Dizer que a geração Z vive pior do que seus pais deixou de ser exagero retórico e virou diagnóstico incômodo. Sua recorrência no debate público diz mais sobre as rachaduras do presente do que sobre a nostalgia de tempos passados. Pela primeira vez em décadas, uma geração percebe que o futuro pode ser menos promissor que o passado – e isso se reflete muito além das conversas nas redes.
Os jovens nascidos entre meados dos anos 1990 e o início dos anos 2010 chegaram à vida adulta em um cenário econômico estruturalmente instável. Crises sucessivas, inflação persistente e mercados de trabalho fragmentados compõem uma paisagem que não oferece os caminhos previsíveis que marcaram as gerações anteriores. O emprego formal já não é sinônimo de segurança, e a promessa de ascensão social automática parece quebrada.
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Isso não é apenas sensação. Pesquisas recentes no Brasil mostram que a maioria da geração Z prefere emprego com carteira assinada e ensino presencial, buscando estabilidade como forma de proteção diante da incerteza econômica. O dado desmonta a ideia de uma juventude avessa ao compromisso e revela, na verdade, uma geração consciente dos riscos que enfrenta.
Ao mesmo tempo, estudos internacionais indicam que jovens gastam proporcionalmente mais com moradia e necessidades básicas, reduzindo consumo em lazer e entretenimento. Mesmo empregados, vivem sob pressão constante do custo de vida, o que redefine prioridades e expectativas. Trabalhar já não garante conforto; garante, quando muito, sobrevivência.
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Há ainda a percepção recorrente de que a geração Z é mais exigente em relação a salários e benefícios. Longe de capricho, essa exigência reflete uma equação econômica deteriorada. Quando o salário mínimo deixa de cobrir despesas básicas, negociar torna-se uma estratégia de defesa, não um traço geracional.
A tecnologia intensifica esse cenário. Flexibilidade de horário e formato de trabalho pesam cada vez mais nas escolhas profissionais, não como luxo, mas como tentativa de conciliar produtividade com saúde mental. O trabalho permanece central, mas seu sentido é constantemente questionado.
O debate, portanto, não é geracional, mas estrutural. A geração Z não está vivendo pior por falta de esforço ou resiliência. Vive diferente porque o mundo oferece menos garantias e cobra mais adaptações. Ignorar esse dado é insistir em uma narrativa confortável e falsa. Reconhecer o diagnóstico não é vitimismo – é condição mínima para pensar políticas públicas, mercado de trabalho e futuro social. O resto é retórica.
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