O cultivo da noz-pecã (ou noz pecan) começou quase como um passatempo para a família Lisboa, de Sobradinho. Há cerca de 20 anos, ao se aposentar e adquirir uma chácara, pensada inicialmente como espaço de lazer e encontro para a família, Ivonildo Lisboa, 73 anos, ouviu falar sobre o potencial da cultura e decidiu apostar na ideia. Foram implantadas aproximadamente 200 mudas de nogueira-pecã na propriedade em Linha Central. “Surgiu em um momento até pensando no futuro dos filhos. Eu sabia que não seria para pouco tempo, era um projeto a longo prazo”, recorda o sobradinhense.
Os primeiros frutos começaram a surgir alguns anos depois, mas a produção passou a ganhar expressão há menos de 10 anos. A primeira safra comercial ocorreu em 2021, com em torno de 1,5 mil quilos colhidos. Desde então, os desafios climáticos marcaram o desenvolvimento da atividade, especialmente diante dos eventos extremos registrados no estado, como estiagens e excesso de chuvas, que impactaram também a produção agrícola, incluindo a noz-pecã.


Já 2026 se mostra um ano promissor para a cultura. O Rio Grande do Sul, responsável por mais de 90% da produção brasileira, projeta uma safra histórica, podendo alcançar entre 7 mil e 8 mil toneladas. Na propriedade da família Lisboa, a expectativa também é de que esta seja a melhor safra. Se em 2025 foram colhidos cerca de 300 quilos, para este ano a estimativa é chegar a três mil quilos, em uma área de aproximadamente 1,5 hectare e com cerca de 150 árvores em produção. “Esse ano vai ser uma produção cheia. Uma qualidade excepcional. Essa vai ser a melhor safra, com certeza”, salienta o produtor.
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A média produtiva, segundo Ivonildo, varia entre 25 e 30 quilos por pé, podendo chegar a até 50 quilos em algumas nogueiras. O pomar reúne diferentes variedades, desde nozes menores e mais precoces até frutos maiores e de maturação mais tardia. “Tem um ano que vai produzir bem, no outro pode produzir menos. O clima é um fator muito importante”, revela.


O produtor recorda que, no início, o conhecimento sobre o manejo ainda era limitado e, talvez, nem todas as mudas tenham sido implantadas nos locais mais adequados. Porém, com o passar dos anos, a observação no dia a dia e a busca por informações, foi possível compreender melhor as necessidades da cultura, desde o solo e a luminosidade até os cuidados com a poda, nutrição e manejo de forma geral do pomar.
Conforme ele, a colheita da noz-pecã na propriedade normalmente inicia entre meados de abril e o começo de maio, período em que os frutos começam a atingir a maturação e a se desprender naturalmente das árvores. O trabalho pode se estender até julho, dependendo das variedades cultivadas, das condições climáticas e também da disponibilidade de tempo da família para realizar a coleta, uma vez que a maior parte dos integrantes precisa conciliar a agenda de trabalho na cidade, em suas respectivas profissões, com a atividade extra em horários diferenciados.
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Desde que a produção ganhou uma escala possível de comercialização, entre 300 e 600 kg colhidos, a venda ocorre diretamente ao consumidor, tanto da noz descascada, o que tem conquistado grande parte dos clientes pela praticidade, quanto com casca. A filha de Ivonildo, Aline Lisboa, menciona que a noz produzida em Sobradinho também já chegou a lares em outras regiões e estados, levando consigo o nome “Lisboa & Filhos – Noz Pecan”. Além do consumo in natura, de acordo com ela, os clientes também procuram a noz para ser utilizada em receitas de confeitaria. Já a casca, segundo Ivonildo, também pode ter aproveitamento, inclusive no preparo de chás e em usos artesanais.

O que começou de uma forma singela, se transformou em mais uma forma de reunir a família, que sempre teve as raízes no tradicionalismo como um dos elos. Com a chegada dos netos Benício Mateus e Maria Júlia, dois novos pés de nogueira foram plantados no nascimento de cada criança, simbolizando o início da vida, as novas gerações e a renovação do próprio pomar, que se desenvolve junto com a família.
A filha do produtor destaca a alegria de participar da atividade e de já ver o pequeno Benício caminhando em meio às árvores. “É para a família. Tomara que eles gostem também, pois a gente gosta muito de estar aqui”, comenta Aline. O marido dela, Anderson Mateus da Silva, que atua na área de assistência técnica e extensão rural, também passou a contribuir com orientações relacionadas ao manejo, buscando melhorias no cultivo. De acordo com Ivonildo, a produção é conduzida de forma natural e o cultivo é um projeto a longo prazo.


Mesmo com rotinas profissionais em outras áreas, tanto Aline quanto o irmão Alan e família, assim como a mãe deles, dona Dalma, fazem questão de participar dos trabalhos sempre que possível. Professora, Dalma se tornou incentivadora da atividade, estendendo a parceria e companhia com o marido Ivonildo também junto ao pomar, e costuma testar receitas utilizando a noz-pecã produzida na propriedade, revelando que gosta muito desse envolvimento.
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Hoje, além da colheita manual, Dalma e Aline explicam que a família conta com uma máquina que auxilia no processo de descascamento das nozes, mas ainda amadurecem os planos para novos investimentos, seja para auxiliar na colheita, bem como na forma de comercialização, agregando valor ao produto final. “Hoje a noz-pecã é viável, é rentável”, acrescenta Ivonildo.


Para os Lisboa, o cultivo da noz-pecã vai além do valor como produção, é reforço na ideia de unidade familiar. Seu Ivonildo, apesar de ter crescido no meio rural, mas dedicado grande parte da vida ao trabalho na cidade, ressalta que as nogueiras e as atividades de forma geral na propriedade fortalecem seu laço afetivo com o campo. Para além dos frutos e de ser uma alternativa de renda, as árvores plantadas há duas décadas proporcionam momentos especiais em família, um legado que exige tempo e dedicação, mas que permanece enraizado, como a própria nogueira.

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