Em 3 de maio de 1626, os padres jesuítas Roque González e Miguel de Ampuero fundaram a Redução de São Nicolau, próximo do Rio Piratini. Foi a primeira das 18 reduções que compunham o chamado Primeiro Ciclo Missioneiro, implantado em época na qual limites entre os reinos de Portugal e de Espanha ainda eram confusos no Sul da América, a ponto de, em virtude do Tratado de Tordesilhas, de 1494, o atual Rio Grande do Sul fazer parte das possessões espanholas no continente.
No dia 3 de maio deste ano, portanto, celebraram-se 400 anos desde o início das missões jesuíticas na América. Na data ocorreu o lançamento de livro que busca resgatar o legado do projeto jesuítico junto aos índios Guarani. Os espíritos das Missões: a energia histórica viva, do historiador e professor José Roberto de Oliveira, em edição do autor, recupera aspectos da empreitada de evangelização e de organização social, cultural e econômica, que, em suas palavras, revolucionou para sempre a civilização.
Nessa entrevista com Oliveira, a Gazeta do Sul inaugura ampla série a ser desenvolvida ao longo dos próximos meses, a fim de resgatar a história das Missões. Natural de Santo Ângelo, onde reside, aos 67 anos, atua ainda na área do turismo, nos setores público e privado. Como professor, leciona disciplinas na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí).
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Professor José Roberto de Oliveira, autor do livro Os espíritos das Missões: a energia histórica viva
Entrevista com José Roberto de Oliveira — historiador, professor e escritor
Gazeta do Sul – O senhor marca a passagem dos 400 anos das missões jesuíticas com novo livro. Poucos territórios tiveram tamanha sucessão de acontecimentos como o Noroeste gaúcho e a região dos 30 povos, não é mesmo?
José R. de Oliveira – Desde 1989 venho pesquisando sobre a espiritualidade emanada nas Missões e analisando o que dizem dezenas de grupos diferentes sobre o tema. Utilizo a expressão “Espíritos das Missões” tanto no sentido de entendimento espiritual do que ocorre quando as pessoas dizem “sentir as energias presentes”, mas também como o sentido de traço que distingue algo ou alguém dos demais, característica e essência.
Realmente, o conjunto dos fatos históricos e reflexos culturais na formação do Estado é muito importante. Todavia, veja que não impactou somente o Noroeste do Rio Grande do Sul. Desde a primeira fase jesuítica-Guarani, ocorreu a ocupação de grande parte do território com aquelas 18 reduções iniciais. Lembrando que o padre introdutor do gado, por exemplo, foi morto onde hoje é o território de Caxias do Sul. Ocuparam inicialmente os vales dos rios Ijuí, Jacuí e Ibicuí.
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Imperdível que, ao tocar nessa história, estaremos tangendo a presença humana de mais de 10 mil anos em qualquer lugar do que chamamos de Mundo Gaúcho. Inicialmente com os indígenas do Paleolítico e depois os do Neolítico, há 2.500 anos.
O senhor aponta para a questão “espiritual”, que remete também à expressão “conquista espiritual”, de Montoya. Por que essa questão é tão atual?
Veja que a espiritualidade está ligada à formação humana desde sempre. Sei que hodiernamente não pensamos que gente do Paleolítico e do Neolítico tinha sua espiritualidade, mas sabemos perfeitamente que sim. Então, quando da chegada dos Jesuítas no território, os Guaranis tinham seus líderes espirituais, os pajés, com muito poder frente àquelas nações indígenas. Eles decidiam ir às guerras ou mesmo em grandes transferências de lugares.
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Com a chegada dos jesuítas, ocorre o que Montoya chamou de “Conquista Espiritual”. Todavia, é importante compreender que desde o início das reduções até efetivamente se tornarem cristãos levou muito tempo. Há quem pense que alguns não foram conquistados, mesmo dentro do sistema reducional.
Na primeira fase, desde a primeira redução do lado rio-grandense, que é 3 de maio de 1626, com São Nicolau, até as últimas fundações da primeira fase, em 1634 (São Cristóvão, São Joaquim e Santa Tereza), eram indígenas completamente do Neolítico. Imagine o leitor a dificuldade de dar os passos iniciais para o mundo cristão. Sair do pajeísmo e entrar no cristianismo deve ter sido trabalho dos mais difíceis. Então, é preciso pensar que novas gerações iam nascendo a cada 15 anos, e estes foram aos poucos ficando “gente de igreja”, e com muita dificuldade.
Em 1768, na expulsão dos jesuítas, ou mesmo um pouco antes, os documentos em Guarani relatam que já estavam bastante cristianizados. Porém, esses povos mantiveram sempre o seu jeito de lidar com a espiritualidade, como ainda podemos ver hoje nos descendentes, especialmente nos moradores de bairros e vilas, onde os rostos ainda estão tão presentes nos 497 municípios gaúchos, uns mais, outros menos, mas nos pobres, muito. Os indígenas atualmente aldeados, estes nunca foram cristãos; continuaram nas selvas até pouco tempo atrás.
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O senhor menciona que a figura consagrada do gaúcho, como a conhecemos, descende da figura dos Guaranis. De que maneiras esse legado segue presente?
Na obviedade dos traços, no jeito de agir, e em todos os lugares do Rio Grande do Sul formando a base genética e cultural do gaúcho inicial e atual. Há uma variedade de estudos que mostram a figura nativa na construção do tipo humano tradicional.
O protogaúcho era o peão das estâncias missioneiras. Depois da expulsão dos jesuítas, uma série de documentos mostra a entrada no mundo português – luso-brasileiro –, a mão de obra inicial que trabalhou nas fazendas e nas estâncias.
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É certo também que não só os Guaranis, mas também Charruas, Minuanos, Guenoas, Kaingangues e tantas outras nações indígenas, aos poucos foram bases do cadinho cultural que nos fez.
A maioria dos homens que ganhavam terras no período do Império na amplitude do Estado vinham solteiros de São Paulo, especialmente. Casavam-se com as filhas dos caciques em um modelo antropológico que se chamava cunhadaço, também chamado de cunhadismo, o que era importante para os chefes nativos, e também para a segurança do “novo dono da terra”.
Por que a sociedade atual tem tanta dificuldade em reconhecer a grandeza do que foi o projeto missioneiro? Que principais vantagens haveria em salientar isso?
Veja que com o Tratado de Tordesilhas, de 1494, todo o Estado ficou pertencente à Espanha. Todo o projeto jesuítico-Guarani foi de liderança hispânica. Estou escrevendo em português, e foi quem por último ganhou o território. Ganhadores firmam a história. Após séculos, contamos as verdades espanholas do território, apesar de ainda ter quem não goste de ouvir tais obviedades.
As Missões foram mundialmente exaltadas pelos maiores autores mundiais, como Voltaire, que as chamou de “Triunfo da Humanidade”; Montesquieu, que chamou de “Primeiro Estado Industrial da América”; e Muratóri, principal filósofo italiano dos 1700, disse que “as Missões foram o melhor que o cristianismo produziu na humanidade”. Dezenas dos maiores filósofos escreveram sobre as Missões; todavia, naturalmente não servia mostrar a história de vertente de Espanha em um mundo de Portugal, daí vencedor.
As vantagens de tomar consciência e salientar mundialmente esses fatos está em demonstrar para nós mesmos que podemos dar grandes saltos de desenvolvimento quando o modelo de educação é priorizado. Modelo de letras, números, sim, mas muito mais qualificação da mão de obra dos excluídos, e que, através do método, podem dar um grande salto. Foram escultores, fundidores, músicos… Em cada redução havia entre 40 e 50 indústrias e oficinas, como nas melhores cidades da Europa.
Como o senhor cita, em um aspecto pitoresco, até mesmo o futebol foi inventado nas reduções, pode-se dizer assim?
Veja que o jogo de bola era brincadeira natural dos Guaranis e, nos dias de folga, com bolas produzidas de látex da goma de árvores por eles mesmos, jogavam na praça central das reduções, como é descrito pelos jesuítas, com o pé e com a cabeça. Havia muitas brincadeiras; porém, é preciso compreender a dificuldade que temos hoje em compreender um mundo feliz em que viviam.
Muitos que veem os Guaranis de hoje pensam nestes de aldeia que são os mesmos daqueles dos anos finais das reduções, esquecendo que milhares continuaram em estado nativo e não quiseram se cristianizar, e hoje são os Guaranis aldeados que temos em vários municípios gaúchos.
Reduções eram um projeto cooperativo, precursor do modelo cooperativista?
Veja, a base do pensar Guarani é a cooperação. Não há individualismo ainda hoje nas aldeias onde vivem nos diversos lugares da América do Sul. Tanto no passado como agora, agiam e agem em associativismo. Se um indígena sai para pescar e pega muitos peixes, imediatamente divide entre os seus vizinhos. É o modo como sempre viveram.
Este modelo era o ensinado no Evangelho estudado “em Guarani” nas reduções: fraternidade, amor ao próximo, caridade, união. Palavras que no modo Guarani de agir e de viver não são somente palavras, mas seu “Nhande Reko”, modo de ser e de estar.
Hoje, em congressos mundiais, tenho multiplicado a ideia de que o Cooperativismo iniciou-se nas Missões em 1626 e não em Rochdale, Inglaterra, em 1844, pois o próprio documento fundacional inglês diz: “Estamos fazendo do mesmo modelo que os indígenas da América”.
Houve a posterior ida dos jesuítas para a Rússia, no Leste europeu. Como o senhor aventa, poderiam eles ter inspirado por lá o futuro modelo do comunismo?
Na expulsão dos jesuítas, em 1768, uma boa parte foi para Prússia e Praga, antiga Rússia, e lá começaram a escrever sobre modelos comunais. Esses escritos acabaram nas mãos de escritores do Leste europeu e multiplicados entre o povo.
Quanto ao modelo de vida comunal do período jesuítico-Guarani, é sempre importante lembrar que estava baseado no modo de ser espiritual e material do povo nativo e nunca em uma obrigação de dividir o pão e os bens. O comunal Guarani está completamente ligado ao desapego material e ao modo fraternal como lidam com os seus necessitados.
Esse tema possivelmente ainda hoje é um dos grandes inimigos para que a sociedade em geral saiba da grandiosidade que o cristianismo produziu nas Missões. Como alguns escritores disseram, “viviam como no cristianismo primitivo”, lembrando como os primeiros cristãos viviam em Roma.
Sobre qual pilar hoje a região missioneira apoia o seu desenvolvimento?
O turismo e a cultura a cada dia aumentam sua visibilidade em termos de Região Missioneira e seu potencial gerador de emprego e renda. Ter um único Patrimônio Cultural Mundial no Sul do Brasil, três Patrimônios Culturais Nacionais, trabalhos arqueológicos diários em todas as cidades dos Sete Povos, muitas obras dos 400 anos das Missões, tudo isso mostra um novo tempo.
Contar processos históricos impacta a relação com o mercado estadual, nacional e internacional. Não devemos esquecer que há uma variedade de perfis consumidores relacionados com as Missões, como o turismo religioso, onde temos três santos da Igreja e seus milagres de cura de câncer. Há mercados de peregrinações a pé, as caminhadas e os produtos disponíveis vão de caminhadas de 30 dias, 15, oito ou quatro dias. Cada vez mais esse mercado cresce internacionalmente e dentro do País.
O turismo escolar já levou milhões de alunos à região, especialmente para conhecer São Miguel, mas também todo o potencial patrimonial cultural do território. Quando adultos, voltam. Nos últimos tempos, o turismo cinematográfico tem crescido e novas produções estão no foco. Há a presença de artistas, diretores e mais, com a multiplicação da imagem das Missões.
O senhor menciona o papel de um bispo identificado com Santa Cruz do Sul, dom Gilio Felício, no esforço para canonização de Sepé Tiaraju. Como isso se deu?
Dom Gílio foi uma figura fundamental na entrada no Vaticano do processo de canonização de Sepé Tiaraju. Foi ele quem levou a Roma os documentos produzidos na América Latina pedindo inicialmente que Sepé fosse considerado “Servo de Deus”, efetivamente o que aconteceu. Dessa maneira, a região e os lutadores pela causa da história devem muito a ele.
Lembro bem o dia em que falei com ele e se colocou à disposição para nos ajudar; e, assim que foi necessário, o fez. Seremos sempre gratos a ele por sua coragem e liderança, lembrando que muitos ainda hoje consideram que um descendente de indígena da América não pode ser considerado santo, o que é uma contradição total às ideias do cristianismo.
Por que é tão importante para a sociedade conhecer as diferentes fases do projeto missioneiro, tendo a primeira delas relação direta com a região de Santa Cruz?
Importante compreender inicialmente que em qualquer lugar de Santa Cruz e da região vive gente há mais de 10 mil anos. Naquela primeira fase, de 1626 em diante, as áreas próximas do Jacuí, no caso de vocês, estavam plenas de pessoas, indígenas já em uma fase adiantada do Neolítico.
Parte daquele povo entrou no cristianismo e deu os primeiros passos para depois serem as raízes do Mundo Gaúcho.
Atacados violentamente pelos bandeirantes, desapareceram algumas daquelas reduções. Milhares foram levados como escravos a São Paulo para trabalhar em lavouras. Sempre importante lembrar que os Guaranis eram agricultores e até hoje comemos o que era da sua agricultura, como milho e seus derivados, mandioca, batata-doce, amendoim…
Depois da expulsão da primeira fase, voltaram, e na segunda fase ocuparam toda a região de vocês em ambos os lados do Jacuí, como a Estância de São Luiz Gonzaga e Estância de São Lourenço, com gado e ervais. Compreender que o lugar onde nós pisamos hoje tem uma cultura multimilenar é fundamental para pensarmos por que nossos sobrenomes foram postos nesses espaços. O que ocorria na Alemanha, na Itália ou em outros países que fez com que meus familiares do passado viessem ocupar esses territórios.
Como o senhor avalia a consciência sobre a importância das Missões agora, quando se festejam os 400 anos desde o início?
Os 400 anos são uma data cheia, como podemos pensar a primeira entrada de um não indígena no território gaúcho. Insisto em que pensemos em 10 mil anos anteriores e imaginemos como viviam aí por onde é a casa de quem nos lê. Depois, é claro, pensarmos nos 400 anos e tantos fatos históricos em todo o território, desde o jesuítico-Guarani, depois a expulsão e a tomada mais tarde do hispânico para o luso e depois a divisão em colônias para onde vieram nossos parentes de antes.
Os 400 anos estão a nos mostrar que tivemos uma das mais belas histórias produzidas pelo cristianismo em termos mundiais.Isso é gigante. Mais: que temos muitos pedidos de perdão a serem feitos com relação àquela nossa gente do passado.
O senhor lidera iniciativas para fomentar o Caminho das Missões, como um roteiro de apelo nacional e internacional. Como tem sido o afluxo de público, e como surgiu?
O Caminho das Missões é um projeto de caminhadas que une no internacional os 30 Povos das Missões, Brasil, Argentina e Paraguai. São Sete Patrimônios Culturais Mundiais da Unesco e, dentro do Brasil, unem os chamados 7 Povos das Missões. Isso surge a partir da realidade de mercado de caminhadas através de missioneiros aficionados ao setor, desde o ano 2000.
Mostra-se a cultura, a gastronomia, a história, com caminhadas guiadas em um “sentir as energias presentes”, que é o que a maior parte dos turistas diz quando caminha na região. Diariamente, há caminhantes peregrinos no roteiro e vivem o espetáculo da terra vermelha com a amplidão histórica herdada daquele passado.
As Missões foram determinantes para o que o Rio Grande do Sul é hoje?
Penso que há uma centena de temas, mas começaria pela genética ancestral e que formou a base do gaúcho, que o pessoal dos CTGs chama de “povo pelo-duro do Rio Grande”. Depois diria do gado entrado em 1634 e que nos fez pecuários, centro da cultura gaúcha. O padre Cristóvão de Mendonza, introdutor do gado e primeiro tropeiro, como chamam, cumpriu um papel fundamental. Fazendas, estâncias, charqueadas, tropeirismo, tudo nasce com aquele gado.
Os mapas do território, tudo foi cartografado pelos jesuítas e também pelos Guaranis cristãos daquele período. O nome dos rios, acidentes geográficos, tudo vem daqueles tempos. O mate nosso de cada dia é um produto gastronômico milenar dos Guaranis e levado à condição de indústria inicialmente pelos jesuítas; o churrasco, então, nossa marca. Poderíamos escrever um livro específico sobre os reflexos, como cidades formadas e tantas outras ideias. O Passo do Fandango, a urbanização inicial aí, é a partir do povo missioneiro…
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