A passagem do tempo inevitavelmente traz limitações físicas, como dificuldades de visão, e a companhia constante de telas (celulares, notebooks, smartvs) tem feito com que esses problemas comecem cada vez mais cedo. Estudos já apontaram o aumento de doenças oculares entre gente com menos de 40 anos. Parece uma tendência difícil de ser revertida.
Míopes já estamos quase todos, então vamos torcer para não cairmos de vez na cegueira. De forma metafórica, isso já acontece em outras questões. Pessoalmente, se a escuridão (ou claridade excessiva, que dá no mesmo) se adensar até o ponto sem retorno, espero ter a capacidade de autodomínio de Jorge Luis Borges. Esse escritor argentino ficou totalmente cego aos 55 anos, por razões hereditárias, segundo dizem.
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Mas Borges continuou fazendo o que sabia como poucos: escrever. Ele ditava seus textos para familiares e amigos, e assim produziu mais 40 livros aproximadamente, até falecer com mais de 80 anos. Vários escritos desse período, em prosa e poesia, alinham-se entre suas melhores criações.
Ele não se deixou intimidar; continuou a descrever os mundos de sua imaginação. O que evoca de certo modo a atitude do Cego Estrelinho, personagem de um conto do moçambicano Mia Couto. Estrelinho vivia sob a atenção cuidadosa de um guia que lhe falava do cotidiano como espaço maravilhoso, repleto de cores e paisagens deslumbrantes. Era mentira, mas do tipo que não fazia mal a ninguém.
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Um dia, no entanto, estoura a guerra. Sem muito sentido nem grandes explicações, como todas as guerras. O guia é convocado para lutar, sem direito a um “não” como resposta, e o cego fica por conta. Ele até conhece outra pessoa que serve como seus “olhos”, mas a realidade que esta lhe descreve é fria e cinzenta, de um mundo que ele já não faz questão de ver.
Até que, cansado de sentir o peso da desesperança em torno, o cego decide ele mesmo apontar caminhos. Estrelinho passa a “miraginar” (segundo Mia Couto) outros cenários e territórios, e se torna presença reconfortante para os que dele se aproximam. Tal como Borges, passa a entender que a saída é enfrentar e dominar a situação, por mais adversa que seja.
Antes isso do que terminar como o cego à beira do precipício na derradeira cena de Ran (ou “Caos”), filme de Akira Kurosawa. Em um lugar arrasado pela guerra (outra vez), o homem sonda o terreno sem notar o abismo centímetros adiante. Dá um passo em falso e se reequilibra a tempo, mas deixa cair o livro que levava – um texto sagrado do Buda que, mesmo sem enxergar, servia-lhe como proteção espiritual.
Se a luz vier a faltar, que não faltem autodomínio e coragem em meio ao caos.
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