Amapaense de nascimento e radicada em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, desde quando era criança, a cantora e compositora Fernanda Takai firmou-se como uma das principais vozes femininas na música brasileira contemporânea. Aos 54 anos, dá continuidade a uma trajetória artística com a banda Pato Fu, há mais de três décadas na estrada e da qual é a vocalista, e também em carreira solo, amplamente aplaudida.
Se foi a música que a projetou para o Brasil e para o mundo, em paralelo desenvolve outra vertente: a de escritora e de cronista. Com regularidade assina textos em jornais na capital mineira, como O Estado de Minas, e ainda de outras cidades, caso do Correio Brasiliense. Parcela deles reuniu em dois livros, Nunca subestime uma mulherzinha, de 2007, e A mulher que não queria acreditar, este de 2011, ambos pela Panda Books. A sua habilidade na escrita vincula-se à formação superior em Comunicação Social, em 1993, uma área de forte interesse dela.
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Neles, exercita a sua curiosidade de artista, espiando o seu cotidiano familiar e também os espaços públicos. O ponto de vista da mulher, na condição de filha, esposa, mãe e amiga, se evidencia, e assim ela se torna uma porta-voz respeitável das angústias, das inquietações e também das conquistas femininas na sociedade brasileira. A vivência junto à Pato Fu resultou em muito mais do que apenas uma parceria artística: ali encontrou o amor, pois se casou com o seu colega de banda, John Ulhoa, com quem tem a filha Nina, nascida em 2003.
Fernanda é descendente de japoneses, e assim igualmente difunde, em inúmeras ocasiões, a cultura da comunidade nipo no Brasil. Isso aconteceu ainda pela via da escrita, com o lançamento de obras de literatura infantil, como A gueixa e o panda-vermelho, de 2012, ilustrado por Thereza Rowe, pela editora Cobogó, e, mais recentemente, Quando Curupira encontra Kappa, de 2023, ilustrado por Daniel Kondo, em que aproxima dois seres mitológicos e do folclore das duas nações, o Curupira brasileiro e o Kappa japonês. Em meio ao lançamento dessa obra, Fernanda foi uma das atrações da Feira do Livro de Porto Alegre de 2024, quando proferiu palestra sobre a sua atividade artística e salientou a importância dos vínculos com a cultura japonesa em sua própria caminhada.
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Nesse gênero, dos textos para o público infantojuvenil, em 2017 Fernanda lançou o volume O cabelo da menina, com ilustrações de Ina Carolina. Nele, aborda questões de autoestima e propõe reflexão sobre o que há de belo em cada pessoa, aspecto que, não raro, constitui fonte de angústia na infância e na adolescência. Agora, quando esse volume está em vias de completar uma década desde sua publicação original, acaba de sair uma segunda edição, pelo selo Garatuja.
Nesta semana, Fernanda concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul, em mensagens trocadas tanto por WhatsApp quanto por e-mail. Na conversa, rememora a sua caminhada pessoal de formação e, muito especialmente, o vínculo com a sua terra natal, o Amapá, ambiente sempre de forte exposição na mídia nacional e internacional, diante da problemática das constantes ameaças à floresta amazônica.
A sua carreira musical, seja com o Pato Fu, seja nos elogiados trabalhos solo, também merece atenção na entrevista. Vale salientar sua condição de multiartista, o que engloba as gravações de inúmeros DVDs, um deles ao vivo no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, e outro ao vivo no parque de Inhotim. Na conversa transparece, latente, a atuação de Fernanda Takai em favor da tomada de consciência do público em torno de temáticas atuais, como o meio ambiente, a radicalização e a aceitação das diferenças.
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Entrevista – Fernanda Takai, cantora, compositora e escritora
- Gazeta do Sul – O Brasil te conhece pela música, como cantora e compositora. Mas és também cronista e escritora, além da formação em Relações Públicas e Comunicação Social. Disso tudo, o que veio antes?
Fernanda Takai – Quando estava na UFMG, quase no fim do meu curso, veio o convite para tocar e cantar no Pato Fu, banda derivada de outros projetos musicais do John. Eu tinha tocado antes na minha banda do colégio, que durou até 1991. A música era como um hobby para mim, tanto que não abandonei meu trabalho na área de comunicação até o nosso terceiro álbum. Viver de música era muito distante, ninguém na minha família tinha trilhado essa carreira antes.
- Vens do interior do Amapá. O que o fato de ser natural do Norte, da Amazônia, representa para ti em termos de imaginário?
Apesar de ter morado apenas dois anos na Serra do Navio, tenho imagens muito presentes porque meu pai tirava muitas fotos. E eu, como primeira filha, fui brindada com aquele excesso de cliques… Como brasileira, tenho muito orgulho de ter vindo de um lugar tão importante para o nosso povo e o mundo. Antes de eu decidir ficar em Minas Gerais, minha família seguiu para Goiânia, e antes moramos por seis anos na Bahia (Salvador e Jacobina), mas sinto que preciso voltar ao interior do Amapá para me sentir parte de novo daquela Amazônia. Estive em outros estados que compartilham dessa exuberância, mas nunca retornei ao meu local de nascimento. Toquei com o Pato Fu em Macapá uma única vez.
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- Pai geólogo e mãe enfermeira, isso? Dessas atividades, que ensinamentos e que legado carregas contigo?
Infelizmente meu pai morreu aos 52 anos. Sinto que poderia ter aproveitado mais de sua sabedoria e de suas habilidades em minha idade mais adulta. Minha mãe fará 83 anos e ainda está bem. Voltou a Belo Horizonte, vive em sua casinha num condomínio perto de mim. Gosta de ter autonomia, mas sempre que não estou viajando passamos os fins de semana juntas ou ela sai com meu irmão do meio, que também escolheu voltar de Goiás e ficar por aqui. Nosso irmão mais novo mora em Curitiba. Acho que os nossos pais nos ensinaram a ter muito respeito e cuidado com o próximo; isso independe da profissão, diria que é uma formação ética.
- O que acabou por te levar à música?
Comecei a aprender a tocar violão aos 9 anos, como forma de socialização. Nossa família mudou-se de Jacobina para Belo Horizonte no meio do ano. Era tudo diferente: a temperatura, a casa, meu irmão mais novo tinha acabado de nascer, a escola, os colegas… Sempre fui mais quieta e estava ficando muito fechada em casa, além de ser uma menina que tinha sotaque baiano, sobrenome diferente, um pai paulista filho de japoneses e uma mãe alagoana. Havia uma professora de violão popular a poucas quadras da minha casa e lá fui eu. A música me fazia bem, eu gostava muito de ouvir rádio, fitas k7 e os vinis dos meus pais. Intuí que ela não poderia mais sair de perto de mim.
- O que a convivência de tantos anos com a turma do Pato Fu representa para a tua própria compreensão da arte, da cultura? Vocês formaram uma família, não é? Até acabaste por casar com o John…
Olha, de certa forma somos ainda. A banda completará 34 anos em setembro e os três integrantes iniciais, pois éramos um trio antes, continuam por aqui e o mesmo empresário também, caso raro! Nossa longevidade me ensinou que é possível viver de arte, de música, mesmo que o mercado mude o tempo todo… A gente não pode abrir mão do nosso jeito de fazer as canções, de gerenciar nossa carreira. E quanto mais conhecermos e observarmos o mundo, as pessoas e a natureza, teremos elementos inesgotáveis para criar ou interpretar música.
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- De que forma a literatura se firmou nessa caminhada? A partir da composição? Ou já era uma vocação natural?
Na composição musical, faço tanto letra quanto melodia e harmonia. Algumas vezes depende da parceria que me convida ou é convidada. Sempre gostei de ler e a visibilidade na música me trouxe vários convites para escrever textos em revistas diversas… Em 2005, os editores do jornal O Estado de Minas me convidaram para assumir uma coluna toda sexta-feira, que logo foi replicada no Correio Braziliense. Fiquei por seis anos sem faltar uma só coluna semanal. Acabei pedindo para sair porque estava também em carreira solo, minha filha crescendo, e estava escrevendo mais textos do que música.
- Lançaste livros no gênero infantil, infantojuvenil. Quando e de que forma essa produção se apresentou para ti?
As crônicas e os contos – para todas as idades – dos jornais saíram em duas coletâneas da Panda Books antes dos infantis, e eu estava tendo mais contato com o público mais novo por conta da turnê “Música de Brinquedo” que o Pato Fu começou a fazer com o Giramundo. Eu também estava visitando muito o Japão e tive a ideia de escrever sobre uma visita que fiz ao zoo de Ueno, em Tokyo, que virou o livro A gueixa e o panda-vermelho, saindo pela Cobogó em 2012. Mais tarde, coincidiu um convite do projeto “Leia pra uma criança” e escrevi O cabelo da menina, que ganhou o Jabuti na categoria digital, pois vinha numa plataforma com movimento e música. Lancei em papel também pelo Sesi, uma vontade que dialoga com a própria necessidade das escolas e das bibliotecas, para alcançar mais gente.
- O que tens, em especial, como projeto ou propósito em teus livros voltados às crianças? O que buscas transmitir ou expressar para eles?
Escrevo para crianças como se estivesse escrevendo para toda a família. Acredito muito que pais, mães, tias, avós, professores, quando escolhem livros, se identificam com eles e sentem vontade de mediar leituras que nos levem a pensar sobre o mundo em que vivemos, com quem podemos contar, ver que as pessoas são mesmo diferentes umas das outras…
- A cultura japonesa transparece em algumas dessas obras. O que ser descendente de japoneses representa para ti e como te aproximas desse universo?
Quando eu era pequena e frequentava a casa de meus avós japoneses, não fazia essa distinção. Era uma casa um pouco diferente, comidas que só lá eu comia, às vezes surgia uma palavra em japonês que os netos aprendiam… Só quando fui ficando mais velha e estive no Japão pela primeira vez, me deu um clique: “ah, por isso era assim…” Eles eram um pequeno Japão em São José dos Campos.
Identifiquei-me demais com tudo e percebi sutilezas no comportamento deles, no jeito de passar pela vida. Fui aprender japonês porque estava tendo mais convites para voltar ao país e tive vergonha de saber quase nada. Meu pai era um dos mais novos e nasceu em 1944. Durante a Segunda Guerra, Getúlio Vargas proibiu o ensino do idioma. Livros foram queimados, escolas fechadas… Ficou esse vácuo na própria formação dele. Hoje, procuro ler mais autores japoneses, ver mais filmes, ter atenção mesmo com a cultura de lá.
- O que, em tua impressão, os japoneses podem ensinar aos brasileiros, e vice-versa?
Somos muito diferentes e justamente isso encanta os povos nos dois sentidos. Aprimoramos o compromisso, o apreço às cerimônias e o respeito ao espaço que habitamos. Os japoneses talvez gostem do jeito mais quente e afetuoso que temos ao recebê-los. Temos formas menos convencionais de resolver problemas, talvez a gente os ensine mais sobre a diversidade das pessoas, essa nossa mistura tão peculiar. O grande ensinamento para todos nós é a oportunidade do conhecimento, da troca. Algumas vezes, ela será benéfica em aspectos muito particulares para cada um, fugindo de estereótipos…
- Quem gostas de ler dos autores japoneses? Quem indicarias, entre tuas predileções?
Tenho experimentado leituras diversas, como Yukio Mishima, Banana Yoshimoto, Kazuo Ishiguro, Yasunari Kawabata, Sayaka Murata, Keigo Higashino… Li mais coisas do Haruki Murakami e do Junichiro Tanizaki.
- E o exercício da crônica, que publicas em jornal, como isso se ocorreu? O que escrever crônicas representa para ti, enquanto artista, e como ajuda na tua percepção de mundo?
Escrever crônicas me traz sempre uma sensação boa de alcançar as pessoas de outra forma, sem ser através da música. Posso trazer temas mais específicos, que têm a amplitude do nosso dia comum, observado como algo extraordinário. É muito bom quando conseguimos jogar uma luz diferente ao que acontece com todo mundo. Gosto também de estar naquele limite do conto. Uma história que vem do real, mas com uma pitada de exagero até sobrenatural.
- Como é a tua ligação, afetiva ou de formação, com o Rio Grande do Sul? Como e quando essa relação se estabeleceu?
Certamente foi acontecendo aos poucos, à medida que minha carreira artística se desdobrou em inúmeras viagens ao estado. Antes, eu conhecia o Rio Grande do Sul como turista, com meus pais, lendo autores da terra, vendo filmes e ouvindo alguns artistas gaúchos. Já com o Pato Fu, ou em minha carreira musical solo ou literária, fiz muitos amigos. É um lugar onde não me faltam motivos para estar de volta, celebrando a amizade ou o trabalho.
- Como avalias o grande mundo, neste início de 2026, com tantos conflitos e tanta tensão? Como se resguardar, em termos psicológicos, e de segurança mesmo, em um cenário assim? Para onde caminhamos?
Há pessoas no mundo que vivem sua vida inteira nesse estado de incerteza, insegurança e desesperança. O que fica evidente é que, ao invés de os povos se ajudarem para uma vida comum em mais equilíbrio, a pior parte da humanidade está contaminando tudo. Mais violência, mais fome, mais concentração de renda, mais intolerância e preconceito de todo tipo.
Busco abrigo na arte, em todas as suas expressões. E tento manter meus princípios de ser parte responsável em minha comunidade. Fazer aquele trabalho de construir aos poucos, mesmo que derrubem nossa parede. Só não podemos nos omitir e ter atitudes egoístas. Estender a mão, saber ouvir, elaborar o pensamento antes de falar ou teclar…
- Por fim, quais os projetos em curso, ou que pretendes colocar em prática, seja na música, na literatura ou em outras áreas?
Estou gravando um novo álbum solo neste momento e dando prosseguimento à turnê de 30 anos do disco Gol de Quem? com o Pato Fu, que terá o lançamento em vinil duplo ao vivo com participações de Tom Zé, Zélia Duncan, Bnegão e Coral. Tenho feito várias apresentações solo e cantado com vários outros artistas. Atualmente, também sou diretora secretária-geral da União Brasileira de Compositores (UBC).
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