O segundo domingo de maio é marcado, anualmente, pelo Dia das Mães, data que extrapola o calendário, pois elas são presenças marcantes diariamente, por toda a vida. São feitas da emoção da chegada, das descobertas infinitas, da vibração das conquistas, da preocupação constante, do ensinamento e do aprendizado mútuo, mas, especialmente, da paciência que se constrói ao longo da espera, seja ela da forma que for, no contexto em que estiver.
E é a esperança que sustenta a espera, o que fortalece os dias, o que faz sonhar e também agir. Mães são uma forma de esperança – não poderia ser diferente disso: elas acreditam, investem, instigam seus filhos a trilharem seus caminhos, ao mesmo tempo em que, do outro lado, são vistas como a certeza de um amor que se faz presente, independente do espaço e do tempo que habitam, pois nunca deixam de ser o amor que acolhe e aquele que permanece e ecoa pela eternidade.
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Falar sobre mães é invadir um universo múltiplo, de quem já desempenha tantas outras funções, mas escolhe assumir um papel que reúne em si muitos outros. É também se emocionar ao lembrar da sua própria história de vida e daquelas que são referências para cada um de nós neste sentido.
Nesta semana, para marcar a data, registramos fragmentos da história da mãe do Gabriel, Anice, que sustentada pela esperança e a fé, ao longo da sua espera para realizar este grande sonho da vida, encontrou nos pequenos olhos do filho a sua realização e um amor incondicional.

Essa história é recheada de amor e esperança. A professora da Educação Infantil e também agricultora, Anice Jaciara dos Santos, de 39 anos, vivencia, neste domingo, o seu primeiro Dia das Mães com o filho no colo. A emoção é inédita, o que motiva sorrisos de orelha a orelha. Celebrar a data com o filho de quase seis meses, sentindo nos braços aquilo que durante muitos anos foi sonho e oração compartilhada com o companheiro de vida, Samuel Felício Wendler, agricultor e músico, 40 anos, é motivo de muita gratidão e felicidade.
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Antes mesmo da chegada do bebê, o casal já cultivava e realizava sonhos. Juntos há mais de 20 anos, desde o início da vida em comum planejavam ter a casa própria e ampliar a família. Vivendo em Linha Ocidental, no interior de Arroio do Tigre, partilham os dias na agricultura, dividem o trabalho entre a propriedade, a escola e a música, também as tarefas e os desafios da rotina, assim como os planos futuros. O desejo de se tornarem pais sempre esteve presente, alimentado pela fé de que a vida reservaria essa bênção. “Sempre pensávamos: vamos ter nossa casinha, morar juntos e ter nosso filho. Nossos planos sempre foram esses, só fomos tendo que adiar um pouquinho”, revela Anice.
No Dia das Mães de 2025, ela já carregava no ventre o motivo de tanta oração e persistência. Foi uma celebração especial, marcada pela expectativa do encontro, já na metade do caminho, e a imaginação de como seria o rostinho do bebê. Em 2026, neste primeiro Dia das Mães com Gabriel atento aos movimentos dos pais, a emoção ganha novos contornos com cada descoberta diária, cada sorriso e nova expressão e o sentimento de vivenciar o que por anos imaginaram.

A caminhada até aqui, porém, exigiu a espera, assim como determinação e esperança. Após anos de tentativas para engravidar, o casal iniciou um processo de consultas, exames e investigações médicas, de ambos. Dados os encaminhamentos iniciais, foram direcionados para atendimento especializado em reprodução assistida na capital gaúcha, assunto sobre o qual pouco haviam ouvido falar, mas que, aos poucos, se tornou parte do cotidiano. Da rede básica de saúde no município de origem até a concretização do sonho, tudo foi encaminhado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com profissionais e atendimentos aos quais o casal agradece.
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Anice e Samuel contam que uma série de consultas e exames fizeram parte da rotina durante os anos anteriores, e que, ao longo do percurso, optaram também por alguns feitos de forma particular. Em alguns momentos chegaram a ouvir que a gestação não seria possível, “só por um milagre”, lembra Samuel.
Posteriormente, encaminhados ao serviço de tratamento em reprodução assistida junto ao Hospital Fêmina, em Porto Alegre, a primeira consulta ocorreu no fim de 2023. Com viagens recorrentes a Porto Alegre, após um ano de consultas e exames, marcado pelo acompanhamento em todas as etapas que envolvem o processo, com protocolos específicos para ambos, além da espera na fila, permaneceram na expectativa pela chamada para dar início ao processo de reprodução assistida por meio da fertilização in vitro (FIV). “É um assunto que, ainda hoje, o pessoal fica bastante retraído para falar que está tentando ter filhos e que não está conseguindo. E depois que tu conversas com algumas pessoas e vai atrás, tu vês que é uma coisa bem mais comum hoje do que a gente imagina”, menciona Samuel. Anice acrescenta que buscam partilhar com outras pessoas sobre a importância de agilizar a procura por suporte profissional.
Quando receberam a notícia, no início de 2025, de que seriam os próximos atendidos para a fertilização, a alegria se misturou com a visão do futuro, de saber se tudo correria bem e como se sairiam como pais. Em meio às dúvidas naturais que surgem ao longo de uma jornada como essa, encontraram apoio profissional, acolhimento e força na fé para seguir acreditando. Mesmo com baixa reserva ovariana e taxa de sucesso que não se apresentava tão favorável, Anice seguiu o tratamento, passando pela estimulação ovariana com uso de medicação – única etapa paga do processo, e revela que, já no primeiro ciclo e transferência, o procedimento foi bem-sucedido. “Eu sempre fui com a ideia de que tinha 50% de chance de dar certo e 50% de não dar. Eles trabalham toda a parte psicológica, de preparação para estes momentos. Eu acreditei muito que daria certo, mesmo com os desafios que se apresentavam.”
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A gestação, ao longo de 2025, transcorreu de forma tranquila, sem intercorrências. Em 11 de novembro, no hospital em Candelária, nasceu Gabriel, que ganhou nome de arcanjo, cujo significado remete a ser um “homem de Deus” ou “mensageiro de Deus”. Tão esperado, trouxe felicidade não apenas aos pais, mas a toda a família, que acompanhou de perto cada etapa dessa história e segue acompanhando seu desenvolvimento. “É uma sensação difícil de descrever quando tu vês o bebê, pois tantas coisas a gente imaginava… como vai ser pegar a primeira vez, amamentar. É muita emoção e alegria”, afirma Anice.
Entre os momentos mais marcantes desta jornada de tornar-se mãe, ela destaca a descoberta da gestação, poucos dias após o procedimento de transferência embrionária; a emoção ao saber que esperavam um menino durante a realização de um exame no hospital; o choro ao nascer; a chegada em casa com o recém-nascido e as experiências intensas dos primeiros dias como pais de primeira viagem, o que eles têm tirado de letra com a parceria entre os dois – ou melhor, os três, afinal, Gabriel já é um parceirinho dos pais. Samuel lembra também as encenações de Natal das quais o bebê participou no fim do ano. Cada expressão, cada sorriso e cada pequeno movimento são celebrados. “É uma alegria todo dia com ele”, afirma a mãe.

Anice ressalta ainda que, um dos instantes mais emocionantes nesta trajetória, ocorreu no retorno ao hospital onde realizaram o tratamento, com Gabriel aos quatro meses de vida. No corredor, diante do mural com fotografias de bebês, o qual tantas vezes ela observou imaginando se um dia veria o rosto do próprio filho naquele espaço, não conteve a emoção. “É uma sensação indescritível.”
Em postagem em sua rede social, no último mês de fevereiro, Anice escreveu: “Exatamente um ano atrás estávamos em Porto Alegre, buscando o nosso sonho. Os sentimentos eram muitos e se misturavam com uma alegria que não cabia em nossos corações, mas o momento nos pedia calma, silêncio e muita, muita oração, pois ainda precisava dar tudo certo e deu. Hoje, com nosso Gabriel conosco, podemos ter a certeza que Deus nunca nos abandonou e que Nossa Senhora esteve sempre segurando nossas mãos, mesmo nos dias que as viagens a Porto Alegre não nos davam as respostas que precisávamos. Hoje sempre será lembrado como o dia que nossas vidas mudaram e que nossa família ficou mais completa, mais alegre e mais cheia de vida. Somos imensamente gratos a todos que sempre torceram e rezaram por nós, e sim, Deus é bom o tempo todo, precisamos apenas entender o tempo dele”.
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A escrita, assim como os depoimentos de Anice e Samuel, busca dar visibilidade a uma realidade vivida silenciosamente por muitos casais e mulheres, que enfrentam dificuldades para engravidar. Com os avanços da medicina reprodutiva e o acesso ao acompanhamento especializado, muitas pessoas encontram novas possibilidades para realizar o sonho da maternidade e da paternidade.

Nesse caminho, cada trajetória é única, com desafios, limites e possibilidades diferentes. Relatos como este mostram a importância da busca por suporte profissional, da informação e do encaminhamento adequado, além da relevância de ações e políticas públicas de saúde capazes de ampliar o acesso às possibilidades de tratamento.
Nesta semana, e em todos os dias, a homenagem e o reconhecimento a todas as mulheres que vivem a maternidade das mais diversas formas. Às mães de sangue, de coração, dos laços de afeto… às avós, tias, madrinhas que também assumem essas funções, sendo referência e proteção. Mães de diferentes épocas, que vivenciam o mesmo mundo sob o olhar e o aprendizado de múltiplas gerações, que celebram, que superam desafios, por vezes em silêncio, que cuidam, acolhem e esperam que a vida se encarregue de oportunizar aos filhos a melhor direção.
Busca pela maternidade
Por trás de relatos como esse, há o acompanhamento de profissionais que vivenciam de perto essas jornadas. A médica Andrea Nácul, especialista em Reprodução Humana e coordenadora da Unidade de Reprodução Humana do Hospital Fêmina – GHC, em Porto Alegre, explica que procedimentos como a fertilização in vitro (FIV) tem permitido que cada vez mais mulheres realizem o sonho da maternidade, mesmo diante de desafios.
Com sua primeira especialização na área da Obstetrícia e Ginecologia, há 25 anos Andrea acompanha em seu cotidiano dezenas de pacientes em busca de um objetivo comum, mas que apesar de partilharem o mesmo desejo, por vezes divergem nos diagnósticos que levam à infertilidade.

Atualmente, seu trabalho se concentra no atendimento a casais que não estão conseguindo a gestação naturalmente, trabalhando inicialmente com o processo de investigação das possíveis causas de infertilidade. Segundo a médica, as mais comuns são a ovulatória, a tubária – como alguma obstrução ou alteração nas trompas uterinas -, e as causas masculinas, associadas ao parceiro.
Com a investigação feita, identifica-se o melhor tratamento. “Tem tratamentos que podem ser a própria cirurgia para correção das trompas, mas outros tratamentos disponíveis são a indução da ovulação para as mulheres que não ovulam; a fertilização in vitro (FIV), quando as trompas estão obstruídas ou se a paciente perdeu alguma trompa por ter tido uma gestação tubária anteriormente. A endometriose é uma outra indicação que muitas vezes acaba na FIV, por distorção de toda a anatomia da pelve por essa doença; e ainda as causas masculinas, que são também bastante prevalentes – em torno de 35% a 40% são associadas ao parceiro, como a baixa contagem ou ausência dos espermatozoides ou mesmo pacientes que fizeram a vasectomia e se arrependeram. Em casos em que a paciente tem uma idade um pouquinho mais avançada, acima dos 35 anos, a FIV também acaba sendo uma ótima opção”, explica Andrea.
A especialista esclarece que a FIV é uma das técnicas de reprodução assistida de alta complexidade, onde a fecundação do óvulo pelo espermatozoide ocorre em laboratório, com a posterior implantação do embrião na cavidade uterina.
A médica também faz alguns ponderamentos, uma vez que cada caso é um caso e os diagnósticos e tratamentos são pensados para cada paciente ou casal, a partir de um vasto processo de investigação clínica. Neste sentido, a doutora faz menção à estimativa das taxas de sucesso para reprodução assistida que podem chegar próximo de 40% para mulheres com menos de 35 anos e diminuem progressivamente com o aumento da idade, o que ocorre também de forma natural. A idade da mulher é o fator mais determinante para o sucesso da fertilização in vitro (FIV). “Se a mulher tem 35 anos e o casal já está tentando engravidar a mais de seis meses, sem nenhum método contraceptivo, já tem que começar a investigação, nem espera um ano. Claro, se for mais jovem, pode esperar até um ano. E outra situação, se a paciente sabe que não está ovulando, não precisa esperar um ano de tentativas, já deve consultar e começar o tratamento. O ideal é encaminhar antes, para chegar mais cedo a um tratamento”, acrescenta.
O Hospital Fêmina – GHC possui um serviço para tratamentos de reprodução assistida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com encaminhamento exclusivamente feito pela rede básica de saúde, atendendo a todo o Rio Grande do Sul. A idade limite da paciente é de 37 anos, 11 meses e 29 dias. A ginecologista esclarece que, mesmo que o problema seja masculino, o encaminhamento é feito através da mulher, por isso a importância da consulta com profissional na rede básica do município de referência, podendo, inclusive, já realizar os exames iniciais de investigação.
A partir deste encaminhamento, devido à demanda, Dra. Andrea pontua que se ingressa em uma fila, cuja média de espera é de aproximadamente um ano até a consulta. “Depois de ter feito toda a investigação, a paciente é direcionada para algum tratamento, que pode ser de baixa complexidade, para os quais não se tem fila, ou para os de alta complexidade, com fila média de um ano”. Somente o Hospital Fêmina e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre possuem o serviço de FIV através do SUS no estado.
Ao mencionar o tratamento viabilizado por intermédio do SUS, a especialista aborda outro dado, o do aumento da infertilidade no mundo: “Hoje em dia, pela OMS (Organização Mundial da Saúde), um em cada seis casais vão enfrentar o problema da infertilidade, então ela é bastante prevalente. Enfrentar a infertilidade está associada a muitos problemas de saúde, como ansiedade e depressão, então deve ser encarada com seriedade. É importante tratar, acolher essas pacientes, esses casais. Eu considero vital em oferecer os tratamentos de infertilidade”, salienta a profissional sobre a importância do acesso via SUS.
Outro procedimento oferecido é o congelamento de óvulos, para preservar a fertilidade no futuro, que, neste caso, está disponível em redes particulares, ou ainda, no exemplo do Hospital Fêmina, onde, por meio do SUS, pacientes com diagnósticos de cânceres ginecológicos podem ter essa possibilidade, antes de iniciarem tratamentos como a quimioterapia e a radioterapia.
A especialista menciona ainda que os tratamentos de reprodução assistida e o congelamento de óvulos ganharam ainda mais visibilidade com a ampliação do acesso à informação e a disseminação dos mesmos por parte de mulheres como atrizes. “O que acredito que deva ainda ser mais divulgado é a questão da idade da mulher e o impacto do avanço da idade na diminuição da quantidade e da qualidade dos óvulos, porque nós nascemos com um número determinado e, ao longo da vida, vão sendo perdidos. Com os homens e os espermatozoides é diferente, por isso que a fertilidade do homem vai muito além, não que não caia a qualidade também, mas muito menos radical do que com a mulher. É muito importante saber que nossa fertilidade tem um limite, que as taxas de sucesso, tanto da gestação natural, quanto através dos tratamentos de reprodução assistida, vão caindo com o avanço da idade, então que não esperem muito tempo para procurar ajuda se as coisas não estão acontecendo”, ressalta.

Ao planejar uma gestação, a médica enfatiza a importância da adoção de hábitos saudáveis pelo casal, como o emagrecimento no caso de se estar acima do peso; cessar o tabagismo e o consumo de álcool; evitar a ingestão de alimentos ultraprocessados; e realizar atividades físicas, cuidando da saúde de forma geral. Neste sentido, também reforça a importância do acompanhamento ginecológico de rotina, com a realização de exames, buscando sempre os encaminhamentos necessários com profissionais da área.
Para a médica é muito gratificante poder acompanhar a concretização dos sonhos de tantas mulheres e casais: “É um trabalho que eu amo, e me dá muita gratidão de poder auxiliar as mulheres a serem mães e aos casais a formarem uma família”. Um processo que vai além da técnica e envolve também aspectos emocionais importantes.
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