Em três meses, no dia 18 de junho, o 9º Festival Santa Cruz de Cinema celebrará a carreira do ator e cineasta Reginaldo Faria. Ele subirá ao palco do auditório central da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) para receber uma homenagem, reconhecendo sua dedicação e seu legado à sétima arte.
Nascido em 11 de junho de 1937, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Reginaldo Figueira de Faria sonhava em ser ator desde pequeno. Seu primeiro trabalho seria no segundo filme de seu irmão, Roberto Farias (o “s” no sobrenome deve-se a um erro no cartório), No Mundo da Lua (1958). Foi o início de uma parceria entre a dupla que resultou em sete filmes, incluindo O Assalto ao Trem Pagador (1962) e Pra Frente Brasil (1982), obra que denunciou as torturas perpetradas pela ditadura.
LEIA MAIS: Jornalista da Gazeta acompanha cerimônia do Oscar em sessão especial em Porto Alegre
Publicidade
Em parceria com o cineasta Hector Babenco, um dos grandes nomes do cinema brasileiro e mundial, Reginaldo deixaria a sua marca na sétima arte em uma das obras mais importantes do século 20: Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Lançado em 1977, o longa-metragem narra a história de um assaltante e evidencia a corrupção policial da época.
Ao todo, são 86 participações como ator, de acordo com o Internet Movie Database, não só no cinema mas também na televisão. Entre as novelas estão clássicos como Vale Tudo (1988), Tieta (1989) e Vamp (1991). O legado de Reginaldo não se limita à atuação: assinou nove roteiros, incluindo o do longa-metragem Pra Frente, Brasil, baseado em uma história real que testemunhou. Também dirigiu oito filmes, desde Barra Pesada (1977) até O Carteiro (2011), filmado no Rio Grande do Sul.
LEIA TAMBÉM: Pelo mundo: antes do mapa, a ideia (parte 2)
Publicidade
Aos 88 anos, o ator segue brindando o público com seu trabalho. No dia 26, ele poderá ser visto nos cinemas na comédia brasileira Velhos Bandidos, que tem no elenco Fernanda Montenegro e Ary Fontoura. Em entrevista à Gazeta do Sul, o talentoso ator e cineasta relembra sua marcante trajetória cinematográfica. Ele também fala sobre a expectativa de visitar Santa Cruz do Sul pela primeira vez.
Entrevista Reginaldo Faria — Homenageado do 9º Festival Santa Cruz de Cinema

Gazeta do Sul — Qual é o sentimento de receber uma homenagem por sua carreira no cinema?
Reginaldo Faria — Sempre fico muito honrado com as homenagens. Particularmente, me surpreendo com elas, porque não me vejo como sou visto. De toda forma, quando as recebo, percebo o quanto fiz e o quanto isso representa historicamente. Mas repito: fiz por amor, paixão e vocação, sem mensurar ou mesmo ter consciência do que estava sendo construído, até porque continuo pavimentando esse caminho com a mesma sede juvenil.
Publicidade
Santa Cruz do Sul consolidou-se como uma referência do audiovisual no interior do Estado. Além do Festival de Cinema, possui o Polo Audiovisual e a Film Commission. Como o senhor avalia esse posicionamento do município no setor?
Não tive ainda a oportunidade de conhecer e será um prazer estar na cidade vivenciando o nosso cinema. Sei da importância cultural de Santa Cruz e tenho certeza de que seu polo audiovisual é fundamental para a fomentação da produção audiovisual na região, promovendo a economia criativa. Além de incentivar a produção autoral, o polo também ajuda a impulsionar pequenas produtoras, qualificando a mão de obra local. Tudo isso faz dessa cidade um relevante centro de cinema no Rio Grande do Sul.
Além de ser homenageado no Festival de Gramado, o senhor gravou O Carteiro no Rio Grande do Sul. Qual é a sua relação com o Estado?
Publicidade
A empatia com os imigrantes italianos de Vale Veneto. Sou muito grato a eles e, evidentemente, ao povo do Sul.
LEIA MAIS: Santa Cruz e Venâncio Aires terão projeto do Sesc sobre artes
O que o motivou a tornar-se ator?
Publicidade
Sou ator por natureza. Querendo ou não, meu destino me levou a isso e, consequentemente, aprimorei a técnica em busca de caminhos que não enxergava antes. Vi que não era suficiente colocar o rosto nas telas, era também o entendimento como artista e participante das questões sociais.
Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, de Hector Babenco, tornou-se um dos filmes brasileiros mais cultuados. Como foi viver aquele bandido e eternizar sua história no cinema?
O filme Lúcio Flávio, em pleno regime ditatorial, foi ousado e importante por caber nele a denúncia. Na época o Esquadrão da Morte era uma polícia paramilitar. Servia ao regime de forma escusa com a pecha de eliminar a escória, e Lúcio Flávio foi bandido e vítima estando bem perto da denúncia. Para mim, foi um duplo aprendizado como homem e como artista.
Recentemente, a obra foi restaurada e disponibilizada nas plataformas de streaming, permitindo que as novas gerações possam conferi-la. Como o senhor vê essa iniciativa de recuperar nossos filmes clássicos?
Não diria “recuperar” – diria manter. Nada mais justo, especialmente se for um clássico.
LEIA TAMBÉM: Santa Cruz do Sul vai sediar a Fecars 2027
O senhor teve como grande incentivador seu irmão, Roberto Farias, com quem trabalhou em diversos filmes, incluindo Assalto ao Trem Pagador. Quais lembranças tem de ter trabalhado com ele? Que legado ele deixa para o cinema brasileiro?
Roberto foi a minha grande escola. Tudo que sei em termos de cinema e vida, devo a ele.
Em 1982, o senhor e Roberto produziram Pra Frente, Brasil, sendo o senhor responsável pelo roteiro. O que o inspirou a escrever a história?
Quase diria coincidência, mas como vivíamos em pleno regime, qualquer ameaça era também motivo de mobilizar a imaginação: eu estava numa ponte aérea SP/RJ e, casualmente, sentei-me ao lado de um homem com discursos fortes contra o regime militar. Ao desembarcamos, ele me ofereceu uma carona em seu táxi ao descobrir que iríamos para a mesma parte da cidade. Na hora, algo me disse para não ir. Desconversei e tomei um táxi após o dele partir. Mais adiante, ele foi interceptado por um carro e levado encapuzado. Não foi à toa que aquele sujeito viajou ao meu lado, não foi à toa que se manifestou contra o regime, não foi à toa que eu, com a minha cabeça fervilhante, tirei daquele instante o ponto de partida da história. Viva num regime desses que saberá!
A história de Jofre e de sua família tem similaridades com a de Rubens Paiva. Foi uma maneira de abordar o caso no cinema?
Não diretamente. Como disse, fez parte de minha vivência durante o regime. No entanto, por se tratar do mesmo período árduo e doloroso, nesse aspecto, pode-se dizer que sim.
LEIA TAMBÉM: Livro “O crime do bom nazista” será adaptado ao cinema; confira entrevista exclusiva com o autor
O longa-metragem foi lançado ainda durante a ditadura militar. Qual foi a reação da sociedade e dos militares na época?
Nosso filme ficou retido durante um ano e só no período da abertura (ainda sob a ditadura) pôde ser lançado. Ganhou prêmio em Berlim, em Huelva, foi selecionado em Cannes e ganhou o Kikito em Gramado como melhor filme, com o público aplaudindo de pé! O filme teve 1,3 milhão de espectadores. Essa é uma medida que demonstra como foi recebido. Em relação aos militares, não sei dizer.
Assim como Lúcio Flávio e Pra Frente, Brasil, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, que chegaram ao Oscar, denunciam tortura e corrupção durante a ditadura militar. Como o senhor avalia o papel do cinema ao retratar esse período?
Ditadura é ditadura, e em qualquer período deve ser execrada. Prêmios, merecidamente, chegam em consequência – essa é a importância do cinema!
Ao longo da carreira, o senhor dirigiu oito filmes, entre eles Quem Tem Medo de Lobisomem? e Barra Pesada. Como avalia essa experiência? E em que medida a trajetória como ator influenciou a de diretor?
Acho que a direção sempre esteve em mim. Tinha apenas que perceber e entender de que forma poderia exercê-la. O processo de conduzir um filme é, também, um processo de descoberta e autodescoberta, assim como a atuação. Atuar me ajudou na direção na medida em que já tinha um conhecimento mais profundo de como funciona um set, além de poder dirigir outros atores com um conhecimento de causa mais profundo.
LEIA MAIS: Santa Cruz Cidade Viva exalta o talento feminino
Para além do cinema, o que significou o trabalho nas novelas e peças teatrais?
O seguimento normal de minha profissão. Ser ator é emprestar seu corpo, seu espírito e sua alma e o significado está no ato de fazer!
Recentemente, o senhor atuou no longa-metragem Perto do Sol é Mais Claro, dirigido por seu filho, Regis. Como foi a experiência de trabalhar com ele?
Um trabalho lindo, sensível, tirado de dentro e do profundo desejo de continuar. Trabalho feito com uma câmera na mão (sem equipe), dirigido por ele como se fôssemos um só.
De pai para filho
A presença de Reginaldo Faria no 9º Festival Santa Cruz de Cinema será marcada pela exibição de um dos seus trabalhos recentes, o longa-metragem Perto do Sol é mais Claro, mostrado no prestigiado Festival do Rio em 2025. O ator vive Rêgi, um engenheiro carioca de 85 anos que enfrenta a perda de sua esposa. A narrativa acompanha a sua jornada solitária, o apoio dos filhos e a determinação de seguir em frente ao escrever um livro, além de se apaixonar por uma talentosa atriz. A obra foi selecionada para participar de inúmeros festivais internacionais.
LEIA TAMBÉM: Oficina de pintura de ovos antecipa o clima de Páscoa em Santa Cruz
O filme é escrito, dirigido e editado pelo filho de Reginaldo, o cineasta Regis Faria. Seu primeiro trabalho como diretor de cinema foi o documentário Leonardo Pareja (1996), famoso bandido que na década de 1990 foi responsável pelo sequestro da sobrinha do senador Antônio Carlos Magalhães, mantendo-a refém por três dias, e fugir da polícia até entregar-se no mês seguinte. Desde então, assinou outras 14 obras, de acordo com o Internet Movie Database (IMDb). Em entrevista à Gazeta do Sul, o cineasta falou sobre a experiência de dirigir o pai e o legado do artista na sétima arte.
Entrevista Regis Faria — diretor

Gazeta do Sul — De que maneira o trabalho do seu pai o incentivou a tornar-se cineasta?
Regis Faria — Essa é uma pergunta difícil e fácil ao mesmo tempo (risos). Difícil porque não identifico claramente no que seu trabalho me incentivou a seguir minha profissão. São tantas coisas… Ele, e minha mãe também, me deixou muito livre para escolher o que eu quisesse fazer. Mas existe uma convivência diária com o ofício, no seu sentido amplo, que me fez absorver muita coisa. Isso não é percebido de forma explícita, mas acontece. Essa convivência ia além do trabalho do meu pai. Estava relacionada com o dia a dia da minha família. Fui descobrir o que queria fazer, fazendo. Não teve um dia que decidi: “Pronto! É isso que quero ser!”. A parte fácil foi seguir o exemplo de comportamento ético, generoso e ilibado de meu pai.
Para você, quais são os trabalhos mais marcantes do seu pai?
São tantos… Alguns filmes são muito importantes para a cinematografia brasileira e outros nem tanto, mas sua atuação é relevante: filmes como ator – O Assalto ao Trem Pagador, Selva Trágica, Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia; Com Licença, Eu Vou à Luta e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Como diretor, destaco Barra Pesada, de 1977. Filme com uma dramaturgia fortíssima, e um retrato social muito preciso, que ainda hoje é atual. Na TV eu diria que Vale Tudo, Água Viva e Força de um Desejo foram muito especiais, mas tem duas séries de que gosto imensamente: Boca do Lixo e A Máfia no Brasil.
LEIA MAIS: Escolha das soberanas da 41ª Oktoberfest será em 17 de maio
Como surgiu a oportunidade de dirigir o seu pai em Perto do Sol é Mais Claro? Você pensava nele como protagonista enquanto escrevia a história?
Esse foi um processo totalmente atípico. Havia um enorme desejo de trabalhar com ele, e queria fazê-lo nesta etapa de minha vida em que já me considerava mais maduro profissionalmente e um homem com mais vivência. Um dia o abordei e disse: “Vamos fazer um filme?” E ele disse prontamente: “Vamos!” Não perguntou que filme, sobre o quê… Nada! Apenas aceitou. Começamos a filmar sem um roteiro escrito. Inventei uma profissão para o personagem e fomos filmando cenas aleatórias relacionadas a essa profissão. A partir disso, e em torno disso, comecei a desenvolver o roteiro. Portanto, respondendo sua segunda pergunta, eu pensava nele enquanto escrevia porque já era ele o personagem principal.
E como foi dirigi-lo no filme?
Foi fantástico. Foi um processo muito intimo, porque, como disse antes, foi atípico. Não tínhamos uma equipe no set. Éramos somente os dois e minha câmera. Isso trouxe para nós uma enorme interatividade e, consequentemente, uma legitimidade muito grande para o filme. Pudemos trocar experiências e experimentá-las. Acho que isso resultou num filme sem verniz, que consegue atingir camadas bastante profundas.
Na sua avaliação, o que torna a atuação do seu pai tão marcante? Qual é o grande legado que ele deixa para você?
O Reginaldo é um ator que trabalha com a emoção e ele faz isso muito bem, o que o torna um artista especial. Além disso, tem um domínio gigante de suas expressões, e da mesma forma da gramática de filmagem. Sabe o que está acontecendo no set, conhece as lentes, os enquadramentos e como está sendo fotografado. Tudo isso são ferramentas que ele possui e que estão a serviço de sua atuação. O grande legado que ele me deixa é o amor.
QUER RECEBER NOTÍCIAS DE SANTA CRUZ DO SUL E REGIÃO NO SEU CELULAR? ENTRE NO NOSSO NOVO CANAL DO WHATSAPP CLICANDO AQUI 📲. AINDA NÃO É ASSINANTE GAZETA? CLIQUE AQUI E FAÇA AGORA!