Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

LA BELLA ITALIA LITERÁRIA

O romance histórico italiano: “I promessi sposi”, de Alessandro Manzoni

Literatura italiana proporciona uma viagem imaginária por várias épocas. À esquerda, cena urbana de Turim, que remete a uma paisagem do passado italiano | Fotos: Niccolò Fusaro

A identidade da língua italiana encontra seu alicerce em pilares monumentais. Dante Alighieri, ao elevar o dialeto toscano à imortalidade com A divina comédia, rompeu a hegemonia do latim e consagrou-se como o “pai” do idioma moderno. Logo ao seu lado, Francesco Petrarca refinou essa herança com Il canzoniere, transformando o tormento amoroso por Laura em um modelo lírico que moldaria a poesia europeia por séculos.

No entanto, se Dante e Petrarca deram ao italiano sua alma e estética, seria Alessandro Manzoni quem, séculos mais tarde, daria ao idioma sua face civil e popular. Através de I promessi sposi – obra incontornável para qualquer debate sobre o gênero –, Manzoni estabeleceu as bases do romance histórico, servindo de contraponto essencial para compreendermos a evolução rumo ao romance pós-moderno, como o magistral O nome da rosa, de Umberto Eco.

LEIA TAMBÉM: La Bella Italia Literária: uma jornada por uma cultura rica e variada

Publicidade

Manzoni versus a tradição inglesa

Diferentemente da tradição inglesa, o romance histórico italiano nasce quase como um contraponto ao modelo de Walter Scott. Ao escrever sua obra-prima, I promessi sposi (Os noivos), Alessandro Manzoni tomou como base o grande sucesso da época, Ivanhoé (1819), que havia lido em Paris em 1820. Porém, ele logo notou uma falha: a carência de uma documentação histórica rigorosa. Para Manzoni, ler Scott dava a percepção de um romance oitocentista comum, apenas “ambientato” na Idade Média de modo casual.

Tomando esse ponto de partida, Manzoni decidiu situar a história de amor de Renzo e Lucia em uma época fielmente reconstruída. A trama ganha força com o impedimento do casamento dos jovens por Dom Rodrigo, um nobre local que encarna o abuso de poder da aristocracia. O diferencial de Manzoni foi mesclar, com muito mais meticulosidade documental que Scott, as peripécias desses personagens inventados a figuras e fatos historicamente atestados. Inclusive, uma excelente forma de visualizar essa reconstrução histórica é através da série produzida pela RAI. A produção conta com um elenco de peso e traduz com maestria o rigor documental e a emoção que Manzoni imprimiu em seu texto.

LEIA TAMBÉM: La Bella Italia: a cidade de onde partiram muitos imigrantes que chegaram no sul do Brasil

Publicidade

Se no início da trama predominam os protagonistas de ficção, logo as provações de Renzo e Lucia os levam a encontrar figuras reais como a Monja de Monza, o Inominado e o Cardeal Federigo Borromeo. O narrador entrelaça história e invenção de forma magistral, fazendo Lucia cruzar o caminho de grandes vultos históricos e colocando Renzo como um dos protagonistas dos tumultos de San Martino, ocorridos em Milão em novembro de 1628.

Essa precisão histórica, contudo, servia a um propósito maior. Embora o livro utilize o século XVII sob domínio espanhol e a figura opressora de Dom Rodrigo como pano de fundo, Manzoni escrevia em pleno século XIX, no auge do Risorgimento. Assim, a crítica à opressão espanhola funcionava como uma crítica velada à ocupação austríaca de sua própria época, denunciando a submissão da Itália e a urgência de uma língua e de uma nação finalmente unificadas.

O legado de Manzoni e a homenagem de Umberto Eco

Se Manzoni utiliza o critério da verossimilhança – sustentada por seus rigorosos ensaios de documentação histórica –, Umberto Eco leva essa herança a um novo patamar de complexidade, sendo ele próprio um pesquisador de história medieval. Em O nome da rosa a obra vai além, consolidando-se como um texto metanarrativo que faz referência direta a Manzoni.

Publicidade

LEIA TAMBÉM: La Bella Italia: um recomeço entre sonhos, burocracia e fé

Essa homenagem começa logo no prefácio, através do recurso do pseudobiblion (o livro falso). Assim como Manzoni finge encontrar um manuscrito do século XVII (o Seicento), alegando que precisou reescrevê-lo porque a linguagem original seria inacessível ao leitor do século XIX, Eco repete o gesto de maneira ainda mais labiríntica.

No prólogo intitulado “Naturalmente, um manuscrito”, Eco narra que, nos anos 60, teria encontrado na União Soviética uma tradução francesa das memórias de Adso de Melk – protagonista e narrador do seu livro. Após uma série de aventuras dignas de um filme de espionagem, incluindo o roubo do livro por um acompanhante após uma briga, ele perde o rastro da obra. Somente nos anos 70, ao reencontrar uma reedição do texto em Buenos Aires, Eco decide finalmente trabalhar sobre ele. É claro que toda essa jornada é uma invenção literária magistral: um tributo deliberado ao artifício narrativo de I promessi sposi.

Publicidade

Na próxima edição: Como o romance histórico evoluiu para o “pós-histórico”? Na segunda parte deste artigo, exploraremos as três categorias de romance segundo Umberto Eco e as diferenças fundamentais entre ele e Manzoni. Não perca!

LEIA AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!

Publicidade

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.