanto para períodos de estiagem quanto para excesso de chuva. Essas unidades funcionarão como espaços de demonstração, dias de campo e multiplicação de técnicas conservacionistas junto aos produtores.
LEIA TAMBÉM: Nova etapa da obra na ERS-347 aumenta expectativa pelo sonhado asfalto
Educação ambiental
Para este ano, o Comitê Pardo, em parceria com o Centro Socioambiental da Unisc e outros, está estruturando ações intensificadas de educação ambiental. Segundo a entidade, a recuperação dos recursos hídricos passa também pela mudança de comportamento, fortalecimento da governança e visão sistêmica da bacia.
Arborização das margens
Em 185 metros de extensão, as margens do Rio Pardinho receberam em 2024 o plantio de 11.750 mudas de árvores nativas, como sarandi-branco, sarandi-negro, caliandra-rosa, alamanda-amarela e sesbânia. O projeto de bioengenharia foi efetuado pela Corsan, que investiu cerca de R$ 1,6 milhão. Além de proteger o entorno do rio da erosão sobre as áreas de cultivo, o reflorestamento teve o objetivo de melhorar a qualidade da água captada para tratamento e distribuição à população.
A recuperação do local recebeu aplicação de rochas e de solo envelopado, para evitar a perda de solo frágil. A técnica de contenção de solo reforça o aterro com elementos resistentes a deslocamentos.
É também conhecida como solo reforçado. Esses materiais fazem com que a água do rio corra com menor velocidade e não arraste tanto a terra. Da mesma forma, a vegetação vai reduzir a força da água e evitar a erosão.
LEIA TAMBÉM: Moradores de Linha do Rio alertam para riscos de acidentes e cobram melhorias na VRS-858
Melhorias na comunidade
Trechos do acostamento da RSC-471, na localidade de Rio Pardinho, também receberam intervenções por parte do Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer/RS). Os segmentos haviam cedido e receberam reforço na pavimentação. As melhorias, com remoção do material orgânico, aplicação de macadame, compactação e implantação da nova base, ocorreram no ano passado.
Ponte de ferro foi reaberta
Após obras de revitalização, a Ponte de Ferro, uma das principais conexões da comunidade de Ponte Rio Pardinho e Linha Borges de Medeiros, foi reaberta nessa sexta-feira para travessia de pedestres e veículos leves.
A ponte havia sido interditada em março do ano passado, após terem sido constatados problemas estruturais e deterioração.
Atenção às pontes pênseis
Está em andamento um termo de colaboração a ser firmado entre Prefeitura de Santa Cruz e Organização da Sociedade Civil (OSC) que tem por objeto a reconstrução das pontes pênseis do distrito de Rio Pardinho, destruídas
nas enchentes.
LEIA AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO PORTAL GAZ
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!