Na praia, costumo caminhar cedo e, assim, vejo a vida renascendo. Há muito silêncio, os carros ainda não começaram a rugir, as lanchas da Petrobras partem ao encontro dos navios petroleiros para liberar o descarregamento, alguns barcos pesqueiros retornam da noite de trabalho, os pescadores, cansados, bocejando, mas recompensados pela farta colheita, visível pelo barco envergado.
Nos quiosques, os comerciantes, na expectativa de mais um dia favorável, repõem produtos, perscrutam o céu e, percebendo o sinal de tempo bom, já começam a descer centenas de mesas e cadeiras para a areia ainda úmida do passeio noturno das ondas incessantes, incansáveis. Guarda-sóis coloridos, tomados de variada publicidade, abrigarão os veranistas que não tardam a chegar.
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No calçadão, pessoas de todas as idades caminham lentamente, ou correm, cada um investindo do seu jeito na saúde e no seu bem-estar. Os casmurros não respondem ao cumprimento, a maioria acolhe a saudação compartilhando desejos de bom dia aos anônimos parceiros da manhã. Os primeiros camelôs (somos senegaleses, me disseram alguns) se instalam, contando com fregueses para seus óculos de plástico. Há ainda os esforçados varredores que, sísifos modernos, devolvem à praia a areia que todos os dias teima em voltar.
Na beira do mar, encontram-se os últimos pescadores da madrugada e os primeiros da manhã. A maioria com um baldezinho de brinquedo (que depois servirá à diversão das crianças) para colocar os peixes. Eles sabem que não vão fisgar nada, mas vale o exercício dos incontáveis arremessos. Encontrei três com um balde grande. Parei e os cumprimentei pela fé e esperança na tentativa da pesca milagrosa. Eles me olharam e sorriram. Depois, rimos juntos, porque o que vale é a leveza do bom humor que pode brotar até de uma pescaria malograda.
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Mais adiante, cheguei à barra do rio Tramandaí, onde a exibição dos botos iniciara o espetáculo do dia. Observar a corrida desenfreada dos pescadores com suas tarrafas, supondo – e tem mesmo – um cardume de tainhas perseguidas, é cena impagável. Arremessam suas tarrafas umas sobre as outras, recolhem, em geral vazias, e ficam galhofando uns da cara dos outros nessa amistosa e divertida confraria. Na alegria geral, prosseguem na sua tentativa até a conquista do troféu. Dá para ficar horas observando esse espetáculo.
Um pouco além, um funcionário de um restaurante limpava crescidas tainhas a serem servidas no almoço. Ali, o espetáculo é promovido por dezenas de biguás e garças à espreita das vísceras a serem jogadas no rio. Disciplinadamente perfilados, esperam o momento para, em mergulho certeiro, conquistar sua refeição.
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A barra é um lugar muito especial na praia de Imbé. Dificilmente alguém só passa por ali. Há uma atração irresistível de se deter. Vi um homem com pazinha e vassoura recolhendo algum lixo descartado. Era uma pessoa muito humilde, quase se escondendo dentro de si mesmo. Sai um cidadão de um dos restaurantes onde fora aquecer a água para seu chimarrão. Deu atenção a essa criatura, que até meio que se assusta. O da térmica pergunta se aceita uma fruta. Meio surpreso, disse que sim, que aceitava uma fruta. O da térmica foi até sua equipada van, escolheu a fruta e a entregou, promovendo uma inesperada e imensa alegria. Mesmo tendo poucos dentes, o varredor anônimo não teve dúvida de sorrir com verdadeira gratidão da alma. Fiquei pensando que não é necessária muita coisa para fazer uma pessoa feliz.
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