Neste domingo, 11, os holofotes voltam-se para o 83º Globo de Ouro. A premiação da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood elege, desde 1944, os melhores da indústria cinematográfica e televisiva em 28 categorias.
Mais uma vez, o Brasil marcará presença na cerimônia, representado pelo longa-metragem O Agente Secreto. O aclamado filme de Kleber Mendonça Filho compete pelos prêmios de Melhor Filme Dramático, Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Ator, com Wagner Moura. Este disputa o troféu com alguns dos principais nomes da indústria cinematográfica norte-americana, incluindo Leonardo DiCaprio, Dwayne “The Rock” Johnson, Michael B. Jordan e Timothée Chalamet.
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No entanto, a participação brasileira não será apenas na competição. Entre os 334 jornalistas e críticos de cinema de 85 países que estão no grupo de votantes há 38 do Brasil. Um deles é o gaúcho Rodrigo de Oliveira, que passou a integrar o corpo de votantes para a 83ª edição do Globo de Ouro. Diretor-executivo da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), o comunicador fundou em 2016 o Almanaque 21, uma revista digital mensal dedicada ao audiovisual.
Com mais de duas décadas de experiência na área, Rodrigo, de 42 anos, fala com exclusividade à Gazeta do Sul sobre a experiência de participar da premiação pela primeira vez. Além disso, o jornalista analisa a jornada de O Agente Secreto e as chances do Brasil na temporada de prêmios da sétima arte em 2026.
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Entrevista – Rodrigo de oliveira, crítico de cinema
- Gazeta do Sul – Qual o sentimento de se tornar votante do Globo de Ouro?
Rodrigo de Oliveira – Muita gente pergunta qual a expectativa para a premiação. Não posso dar muitos detalhes, mas posso dizer que estou curioso. Sempre acompanhei o Globo de Ouro, o Oscar e as demais premiações. Realmente, é a minha temporada favorita para poder curtir esses eventos. Vai ser diferente. Estou curioso para saber como os colegas votaram.
- Como surgiu a oportunidade de participar da premiação?
Comecei a escrever em 2003, em um blog. Acho que muitos da minha geração começaram assim. Depois, na Universidade do Vale do Sinos (Unisinos) tive a oportunidade de escrever para o Portal 3, da Agexcom, a agência de comunicação da universidade, que, infelizmente, acabou neste ano. Mais uma triste notícia para quem faz jornalismo. O Rio Grande do Sul fechando mais um espaço de estudo e aprendizado.
Em 2016 iniciei o Almanaque 21, que em fevereiro deste ano estará completando uma década. Nessa trajetória, escrevendo muito, comecei a ter contato com jornalistas e críticos de cinema que estavam votando no Globo de Ouro.
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Era uma coisa que eu nunca tinha pensado, sempre pareceu distante. Afinal, é Hollywood, e eu estou em Canoas, no Rio Grande do Sul. E o Globo de Ouro, há alguns anos, era muito fechado para os repórteres internacionais.
Porém, após a polêmica da falta de diversidade na premiação, começaram a abrir espaço. Foi aí que decidi me inscrever em fevereiro do ano passado. Mandei algumas críticas, o currículo, aquela coisa toda, para ver como era a experiência.
Achei que não iriam me aceitar de primeira, mas mandei. Na época, falaram que em abril iriam avisar se rolou. Mas o mês passou e nada. Fiquei chateado porque nem havia recebido um não. Eis que, em julho, recebi a mensagem de que havia sido aceito. Minha cabeça explodiu (risos). Em agosto meu nome foi divulgado no site. E foi surpreendente, porque foi uma longa trajetória. Agora, meu nome está lá. Virou a cereja do bolo de 2025.
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- Após se tornar votante do Globo de Ouro, você pode realizar entrevistas com artistas e cineastas internacionais. Como está sendo a experiência?
É muito surreal isso. No ano passado, quando eu comecei a acompanhar o trabalho dos colegas que estavam no Globo de Ouro, vi muitos participando de entrevistas. E eu não esperava isso. Até sabia que acontecia de vez em quando.
E quando eu entrei, começaram a chegar os convites. O primeiro que recebi foi para uma coletiva de imprensa virtual do filme Os Roses, com o Benedict Cumberbatch e a Olivia Colman. Eu mandei perguntas, eles leram e achei bacana. Depois participei de uma sobre o filme Uma Batalha Após a Outra, com Paul Thomas Anderson, Leonardo DiCaprio, Benicio Del Toro, Sean Penn e os demais atores do elenco principal. Nessa, não conseguiram ler a minha pergunta, mas só de participar já era bacana. Eu nem tinha visto o filme ainda.
Achei que ficaria por isso. Mas depois começaram a chegar mais convites, incluindo com o Dwayne Johnson. Eram três minutos, mas rendeu. Tu acha que não vai, mas consegue. Claro que não é nada profundo, mas eu tenho tentado fugir um pouco do básico. E isso faz com que o ator não fique no automático, respondendo a mesma coisa que já falaram várias vezes.
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Nem sempre dá para fazer isso, mas eu tento. Teve o Gary Oldman também. De alguns eu posso só usar o texto ou o áudio. Mas estou navegando nesse mar de possibilidades para fazer entrevistas legais e trazer para o público. Elas estão disponíveis no canal do Almanaque 21 no YouTube.
Chama muito a atenção a maneira com que esses grandes atores interagem…
É uma experiência bem legal. Imagina, eu entrevistei a Kate Winslet no fim do ano. Comecei a pensar nos filmes que vi dela. Titanic eu vi na adolescência. E agora consegui conversar com ela duas vezes. São experiências muito boas que eu vou levar pra vida.
No ano passado, participei de um evento do filme Wicked no Brasil. Vieram a Cynthia Erivo e o Jon M. Chu, o diretor. E foi muito bacana poder estar perto deles. Depois, surgiu a oportunidade de conversar, durante três minutos, com a Ariana Grande. Ela foi muito simpática. No dia seguinte, descobri que ela estava com Covid. E não conversou só comigo, mas com vários jornalistas. Mesmo assim, foi muito simpática. Nessas coletivas, tu fica com outros repórteres esperando chegar a tua vez. E quando terminava uma entrevista, voltava para a sala. E todo mundo que voltava dizia como ela foi maravilhosa. Se tu perguntares qual foi a melhor, direi que todas foram.
Foi um aprendizado muito grande para fazer a entrevista em inglês. Faço entrevistas há anos, trabalhei em rádio durante muito tempo e tive um programa de entrevistas, chegava a fazer três por dia. Tenho esse ritmo. Mas em inglês é um desafio, porque tu precisas pensar de outra forma. Tenho que fazer uma preparação maior, até porque o tempo é curto e preciso ser mais específico e objetivo. E isso me deixou mais seguro.
- Tens acompanhado a trajetória de O Agente Secreto no circuito mundial, já acumulando 48 prêmios. Qual tua avaliação sobre a jornada da obra nacional?
O filme Ainda Estou Aqui já tinha uma cena de vitórias muito grande, vencendo o prêmio do Festival de Veneza, e depois começou a fazer a ronda de prêmios, incluindo Globo de Ouro e Oscar. Essas premiações, como tijolos, tu vai montando e construindo até chegar ao mais importante, que é o Oscar.
O Agente Secreto começou muito bem em Cannes. É importante ressaltar que esses festivais têm regras. Por exemplo, se um filme ganhou o prêmio de melhor diretor é isso, não vai ganhar outra coisa.
Mas aí saiu o prêmio de Melhor Ator para o Wagner Moura e de Melhor Diretor para o Kleber Mendonça. E o filme conquistou ainda outros prêmios oficiais.
Então, nós começamos muito bem em Cannes. Mas o festival ocorreu em maio, e a temporada de prêmios é muito longa.
O Festival de Veneza, no qual Ainda Estou Aqui se destacou, foi em setembro de 2024. Depois chegou no Brasil, na Mostra de São Paulo, e fez todo aquele barulho e a grande bilheteria. Foi um período curto [até as premiações].
Já O Agente Secreto teve que trabalhar muito para se manter relevante desde Cannes. E conseguiu. A estratégia foi boa. Ele foi lançado em novembro, mesmo mês que o Ainda Estou Aqui, começando em algumas salas e praças no Brasil.
O Kleber é bem inteligente e sabe o quão importante é colocar o filme nas regiões certas. São Paulo, por exemplo, viu o filme muito depois de Manaus. Foi algo muito diferente. E o lançamento nos Estados Unidos foi muito importante. O filme está em cartaz, fazendo uma boa bilheteria e as pessoas estão vendo o filme.
- Qual tem sido a reação da crítica internacional ao filme brasileiro?
Vemos nas principais revistas especializadas, Variety, Hollywood Reporter e Indiewire, Wagner Moura na sessão do Oscar como melhor ator. Disputando, é claro, com outros artistas, incluindo Timothée Chalamet, Michael B. Jordan e Leonardo DiCaprio, os principais postulantes. Não saíram os indicados ao Oscar ainda ( será anunciado no dia 22 de janeiro), mas já podemos especular. O Agente Secreto está entre os principais para o prêmio de Melhor Filme Internacional. Porém, essa categoria está mais forte do que no ano passado.
E é muito curioso para ver como as coisas mudam muito rápido na temporada de prêmios. No começo de janeiro do ano passado, todo mundo dava como certa a vitória para Emília Perez. Ele levou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e estava em um bom momento. Mas daí surgiu a bomba atômica, as falas da Carla Sofia Gastón, e mudou tudo.
E a Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz e Ainda Estou Aqui foi indicado ao Oscar de Melhor Filme, ajudando o filme a ser mais visto, e acabamos levando o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025. E O Agente Secreto está nessa trilha também.
- E o longa-metragem iniciou a temporada de prêmios com a conquista no Critics Choice Awards. Como tem sido a repercussão?
Tivemos aquele momento “canhestro” na premiação do Critics Choice Awards, com o Kleber recebendo o troféu de Melhor Filme Internacional no tapete vermelho, sem entender se era uma piada ou não. Ele demorou para entender que era realmente o prêmio. Depois, para arrumar a lambança, deixaram Kleber e Wagner apresentarem o prêmio de Melhor Filme. E foram espertos na hora de subir ao palco, fazendo piadinhas e entregando o prêmio ao Paul Thomas Anderson. Os brasileiros transformaram o limão em caipirinha. E todo mundo ficou do lado do filme depois também, muitos reclamaram, não só os brasileiros.
É a primeira vez que um brasileiro ganha o Critics Choice Awards, vencendo Foi Apenas um Acidente, do Jafar Panahi, supercotado para o Oscar. Mas é importante lembrar que, na premiação, o longa-metragem Valor Sentimental, de Joachim Trier, foi indicado para Melhor Filme. E há uma regra estranha: quando é indicado a Melhor Filme, não pode para Melhor Filme Estrangeiro. Então, O Agente Secreto venceu contra o Panahi, mas não lutou contra o Trier.
A batalha está aberta ainda. O Globo de Ouro vem agora no fim de semana. Dependendo do resultado, seja ator ou filme estrangeiro, pode ser que gere um momento ainda maior para o filme no Oscar.
Porém, é sempre importante lembrar que quem vota no Critic’s Choice Awards não é a mesma pessoa que vota no Globo de Ouro. E quem vota nos dois não vota no Oscar, no qual quem vota é quem trabalha no cinema. São coisas bem diferentes, e muitos não sabem disso. Então, é construir um momento para que consigamos navegar nessas ondas turbulentas das premiações, sempre estando lá em cima, sempre em evidência e mantendo o filme relevante.
- Ainda Estou Aqui e agora O Agente Secreto evidenciaram o engajamento dos brasileiros nas premiações. O que os organizadores desses eventos aprenderam com isso?
Não temos como prever, por exemplo, o que vai vir de filme do Brasil no ano que vem para ter esse nível de engajamento. Se eu estivesse por trás da Academia, teria um plano claro: vamos ter O Agente Secreto.
Mas, poxa, deem um Oscar honorário para a Fernanda Montenegro. A atriz está com quase 100 anos de idade e tem uma carreira maravilhosa, foi indicada ao Oscar, não ganhou naquele ano. Se vocês querem gerar engajamento, coloquem a Fernanda no Oscar ano que vem, gente.
Isso geraria um falatório. E o brasileiro adora engajar-se nas redes sociais, o que faz a diferença. Agora, por exemplo, o Wagner Moura participou do programa do Seth Meyers [famoso Late Night, nos Estados Unidos] e tenho certeza que vai ter engajamento. É a força dos brasileiros nas redes sociais. O que pode ser destrutivo, dependendo do assunto, mas pode ser também muito construtivo e ajudar as pessoas a se elevarem.
E quem não lembra da publicação de uma foto da Fernanda Torres na página do Oscar, com milhares de curtidas e comentários? É algo que as premiações veem com bons olhos, principalmente diante da crise de audiência que vem há um bom tempo.
Prova disso é que, no ano passado, a Globo não ia transmitir o Oscar. Mas teve que correr atrás para passar. Quantos anos ela deixou de fazer isso?
E é muito legal o fato de que os talentos brasileiros estarem tão em evidência em Hollywood fez com que as pessoas abrissem os olhos para o cinema brasileiro. Ainda Estou Aqui teve 6 milhões de espectadores e O Agente Secreto fez mais de um milhão.
- A distribuição internacional de O Agente Secreto é feita pela Neon. No ano passado, você comentou a campanha estratégica da empresa em Anora, ganhador de cinco Oscars. Qual a consequência para o filme nacional?
Tende a ajudar bastante. E aí a importância dos prêmios anteriores ao Oscar. A Neon tem O Agente Secreto, mas também tem outros fortes concorrentes. E quando há muitos filmes bons, o que estiver com vantagem será favorecido. O Agente Secreto, ganhando alguns prêmios importantes, pode mostrar para a Neon que vale a aposta e ela investe dinheiro na divulgação.
Quero acreditar que a própria Neon percebeu que o filme do Kleber é o principal cavalo dessa corrida, é o que vai na frente. Mas é muito bom estar junto com a Neon. Afinal de contas, ela tem feito campanhas ótimas, por exemplo Parasita.
Eles vão para festivais importantes, como Cannes, assistem aos filmes e compram os direitos para distribuir aqueles que podem ganhar prêmios. É uma forma inteligente de buscar talentos que às vezes podem não estar em Hollywood.
- Assim como a atriz Fernanda Torres, o ator Wagner Moura tem ganhado bastante destaque. Porém, há fortes concorrentes nas premiações. Quais são os nomes mais fortes na disputa?
Acho que em primeiro lugar temos o Timothée Chalamet pelo seu trabalho em Marty Supreme, que será lançado ainda em janeiro, e tem uma atuação bem intensa do ator. Embora ainda seja jovem, o Chalamet está há muito tempo “beliscando” um Oscar. É possível que venha esse ano.
O [Leonardo] DiCaprio também está excelente em Uma Batalha Após a Outra. Temos ainda o Michael B. Jordan, por Pecadores, no qual interpreta dois papéis e consegue convencer o espectador de que são dois atores diferentes. Temos que lembrar muito dele.
O Dwayne Johnson também é uma figura que não pode ser esquecida pelo seu trabalho em Coração de Lutador. É um filme sem uma bilheteria forte, mas tem grande atuação do Dwayne Johnson, que deve ser lembrada.
E o Joel Edgerton, pelo filme Sonho de Trem, da Netflix, também está bem cotado. São esses nomes que estão circulando na premiação. É muito provável que o Wagner Moura seja indicado. E a indicação é muito importante.
Assim como o Ainda Estou Aqui no ano passado, melhor ainda, porque consegue ter mais olhos em cima. Se conseguirmos repetir as mesmas indicações do ano passado, seria ótimo para o filme poder “beliscar” o ouro.
Mas, como eu disse antes, a premiação é muito difícil, porque o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro será superconcorrido. Seria bacana o Oscar fazer uma dobradinha e dar duas vezes o prêmio para o Brasil. Mas é difícil.
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