A Geração Z não apenas cresceu conectada. Ela amadureceu fiscalizando. Em 2026, jovens eleitores já não consomem política como espetáculo. O discurso público passou a ser submetido a checagens automáticas feitas por sistemas de inteligência artificial (IA), que cruzam falas, votações, execução orçamentária e registros oficiais em segundos. A política perdeu o conforto da narrativa solta.
Os dados consolidados pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) ao longo de 2025 indicam que a IA generativa deixou de ser ferramenta periférica e passou a funcionar como interface primária de acesso à informação pública entre jovens. Relatórios sobre economia digital, publicados no mesmo período, mostram crescimento expressivo do uso de bases abertas e de interfaces de programação de aplicações (APIs) governamentais por cidadãos comuns, transformando o celular em um terminal informal de auditoria.
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No Rio Grande do Sul, esse movimento ganhou densidade própria. A ampliação dos portais de transparência, a digitalização integral de serviços estaduais e o avanço de bases abertas criaram um ambiente no qual a IA atua como tradutora do orçamento para o leigo. O eleitor não precisa interpretar planilhas. Ele pergunta, compara e confronta.
O efeito é prático e imediato. Um jovem cruza promessas de campanha com despesas liquidadas. Outro verifica como seu parlamentar votou em matérias fiscais. Um terceiro confronta vídeos de redes sociais com registros oficiais do Poder Legislativo ou do Tribunal de Contas. O que antes dependia de assessoria técnica hoje cabe em uma consulta informal feita no intervalo da rotina.
Quando a IA entra na fiscalização cotidiana, o dado deixa de ser acessório e passa a constranger o discurso. Esse novo padrão de controle provoca reação. Parte da classe política tenta deslegitimar a tecnologia. Outra parte resiste à abertura e à padronização dos dados públicos. O problema não é a IA. O problema é a opacidade. Sistemas só ampliam a democracia quando operam sobre bases organizadas, auditáveis e verificáveis por humanos.
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No cenário gaúcho, onde a digitalização avançou de forma consistente, surge um risco técnico específico. A chamada alucinação de dados estruturados ocorre quando sistemas automatizados preenchem lacunas com números verossímeis, porém incorretos. Um erro desse tipo pode comprometer a reputação em minutos. O risco deixa de ser tecnológico e passa a ser institucional.
A contradição se aprofunda porque a mesma tecnologia que fortalece a fiscalização também pode amplificar a desinformação. Conteúdos sintéticos falsos, como os deepfakes, já circulam com facilidade. A fronteira entre controle democrático e caos informacional não está no código, mas na governança do dado e na capacidade crítica do usuário.
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Em 2026, o debate deixou de ser conceitual. O Marco Legal da Inteligência Artificial entrará em fase avançada de implementação e a discussão central passou a ser a aplicação concreta de sanções, deveres de transparência e responsabilização. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) endureceu regras porque o risco deixou de ser teórico.
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O ponto decisivo é mais profundo. Democracia digital não se sustenta apenas com IA disponível. Ela exige soberania informacional. Dados públicos precisam ser tratados como infraestrutura crítica, auditáveis por cidadãos e supervisionáveis por instituições. Sem isso, o eleitor dependerá exclusivamente de sistemas estrangeiros para fiscalizar a política local.
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Onde a política sempre se resolveu no debate direto, na convivência comunitária e no confronto de ideias, a IA não substitui o olho no olho. Ela remove ruídos e obriga o debate a retornar às propostas e à execução concreta.
O marketing não desapareceu, mas perdeu o monopólio da narrativa. O eleitor agora chega munido de dados. O desafio gaúcho em 2026 não é apenas expandir o sinal de 5G pelo interior, mas garantir letramento de dados para que o produtor rural, o operário e o estudante saibam usar essas ferramentas para cobrar o que foi prometido na conversa de domingo.
Governar a IA, organizar os dados públicos e garantir soberania informacional deixaram de ser escolha administrativa. Tornaram-se condições mínimas de legitimidade democrática no presente.
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