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ENTREVISTA EXCLUSIVA

Ariana Harwicz: “Escrever é um ato de emancipação do real”

Foto: Acervo Pessoal

Ariana: “O que me interessa na arte não são os trilhos seguros, mas os riscos que o artista assume”

Uma frase de O ruído de uma época, lançado em 2024 no Brasil pela Instante, dá dimensão da maneira como a escritora argentina Ariana Harwicz, radicada na França, enxerga seu papel no universo da literatura, e uma definição de sua arte: “Quando estou pronta para voltar a escrever, sou como um soldado em posição de tiro, o dedo indicador no gatilho. A escrita aparece antes, como um antídoto, como morfina antes de ser ingerida. O chamado estilo nada mais é do que evitar que a arma dispare antes do tempo”.

Esse modo de vislumbrar o ato de escrever, no limite de uma enorme responsabilidade, e com a consciência do gesto, alçou-a à condição de uma das maiores vozes contemporâneas da literatura. Aos 48 anos, completados em dezembro, também desfruta da ampla visibilidade que sua ficção alcança com a adaptação de seu primeiro romance, Morra, amor, aos cinemas, lançado em novembro, com a atriz Jennifer Lawrence no papel principal. É o primeiro romance de uma trilogia, completada com A débil mental e Precoce, todos lançados pela Instante, assim como Degenerado e Perder o juízo.

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Neles, oxigena a cultura e motiva reflexões sobre moral, costumes e desconfortos de nossa época. Neste início de janeiro, ela concedeu entrevista exclusiva à Gazeta do Sul por WhatsApp, a partir de sua residência na França. Na conversa, abordou pontos de seu fazer literário e o cenário à entrada de 2026. Na prática, as considerações de Ariana na entrevista acabam por constituir uma aula sobre o universo artístico.

Entrevista – Ariana Harwicz, escritora argentina

  • Gazeta do Sul – Teu primeiro romance, Morra, amor, de 2012, acaba de ser adaptado para o cinema. Chegaste a te envolver na produção de algum modo, ou a acompanhaste de perto? Quais foram tuas impressões sobre tua história nas telas? Na verdade, para a minha biografia isso é bastante particular, porque Morra, amor é meu primeiro romance publicado por editoras independentes. O caminho das traduções e das adaptações teatrais foi muito longo. Foi tudo muito lento, como costuma acontecer. Durante muitos anos, o livro teve apenas uma tradução para o hebraico, circulou em poucos países, e eu mesma fazia impressões em PDF. Passavam-se fotocópias. E então chegou a proposta de Martin Scorsese – de um modo tão incrível, tão inesperado, quase onírico. Surgiu a partir de um clube de leitura que recomendou o livro a Scorsese e a Martínez Cortez. O livro chegou até Jennifer Lawrence. Ou seja, ali realmente não houve lobby. Não houve portas batidas por agentes literários. Não houve nada disso. Participei do processo, e a impressão que tive quando vi o filme no Festival de Cannes, em competição oficial em maio do ano passado, foi uma reação difícil de nomear. Não tenho um verbo, nem um adjetivo exato para definir essa sensação de ver transformado em outra coisa um texto que você conhece de memória, que você engendrou, do qual conhece cada modulação, cada variação, cada entonação – realmente cada palavra, inclusive da tradução para o inglês, na qual colaborei. Foi, antes de tudo, muito impressionante, porque me lembro das condições em que escrevi o romance, mas também das condições em que ele foi traduzido para o inglês, de forma muito artesanal. Não pensando no mercado, nem feito com tradutores de inteligência artificial, mas ao contrário: quase como um ateliê de pintura. Um livro trabalhado à noite, conversando, discutindo cada palavra. Como deve ser feito. E esse contraste é forte. É realmente um momento de enorme assombro: a passagem de um livro transformado em outra coisa, que é um filme – e ainda mais quando se trata de Hollywood. Isso me faz pensar na diferença entre arte e mercado. E, como sempre, para escrever é preciso manter-se fora de tudo. Sempre fora.
  • Tua obra é reconhecida por tocar em temas sensíveis, ou com abordagens que por vezes geram desconforto. O que te inspirou no sentido desse olhar sobre o mundo? Acho que, nos meus livros, nada é programático. Não consigo separar estilo, tema, forma, obsessões, repetições, títulos ou adaptações – tudo faz parte do mesmo corpo. Não se trata de algo pensado para provocar determinado efeito. Acho que pensar assim é pensar mal a escrita. Pelo menos, é assim no meu modo de pensar. Escrever algo para produzir um efeito específico – provocar terror, medo, repulsa – talvez faça sentido em certos tipos de escrita de gênero. Há quem escreva romances românticos pensando no prazer do leitor, ou quem trabalhe o texto calculando como capturar o espectador e conduzi-lo a uma emoção precisa. A minha escrita é outra coisa. É uma escrita da digressão, do desvio. O que me interessa na arte, em geral, quando vejo um quadro ou escuto música, não são os trilhos seguros pelos quais a obra avança, mas os riscos que o artista assume, os lugares por onde ele se perde, as digressões e os desvios que enfrenta. Se tivesse que nomear uma política para a minha escrita, eu diria que é uma política do desvio. Em todo caso, nunca penso nos efeitos que um romance meu vai provocar. Minha obsessão é apenas tentar retratar algo com a maior verdade possível.
  • Na apresentação de O ruído de uma época, mencionas frase do Nobel húngaro Imre Kertész, de que escrever é um tiro no coração. É um tiro que, no entanto, não mata? Ou, se mata, o que ele mata? Fala-se muitas vezes da obsessão dos serial killers: sempre insatisfeitos na caça, sempre insatisfeitos ao capturar. Mas também se fala pouco das obsessões de outras figuras – por exemplo, a obsessão de um cirurgião pelo corpo humano. Existe, em ambos os casos, esse mesmo grau de obsessão insatisfeita, esse mesmo grau de desvio, de não normalidade. Nesse sentido, alguém que escreve e sente a necessidade de escrever também não é alguém que funcione normalmente. Escreve-se porque algo do real, algo da realidade, não funciona. Isso é essencial compreender. Não se escreve por narcisismo – embora muitos escrevam em busca da vida social do escritor. O essencial é outra coisa: quem escreve é alguém que não está bem ajustado à vida, à realidade tal como ela se apresenta. Há algo aí de uma ordem quase cirúrgica. Imre Kertész é um dos meus faróis. Um dos meus guias espirituais. Ele – e outros também – sustentou uma ética extremamente rigorosa da escrita: não fez concessões nem à época, nem ao seu estatuto de vítima, nem à sua condição judaica; nem ao que se esperava dele, nem ao que ele próprio poderia esperar de si. Não se limitou a ser testemunha da própria vida. Operou algo muito mais complexo. Por isso, no início, não foi compreendido. E talvez esse “tiro no coração” tenha a ver com isso. Escrever exige dar um tiro certeiro.
  • Teus romances buscam desvelar comportamentos, atitudes, ou vão em uma certa contramão. O propósito seria desvelar hipocrisias? Que tipo de ação esperas que tua obra cumpra na sociedade? A palavra “contramão” me parece muito adequada, muito precisa quando se trata dos romances de que gosto ou de como penso os meus próprios romances. Como dizia antes, não busco um efeito preciso nos leitores. Mas é certo que um dos meus ódios mais profundos é o cinismo. Sinto que, hoje em dia – embora seja algo muito humano e atemporal –, o cinismo está em alta. Quase não conseguimos mais reconhecer as pessoas se não for através do cinismo, através de uma leitura cínica das coisas. Estamos acostumados ao cinismo, e ele é, de fato, um dos meus maiores inimigos. Falando da metáfora do “tiro no coração”, esse ato tem isso: também descarrega adrenalina e muita violência. A escrita é violenta. Suponho que meus romances vão forçar o leitor a ir na contramão, ao menos na leitura.
  • Já nos títulos teus romances revelam seus temas sensíveis: Morra, amor; A débil mental, Degenerado, Perder o juízo. Seria possível dizer que os personagens “perdem o juízo” porque é isso que mais se testemunha no mundo atual? Sim, é verdade que o signo da obra está no título. O título é uma chave de leitura muito importante; às vezes, como nos enigmas, ali está a pista mais relevante para entender a obra. Morra, amor, A débil mental, Precoce, Degenerado, Perder o juízo – esses títulos são realmente significativos. Podemos supor que todos os meus personagens perdem a cabeça, perdem o juízo, perdem o senso de orientação social, como se perdessem sua bússola. Todos são desajustados sociais. Na verdade, procuro observá-los suspendendo a moral, por isso não sou um narrador. Nunca posso ser um juiz. Um narrador. Nunca posso ser o comissário da cidade. Nunca posso ter olhos moralizadores no momento em que os acontecimentos se dão. A escrita comprime toda a ambiguidade, toda a enorme e infinita complexidade que uma mente humana pode ter, e a reduz. Se eu escrevo quase diariamente, então sim, todos os meus personagens estão em um ponto em que vão derrapar, em que vão se perder. Todos os meus personagens se desconhecem a si mesmos e não sabem do que são capazes, um pouco como todos nós.
  • Degenerado talvez seja exemplo oportuno: não parece que vivemos num mundo “degenerado”, que se diz virtuoso? De um mundo simulado como desejante de ser moral – e, no entanto, absolutamente corrompido – trata o romance Degenerado. O mundo se apresenta como uma espécie de peça de teatro, profundamente moral, e por trás dessas militâncias pelos direitos humanos, por trás dessa pseudonormalidade na qual nos constituímos ou que tentamos aparentar como seres humanos, é aí que a corrupção aparece. E aparece com toda a sua força. Nem todos os seres humanos estupram crianças. Nem todos os seres humanos desmembram cadáveres. Nem todos os seres humanos são diabólicos, como os serial killers, como aqueles capazes de queimar pessoas vivas. Mas, ainda assim, o século 21 renova a celebração, a glorificação, a romantização do Mal. E então já sabemos: ao ser humano não interessa a bondade. O ser humano está muito mais atraído pelo crime. Caso contrário, os grandes assassinos não teriam tantos admiradores nas prisões. Não precisam de likes: recebem cartas, pedidos de casamento, têm inúmeras pretendentes. É disso, em parte, que trata Degenerado: dessa atração humana.
  • Em termos de afinidades literárias, com quem mais te sentes aparentada? Não saberia como estabelecer uma linhagem, uma familiaridade direta com obras, porque minha formação é muito eclética e minha maneira de escrever segue essa linha incerta, heterodoxa. Estudei durante muitos anos cinema, pintura, filosofia, fotografia, teatro, literatura. Minha formação é realmente, em partes iguais, na poesia, na literatura, no teatro e na pintura. O que procuro observar em um artista é que tipo de operação ele realiza, como intervém no real, na realidade, e como a deforma, que grau de deformação estabelece. Creio que todo escritor se confunde entre aqueles que admira, aqueles que o influenciaram e aqueles que têm a ver com sua escrita, com seu estilo, porque às vezes não é a mesma coisa. Acredito que Ingmar Bergman, Cassavetes, Caravaggio tenham peso na minha escrita, mas também há o piano. Talvez o piano estruture a escrita.
  • Uma frase de O ruído de uma época já é suficiente para propor muito debate: “Essa época lê mal porque lê a partir da identidade”. Por que isso leva a uma leitura equivocada e como o evitar? Se o livro O ruído de uma época são notas miscelâneas, correspondências, notas de rodapé sobre o que venho observando no campo literário há mais de dez anos e, entre outras coisas, o que hoje é uma evidência, mas que em algum momento não o foi. É que existe uma forma massiva de ler, ou pelo menos uma forma mainstream de ler a partir de certos lugares de poder: ler a partir da identificação, da ideologia e da empatia. São todas formas de raciocinar que não têm nada a ver com literatura nem com arte. Essas vozes dominantes torcem, deturpam, de algum modo corrompem a interpretação de uma obra, levando-a a um caminho menos interessante e mais direto, que permite menos desfrutar da operação literária, que nada tem a ver com empatia, nem com militâncias, nem com a associação direta entre narrador, personagem e autor. Então, na maioria dos festivais, valorizamos os autores pelas virtudes de seus personagens e seus personagens em relação à política, e isso é como uma falsa associação. Na realidade é uma fraude, mas, bem, essa confusão é criada de propósito.
  • Aliás, outra frase tua é que “escrever sem ofender alguém é um oxímoro”… Não vou repetir o que está escrito em O ruído de uma época, mas é como se hoje se quisesse desmontar a escrita para transformá-la em outra coisa. Outra coisa, não sei, digamos, pode ser, mas então já não serão mais livros. As diretrizes que se dão hoje para escrever são a antítese do que é a operação de escrever. Por isso, escrever sem ofender alguém… É impossível. Muitos tentam fazê-lo para agradar a todos, e não é possível dizer que se está escrevendo. Escrever é um ato de emancipação do real, das diretrizes civis, das submissões a ideias partidárias de qualquer tipo, de qualquer índole. Por isso, a escrita se posiciona em outro lugar. Hoje em dia é impossível lê-la. Há uma caça às bruxas contra as obras de arte e os autores, como uma espécie de purificação moral e, ao mesmo tempo, o século 21… Os 26 anos que vão passando têm sido absolutamente sanguinários e diabólicos.
  • Como vês o cenário político, social e cultural? Houve a ação de Trump contra a Venezuela. O que ela te inspira? Em relação a Maduro, o que quero dizer é que as teorias ideológicas absolutistas e o servir a um partido político sempre foram contra a verdade factual, aquilo que pode ser comprovado na vida, na realidade – mas hoje isso é ainda mais evidente. Agora, acredito que, com as redes sociais, os militantes tenham se tornado caricaturas de si mesmos e emblemas do narcisismo. É esse narcisismo que levou uma flotilha hipermidiatizada a ir a Gaza quando sabiam que nunca chegariam; é esse mesmo narcisismo que faz com que aquilo por que militam – atores de Hollywood, atrizes, escritores, entre outros – seja muito mais a própria imagem do que uma causa. E insisto: nunca importa a realidade, mas sim a causa que lhes dê mais visibilidade. Essa é uma forma perversa e distorcida que os seres humanos adotaram hoje em dia por meio das redes sociais.
  • Como é tua relação com o Brasil? Conheces a literatura, a lês? Com o Brasil e seus leitores, é uma relação cada vez mais próxima. Meu editor, Silvio Testa, e sua equipe sempre cuidaram muito bem de tudo, por isso adoro e apoio as editoras independentes que fazem todo o esforço sozinhas. Todos os meus livros foram publicados pela Instante. Demoraram muitos anos para chegar ao Brasil, mas, felizmente, eles chegaram. É uma grande felicidade. Espero em breve ir a outros lugares do Brasil e, sempre que posso, participo de festivais, encontros, leituras e apresentações. O filme também ajudou a trabalhar em conjunto, o cinema com a literatura.
  • O que mais te move ou te mobiliza em tua produção? O que te realiza ou te instiga como artista?Há uma frase de Fernando Pessoa que diz: “A literatura é a prova de que a vida não basta”. Isso é o que me interessa. Na ópera, no cinema, na literatura. E é o único campo em que realmente se pode, como se diz, sempre mentir para dizer a verdade. Gerar esse duplo efeito de mentira, portadora de verdade, que na vida não funciona ou não basta.

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