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LUTO

Padre Orlando Francisco Pretto será sepultado na manhã deste sábado em Linha Santa Cruz

Foto: Rodrigo Assmann

O Vale do Rio Pardo perdeu nessa sexta-feira uma de suas lideranças religiosas e comunitárias mais expressivas. O padre Orlando Francisco Pretto morreu aos 89 anos, no Hospital Santa Cruz. Ao confirmar o falecimento, a Diocese de Santa Cruz do Sul lembrou que sua trajetória confunde-se com a história da região.

Os ritos de despedida começaram ainda na sexta-feira, na Capela da Funerária Halmenschlager. Na manhã deste sábado, o corpo será transladado para a Catedral São João Batista, onde haverá nova etapa de velório das 8 às 10 horas, seguida pela Missa de Exéquias. O sepultamento ocorrerá logo após, no Cemitério da Casa Amparo Fraterno, em Linha Santa Cruz.

Nascido em 25 de julho de 1936, em Travesseiro (na época distrito de Arroio do Meio), Pretto teve uma das atuações mais longevas da região. Ele foi o pároco que mais tempo permaneceu de forma contínua à frente da Catedral São João Batista: 24 anos e meio (de 1988 a 2012). 

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Sua ligação com Santa Cruz, contudo, começou bem antes, em 1960. Quando ainda estudante de Teologia, foi designado para assessorar o primeiro bispo da recém-criada diocese, dom Alberto Frederico Etges.

Reconhecido pelo zelo pastoral, padre Orlando celebrou seu Jubileu de Ouro sacerdotal em 2012 e recebeu o título de Cidadão Santa-cruzense. Sob sua liderança espiritual e administrativa, a comunidade local viabilizou a emblemática obra de restauração da Catedral São João Batista, executada entre os anos de 1996 e 2005.

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Legado de liderança e preservação da memória

Para o arquiteto e professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unisc, Ronaldo Wink, o sacerdote teve papel fundamental na preservação da Catedral São João Batista e da memória histórica do município. “Ele nunca desistiu e conseguiu finalizar a restauração externa. Realmente uma façanha”, afirmou.

Wink também destacou a atuação do padre na viabilização de um livro sobre a história da Catedral e da antiga matriz. Conforme o arquiteto, Pretto abriu portas, buscou apoio e liderou a comissão responsável pelo projeto, que resultou na publicação. 

A obra passou a integrar o acervo das bibliotecas do Vaticano e do Congresso Americano, em Washington, além de ter sido enviada a instituições de referência de todos os estados brasileiros.  “Foi uma pessoa muito importante para a comunidade local, tanto católica quanto em geral, pela sua tenacidade e entusiasmo”, ressaltou.

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O jornalista Romeu Inácio Neumann, ex-diretor de Conteúdo da Gazeta Grupo de Comunicações, relembra o religioso como uma figura marcada pela humildade e respeito ao próximo. Os dois se conheceram na década de 1970, quando Neumann foi para Rio Pardo e passou a conviver com o então vigário da Paróquia Nossa Senhora do Rosário.  “Bastaram alguns dias de convivência para perceber que ele era uma pessoa diferenciada, iluminada pela cultura, pela visão de mundo e pelo respeito que tinha pelas pessoas”, afirmou.

Segundo Neumann, o principal ensinamento do padre foi a valorização das diferenças e a simplicidade. “Ele sempre quis estar identificado com as pessoas com quem convivia.” O jornalista também salientou a importância do sacerdote para Santa Cruz do Sul, especialmente na mobilização comunitária em torno da restauração da Catedral.  “Santa Cruz lhe deve muito, pela confiança que transmitia e pela capacidade de unir as pessoas.”

A relação entre os dois ultrapassou a convivência profissional e comunitária. Padre Orlando celebrou o casamento de Neumann e batizou os três filhos do jornalista.  “Convivemos intensamente até o fim. Sinto imensamente a perda deste padre e de um amigo”, afirmou.

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Da motoneta ao gosto pelo jornalismo

 A trajetória de padre Orlando Pretto ficou marcada por um estilo de evangelização que desafiava o conservadorismo da Igreja Católica na década de 1960. Foi filho de Pedro e Domingas Moschini Pretto, de família de 12 irmãos, dos quais não chegou a conhecer dois. Os pais eram proprietários de um moinho e se dedicavam ao comércio na região e no Estado. 

Chegou a ganhar um carro zero-quilômetro dos pais ao assumir a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Bairro Bom Jesus – uma zona carente na época. Incomodado com o contraste social, vendeu o automóvel contra a vontade do bispo, mudou-se para o bairro e comprou uma motoneta Vespa. Era em cima dela, e nos encontros noturnos com jovens no Quiosque da Praça, que o padre atendia a confissões e atraía a juventude para a igreja.

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Sua inserção na vida comunitária local ia muito além do altar. Pretto era um homem das letras e da comunicação. Graduado em Viamão, conviveu com grandes intelectuais e foi amigo próximo do renomado escritor João Mohana. O religioso estendeu sua atuação para os meios de comunicação, tendo atuado como repórter e comentarista esportivo da própria Gazeta do Sul

Pouco antes de sua ordenação, em 1962, chegou a ser convidado por partidos políticos para concorrer a deputado estadual, proposta que recusou prontamente para seguir a vocação que sentia desde os 6 anos de idade.

Sua atuação regional também incluiu a Paróquia São Nicolau e a Matriz Nossa Senhora do Rosário, em Rio Pardo, onde permaneceu por mais de 21 anos, a partir de 1966. Na época, era um dos raríssimos padres da diocese que sabiam dirigir, cruzando estradas de chão batido por até 54 quilômetros para atender capelas isoladas e preparar as visitas do bispado.

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Paixão pelo esporte

O esporte foi outra marca na vida do sacerdote. Ponta-direita velocista e de chute forte nos tempos de seminário, padre Orlando manteve uma ligação estreita com o Esporte Clube Avenida. Durante quatro anos, frequentou os treinos físicos no Estádio dos Eucaliptos logo após dar aulas no Senai e na Escola Santa Cruz. A proximidade com o técnico Daltro Menezes era tamanha que o comandante planejou escalá-lo formalmente para jogar os dez minutos finais de um amistoso festivo contra o Internacional, em abril de 1964. O plano só não se concretizou porque um problema de saúde na família forçou o padre a viajar para Travesseiro no dia do jogo, fazendo com que voltasse a Santa Cruz quando faltavam só 15 minutos para o apito final.

Pretto também transitava no basquete. Cultivou forte amizade com o técnico Ary Vidal na era de ouro da Pitt/Corinthians. Fiel ao seu estilo ecumênico e bem-humorado, dividia as atenções esportivas da cidade com o colega cônego Arno Klein, pároco da Catedral que, por sua vez, torcia pelo arquirrival F.C. Santa Cruz.

Inspiração para bispo

O bispo emérito dom Gílio Felício destacou padre Orlando como uma de suas grandes inspirações. Em depoimento emocionado, relembrou a convivência com o religioso ainda na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no Bairro Bom Jesus, onde padre Orlando atuava com proximidade junto à comunidade.  “Ele tinha a capacidade, a arte de viver o Evangelho e a liturgia, mas também de ser um homem de grande importância na sociedade”, afirmou.

Dom Gílio contou que, ainda jovem, procurou padre Orlando para falar sobre o desejo de se tornar sacerdote.  “Perguntei a ele: ‘Padre Orlando, será que um preto pode ser padre?’ E ele deu uma baita risada e respondeu: ‘Claro, Gílio. Eu também sou preto’”, relembrou. Segundo o bispo, a simplicidade e o acolhimento do religioso foram decisivos para afastar inseguranças e fortalecer sua vocação religiosa.

“O testemunho, a alegria e o jeito dele ser entusiasmaram meu coração para o sacerdócio.” Dom Gílio também ressaltou a capacidade de Orlando em se comunicar com diferentes públicos. “Ele sabia falar ao povo, às crianças, aos jovens, aos idosos, tanto no interior quanto na cidade. Levava às pessoas a força da fé, da esperança e do amor”, observou.

O bispo emérito disse acreditar que padre Orlando “está na alegria do céu”, lembrando o legado deixado pelo religioso.

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