A solidão mata tanto quanto o cigarro, segundo a ciência. Em 2026, porém, o antídoto mais consumido contra ela já não vem do Sistema Único de Saúde (SUS), mas de algoritmos que vendem afeto sob demanda. O mercado promete escuta contínua, validação imediata e companhia sem atrito. O risco é que esse remédio, ao anestesiar o conflito humano, agrave exatamente o adoecimento que diz combater.
O mercado da simulação afetiva opera, hoje, como uma pirâmide de nichos. No topo, plataformas como Replika e Romantic AI vendem o romance sem o ônus da rejeição, com parceiros virtuais que nunca se ausentam e jamais discordam. Na base, ferramentas como Wysa e Woebot ocupam o vácuo da saúde pública, oferecendo protocolos de terapia a jovens que nunca pisaram em um consultório.
O produto, contudo, não é a tecnologia, mas a previsibilidade emocional. Em um mundo instável, a inteligência artificial (IA) oferece o conforto de um espelho calibrado para nunca contrariar. O Brasil consolidou-se, em 2026, como o maior laboratório de interação emocional digital do Hemisfério Sul. Estimativas indicam que cerca de 50 milhões de brasileiros utilizam IA generativa de forma cotidiana.
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Pesquisas recentes mostram que aproximadamente 35% dos jovens entre 18 e 24 anos preferem desabafar com assistentes virtuais a conversar com familiares ou amigos, citando o medo do julgamento como principal barreira no mundo real.
Esse comportamento não nasce de apatia social, mas de uma aversão crescente ao risco humano. No diálogo real, existe conflito, silêncio e possibilidade de rejeição. A IA oferece anestesia social e conexão sem vulnerabilidade. Ela oferece o espelho, mas nos rouba o rosto do outro.
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O perigo não é apenas subjetivo, mas também clínico. Um estudo conduzido pelo Stanford Human-Centered Artificial Intelligence (HAI), publicado em meados de 2025, demonstrou que chatbots de terapia e companhia falham em reconhecer sinais graves de crise emocional e, em alguns casos, reforçam estigmas nocivos ou oferecem conselhos equivocados, que agravam quadros depressivos.
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A empatia simulada pode retardar o acesso a tratamentos reais e criar uma falsa sensação de estabilidade. No Brasil, dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam aumento de internações psiquiátricas entre jovens e redução da busca por atendimento presencial.
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Ao mesmo tempo, a Geração Z liderou, em 2024 e 2025, o crescimento no consumo de medicamentos para saúde mental, com alta próxima de 8%. A companhia digital não conteve a crise emocional. Apenas a tornou mais silenciosa e difícil de rastrear.
Relatório global da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no fim de 2025, confirmou que a solidão está associada a cerca de 870 mil mortes por ano. O isolamento digital ativa respostas de estresse que afetam os sistemas imunológico e cardiovascular de forma semelhante ao tabagismo. A tecnologia promete conexão, mas o corpo reage como se estivesse abandonado.
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Estudos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alertam que IAs de companhia, ao oferecer validação incondicional, dificultam o desenvolvimento de resiliência e empatia. Relações reais exigem lidar com frustrações e perspectivas divergentes.
A IA, programada para agradar, elimina esse aprendizado e constrói um espelho auto indulgente, que devolve sempre a mesma imagem. Aqui emerge a dimensão política e econômica do problema. Vive-se a era da solidão de dados. Ao confiar angústias, medos e fragilidades a essas plataformas, usuários entregam às empresas o mapeamento preciso de suas vulnerabilidades emocionais. Se a IA sabe o que faz alguém chorar às duas da manhã, sabe exatamente o que oferecer às oito.
Esse é o núcleo do capitalismo de afeto. Emoções viram ativo. Desabafos viram perfil comportamental. O cuidado se mistura à exploração quando dados emocionais alimentam publicidade, produtos financeiros e promessas de bem-estar.
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Se a solidão é uma epidemia, o custo de sua cura artificial não pode ser ignorado pelo Estado, sob o risco de vermos o SUS sobrecarregado por uma geração funcionalmente adaptada a máquinas, mas socialmente incapacitada para a vida pública.
O debate regulatório segue atrasado. O Marco Legal da Inteligência Artificial avança em pontos técnicos, mas ainda trata de forma insuficiente a proteção emocional de crianças, adolescentes e idosos. Falta enfrentar o design persuasivo, a coleta de dados sensíveis e a responsabilidade por danos psicológicos previsíveis.
A tecnologia pode servir como ponte. Quando se apresenta como substituto de vínculos humanos, transforma-se em atalho perigoso. A questão que se impõe não é se a IA pode nos fazer companhia, mas quanto dessa companhia estamos dispostos a aceitar antes de desistir, de vez, uns dos outros.
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