

















Sob o céu aberto do antigo Forno de Cal, em Rio Pardo, a noite da Sexta-feira Santa, 3, voltou a reunir fé, arte e comunidade em um dos espetáculos mais tradicionais do Vale do Rio Pardo. Com mais de três décadas de história, a encenação da Paixão de Cristo transformou novamente o espaço em uma arena de emoção coletiva, reunindo moradores e visitantes em uma experiência que se consolida como manifestação cultural e turística da região.
Ao longo da noite, o público acompanhou os últimos momentos da trajetória de Jesus Cristo em uma montagem que apostou em intensidade visual, maior presença corporal em cena e uma narrativa mais próxima do tempo atual. Com cerca de 130 pessoas envolvidas entre elenco, produção, equipe técnica, figurino e cenário, o espetáculo, cuja produção é da Andarilhos Companhia Teatral e da Vaquita Cultural, reafirmou o caráter comunitário que sustenta sua continuidade ao longo dos anos.
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Logo na abertura, a presença de dançarinos e a construção coreográfica ampliaram o impacto visual da encenação, conduzindo o público para dentro da narrativa. Ao longo das cenas, o uso do espaço em formato de arena reforçou a sensação de imersão, aproximando espectadores e atores em momentos emblemáticos.
Mais do que revisitar uma história conhecida, a proposta desta edição foi aprofundar o olhar sobre o comportamento coletivo diante dos acontecimentos. A encenação trouxe à tona não apenas o sofrimento de Cristo, mas também o papel de uma sociedade que julga, se omite ou se deixa conduzir. De acordo com o diretor Dmitri Rodrigues, o espetáculo se renova a cada ano. “Este ano ensaiamos novas coreografias, temos cenários novos, cenografia melhorada. A Paixão de Rio Pardo conta essa história sempre de uma forma diferente”, destaca.
A dramaturga responsável, Letícia Mendes, explica que essa construção parte justamente da tentativa de aproximar a narrativa do público contemporâneo. “Não é apenas sobre o que aconteceu com Jesus, mas sobre como uma sociedade inteira participa disso. Seja agindo, se omitindo ou sendo influenciada”, explica.
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Protagonismo feminino ganha força
Um dos pontos mais marcantes da montagem deste ano foi o destaque dado às personagens mulheres. Dmitri ressalta que uma característica importante da dramaturgia do espetáculo é, justamente, contar boa parte da história sob a ótica feminina. “Ampliamos a presença feminina na peça e abordamos assuntos de grande relevância para nossa sociedade atual”, diz.
Mulheres como Maria, Madalena e outras figuras foram apresentadas como vozes ativas, que questionam, refletem e enfrentam os acontecimentos. A construção dessas personagens trouxe mais densidade à história, ampliando o olhar sobre o sofrimento, a consciência e a resistência diante da violência e do julgamento coletivo.
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Segundo Letícia Mendes, esse é um dos eixos centrais da dramaturgia desta edição. “Na nossa versão, as mulheres não estão em silêncio ou à margem dessa história. Elas pensam, discutem e debatem”, ressalta.
Na pele de Maria, a atriz Mariana Fuentes Schneider constrói uma personagem que vai além da dor, trazendo à cena uma figura consciente e forte diante do destino do filho. Com mais de 15 anos de participação, ela destaca que a releitura deste ano apresenta uma Maria como base e suporte até os últimos momentos de Jesus.

“Ela não vem só como essa mulher sofrida, mas como alguém que tem consciência do que está acontecendo e se mantém forte até o fim”, explica. Mãe na vida real, Mariana afirma que a construção a atravessa de forma intensa. “A gente tenta imaginar como seria viver isso, ver um filho sendo injustiçado e ainda assim ter que ser força para ele. É uma dor muito profunda, mas também um ato de amor.”
Uma história que pertence à comunidade
A Paixão de Cristo de Rio Pardo é resultado direto do envolvimento comunitário. Parte do elenco participa há décadas, enquanto novos integrantes ingressam a cada edição, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações. Essa construção coletiva é visível em cada detalhe, dos figurinos atualizados à trilha sonora renovada, passando pela preparação intensa que antecede a apresentação.
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Para a dramaturga, esse vínculo é o que sustenta o espetáculo ao longo do tempo. “Muitas pessoas se apaixonam por fazer esse espetáculo todos os anos. Isso faz com que ele não seja só um evento, mas algo que realmente pertence à cidade”, observa.
No centro da encenação, o ator que deu vida a Jesus conduziu uma performance marcada pela intensidade emocional e física. Em uma narrativa que aposta cada vez mais na humanização dos personagens, a interpretação buscou aproximar o público de sentimentos como medo, dor e entrega.
Essa construção também dialoga com a proposta dramatúrgica de dar mais profundidade aos personagens, fugindo de representações simplificadas e aproximando suas experiências da realidade humana.
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No centro da encenação, o ator Eduardo Ezequiel Sosa, que interpreta Jesus pela quarta vez, conduz a narrativa a partir de uma vivência marcada pela emoção e pela reflexão. Segundo ele, a cada edição a história ganha novos contornos e desperta sentimentos distintos, especialmente nas relações construídas em cena, como o amor maternal com Maria e o vínculo fraterno com os apóstolos. “É uma mensagem que eu tento internalizar para mim: às vezes a gente passa por momentos difíceis, mas precisa pensar no coletivo, no resultado final, mesmo que não seja o melhor para nós individualmente”, destaca.
Para quem assiste, a experiência também é pessoal. Da plateia, Gesebel Nunes, que já assistiu à encenação em outras edições, destaca o impacto renovado a cada ano. “Sempre é muito emocionante, mexe com a gente. Apesar de ser uma história antiga, cada apresentação traz algo novo, uma mensagem para repensar a nossa vida e o cuidado com o próximo”, afirma. Neste ano, ela acompanhou o espetáculo ao lado do marido e do filho, reforçando o caráter familiar e afetivo da experiência.
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