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ELENOR SCHNEIDER

Os sineiros da matriz

Nossa majestosa catedral, que não se cansa de se fazer linda, guarda histórias marcantes e, até me atrevo a dizer, inesgotáveis. Navegando em busca de temas para esta coluna, caíram na minha lembrança os sineiros da matriz. Conhecendo vários, acionei suas memórias e eles me repassaram algumas interessantes informações. E como tenho falado e escrito tantas vezes, se não registradas, perdem-se para sempre.

Antes de tudo, cumpre assinalar o inestimável valor e sentido que o sino cumpre numa comunidade. Sua linguagem sonora, sua comunicação não verbal carregam um código cultural que passa de geração em geração. Seu sentido transcende o caráter litúrgico. Embeleza as grandes solenidades, mas por tanto tempo avisava o colono de que era hora de ir para casa e almoçar, de que falecera alguma pessoa da comunidade, ou de que uma tragédia estava ocorrendo, como, por exemplo, um incêndio que consumia uma fábrica ou uma residência em pleno silêncio da noite. Nessas ocasiões, o sino apelava para a solidariedade. Na Sexta-feira Santa, o sino não tocava, em sinal de respeito e convite à reflexão. Sua mensagem vinha através do silêncio.

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Os sineiros que conheci são da família Hermes: Miguel, José Gaspar (Zeca), Ângelo, Luiz Afonso (Alemão). Com eles, obtive alguns dados para este registro. Lembro que em três momentos do dia o sino tocava: às seis da manhã, ao meio-dia e às seis da tarde. O toque do primeiro horário não era com eles. Tocavam também em casamentos e nas celebrações dos fins de semana. Recebiam alguma recompensa financeira. “Foi nosso primeiro salário, recebíamos o pagamento com cheque da Caixa Rural União Popular”, recorda Miguel, entre risos. A mana Ivone por vezes os acompanhava e seu divertimento era se pendurar na corda e no embalo sair porta afora, retornando feliz do passeio memorável.

Uma pessoa muito envolvida nessa história era Lúcio Afonso Melchiors. Além de cuidar da sonorização do templo, fazia a manutenção do relógio, ao qual semanalmente dava corda. Pintava também o aparelho, fundo branco e números pretos. Atrás do número cinco, havia uma portinha através da qual acessava o equipamento, informa Zeca. O som do relógio está atrelado aos sinos da igreja.

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Há, na catedral, quatro sinos, numerados de um a quatro e cada um com sonoridade diferente. Zeca diz que, quando falecia um paroquiano, alguém tocava dois sinos. Quando era membro do sexo masculino, iniciava com três toques do sino número 2 e, em seguida, três toques do sino número 1. E quando era membro do sexo feminino, iniciava com três toques do sino número 1 e em seguida três toques do sino número 2. Isso se repetia em torno de umas vinte vezes aproximadamente. Penso que essa prática foi abandonada, ao menos na catedral.

Nos casamentos, tocavam-se o sino número 1 e o número 3 simultaneamente, desde o início do deslocamento da noiva na calçada, próximo ainda ao meio-fio, até adentrar a Igreja então já sendo recebida ao som de música e canto, quando havia. Em dias festivos ou nas missas de finais de semana, tocavam-se os quatro sinos simultaneamente, quinze minutos antes do início das celebrações.
Não consigo entender como, no meio dos inúmeros ruídos do nosso cotidiano, o único a incomodar seja o badalar do sino com seu maravilhoso convite ao silêncio e à reflexão.

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