Frankenstein, de Mary Shelley, é uma ficção sempre presente no imaginário. Neste ano, mais dois filmes (um deles indicado ao Oscar em várias categorias) realimentaram o interesse por essa história publicada em 1818, que narra tanto a desventura de um cientista atormentado por sua criação quanto a jornada igualmente sombria da criatura – planejada, no início, como uma representação de perfeição super-humana.
As ambições de Victor Frankenstein (nome do cientista, não do monstro) eram as mais imponentes. Seu desejo era criar uma nova espécie, dar um passo adiante no processo evolutivo. Para isso, construiu um ser vivo a partir de matéria morta, concebido para ser fisicamente mais forte e dotado de inteligência. Ao concluir o trabalho, porém, Frankenstein fica estarrecido com a aparência horrenda de seu invento. O que deveria ser sublime revela-se monstruoso diante de seus olhos. E o “pai” foge imediatamente para não ser obrigado a encarar o rebento.
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Uma vez rejeitado pelo criador, o novo ser passa a vagar solitário por áreas rurais, onde, como criança, vai aprendendo a reconhecer o mundo e seus elementos. Também tem seus primeiros contatos com seres humanos, invariavelmente desastrosos. Todos entram em pânico ao vê-lo, mesmo que não demonstre agressividade nenhuma. A aparência medonha, no entanto, é como uma maldição.
A criatura de Victor Frankenstein quer ser aceita. No texto de Mary Shelley, ela emociona-se ao ouvir música e, escondida em um abrigo, afeiçoa-se secretamente a uma família da vi-zinhança, com a qual sonha ter amizade. Pensa que: “…quando eles tomassem conhecimento de minha admiração pelas suas boas qualidades, se compadeceriam de mim e ignorariam minha deformidade pessoal”.
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Tem acesso a alguns livros e impressiona-se ao ler Plutarco, Goethe e Paraíso perdido, de John Milton. Sua mente mostra-se ágil e refinada. É o infeliz desenrolar dos acontecimentos que levará tal personagem a se tornar, efetivamente, um monstro capaz das piores atrocidades.
Pois nisso reside o sentido trágico do enredo: Frankenstein é uma história de potencial desperdiçado, de possibilidades incríveis destruídas por abandono e incompreensão. A criação do cientista não é só mais forte, resistente e rápida que o normal; também é notavelmente inteligente. Do que seria capaz de contribuir se, rejeitada por seu aspecto, não fosse transformada em um pária?
Frankenstein continua atual porque, em um mundo dominado ainda por pré-julgamentos e estigmatização, não faltam seres sufocados na sua origem e desvirtuados para a monstruosidade.
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