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Berlim: Contemplando o incompreensível – Parte 2

Foto: Arquivo Pessoal

Arquitetura dramática da Catedral (protestante) de Berlim, junto ao Rio Spree

O Muro de Berlim, apesar de ser um símbolo da divisão política mundial, foi também um dos efeitos colaterais do nazismo, regime que usou o terror e a violência associados a um pseudointelectualismo supremacista. A carga histórica nas praças, monumentos e construções da capital alemã reflete um passado de glória, tribulação e, acima de tudo, de uma cidade que passou por extremos. Como em outros locais e períodos da história, o pêndulo político, quando levado de forma exacerbada para um lado, leva fatalmente a uma reação oposta e proporcional.

Um dos locais que mais me impactou na maior cidade da Alemanha foi o Estádio Olímpico, construído pelo regime nazista para sediar as Olimpíadas de 1936. Ao caminhar pelas arquibancadas vazias em uma manhã invernal, eu percorri mentalmente um de seus momentos mais simbólicos. Diante de um líder que considerava judeus, negros e outras minorias inferiores em todos os aspectos, o afrodescendente Jesse Owens conquistou quatro medalhas de ouro no atletismo. O Führer se recusou a cumprimentá-lo. No entorno, deparei-me com a Jesse-Owens-Allee, alameda que homenageia o atleta. O tempo, ainda que parcial e tardiamente, pode trazer justiça e reparação.

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Quando trabalhei na Alemanha, no início dos anos 1990, eu via no contracheque a dedução de 7,5% do meu salário, que aparecia como Imposto de Solidariedade (Solidaritätszuschlag). A injeção de capital nos anos pós-reunificação impulsionou o desenvolvimento dos estados que compunham a antiga Alemanha Oriental, reduzindo gradualmente as disparidades. Apesar da intensa reconstrução e modernização, marcos históricos retratam um passado tão fascinante quanto lamentável.

A espinha dorsal da Berlim imperial era a Avenida Unter den Linden (sob as tílias), cortada pelo Portão de Brandemburgo, construído no século XVIII por ordem do Kaiser da Prússia Frederico Guilherme II, da casa Hohenzollern (dinastia que reinou até 1918). Com a queda do Muro, que de certa forma o ofuscava, o portal transformou-se no maior símbolo da reunificação alemã. Ao lado dele está o Reichstag, centro nervoso do governo alemão em diferentes épocas e regimes e que hoje abriga o Parlamento federal (Bundestag).

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A derrota devastadora da Alemanha na Primeira Guerra culminou na humilhação do Tratado de Versalhes, que colocou o país de joelhos. Para completar o desastre, a economia mundial ruiu em 1929, gerando, somente em Berlim, quase meio milhão de desempregados. Em 1932, o Partido Nazista tornou-se a maior força no Reichstag, embora não tenha obtido maioria absoluta. Paul von Hindenburg, presidente reeleito naquele ano, diante do crescimento dos admiradores de Adolf Hitler, teve a infeliz ideia de nomeá-lo chanceler.

Em 1933, o Reichstag foi parcialmente incendiado por um militante comunista holandês. Sorrateiramente, Hitler usou o acontecimento para convencer o governo a conceder-lhe poderes de emergência, que ele em seguida converteu em poderes ditatoriais. Em Berlim, o austríaco alimentava o sonho megalomaníaco da “Grande Germânia”, que previa ainda a construção de uma capital monumental, inspirada na arquitetura grega e romana.

Diante das invasões nazistas na Europa, eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Em 1945, após intensos combates, Berlim foi amplamente destruída. A divisão da Alemanha entre as potências vencedoras, aliada à expansão da influência soviética sob Josef Stalin, consolidou a separação entre leste e oeste.

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O Bloqueio de Berlim foi uma das primeiras grandes crises da incipiente Guerra Fria, quando a União Soviética fechou todos os acessos terrestres a Berlim Ocidental. Os aliados, então, encontraram uma solução para abastecer a cidade. De 24 de junho de 1948 a 12 de maio de 1949, as Forças Aéreas dos Estados Unidos e do Reino Unido realizaram mais de 270 mil voos para o aeroporto de Tempelhof (hoje desativado), transportando cerca de dois milhões de toneladas de alimentos, carvão e combustível aos berlinenses ocidentais isolados.

Na praça Bebelplatz, em 10 de maio de 1933, estudantes nazistas queimaram cerca de 20 mil livros de autores “subversivos”, como Heinrich Heine e Sigmund Freud, ambos de origem judaica. Fui até o centro da praça para observar uma janela no solo, que revela enormes prateleiras de livros vazias. No mesmo calçamento, uma placa contém a marcante e eternamente atual frase do poeta alemão Heine (1797–1856): “Dort, wo man Bücher verbrennt, verbrennt man am Ende auch Menschen.” Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas.

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