A aproximação da Páscoa transforma as ruas próximas à Praça Getúlio Vargas, no centro de Santa Cruz do Sul, em pontos tradicionais de venda de artesanato indígena. Vindos da Terra Indígena Inhacorá, localizada no município de São Valério do Sul, cerca de 75 indígenas do povo Caingangue, oriundos de duas comunidades, estão na cidade para vender cestinhas, cestões e macela – prática que une tradição cultural e geração de renda.
Entre os artesãos está Aniele Vitória Camargo Miguel, 19 anos, que desde a infância acompanha a família nas viagens. “Esse é o nosso trabalho”, afirma. Segundo ela, a venda ocorre principalmente em datas como Páscoa e Natal, e envolve diferentes gerações da comunidade. Neste ano, a procura pelos produtos foi considerada tímida, mas a expectativa era de aumento.

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A presença indígena nas ruas, no entanto, nem sempre é compreendida. Aniele conta que embora muitos clientes sejam receptivos, ainda há situações de preconceito. “Tem uns que tratam bem e outros não. Tem gente que fala ‘vai trabalhar’, mas esse é o nosso trabalho também”, destaca.
Com mais de duas décadas de experiência em Santa Cruz, o artesão Virgílio Camargo, 64, reforça o caráter tradicional da atividade. Ele vende cestas produzidas com bambu, além de macela colhida na terra indígena. Os produtos variam entre R$ 10,00 a macela e R$ 20,00 as cestas, e são preparados a partir de saberes transmitidos por gerações.
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Segundo Virgílio, 13 famílias da sua comunidade vieram neste ano ao município e devem permanecer até a segunda-feira após a Páscoa. A atividade ocorre, em geral, no período de entressafra nas aldeias, quando a produção agrícola – baseada no cultivo de milho, feijão, mandioca e outras culturas – dá lugar ao artesanato como fonte complementar de renda.

A macela, além do uso decorativo nos ninhos de Páscoa, é valorizada por suas propriedades medicinais, sendo tradicionalmente utilizada no preparo de chás. Já as cestas carregam não apenas função estética, mas também simbólica, associada à cultura e à identidade indígena.
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Mais do que uma atividade comercial, a venda de artesanato indígena no período de Páscoa revela a relação entre cultura, território e sobrevivência. A prática permite que famílias mantenham tradições ancestrais ao mesmo tempo em que garantem renda fora das aldeias.
Para quem passa pelo centro da cidade, a cena já se tornou parte do calendário local. Para os artesãos, no entanto, cada venda carrega um significado maior: o reconhecimento de um trabalho que, para além do produto, expressa identidade, resistência e continuidade cultural.
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Prefeitura oferece estrutura de acolhimento
A presença dos grupos indígenas em Santa Cruz do Sul também envolve uma estrutura de acolhimento e organização por parte do poder público. Segundo a coordenadora do Departamento de Alta Complexidade da Secretaria de Desenvolvimento Social e Inclusão, Juçara Tatsch, a Prefeitura disponibiliza um espaço específico para permanência temporária dessas comunidades, ao lado da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), com o objetivo de garantir condições básicas e dignas durante o período de vendas.
No local foi construído um galpão de madeira, utilizado tanto como abrigo quanto para produção de artesanato, protegendo os indígenas das intempéries. A estrutura conta ainda com banheiros equipados com chuveiros e pias, além de acesso a água potável e energia elétrica. Também foram instalados banheiros químicos e lixeiras de grande porte, contribuindo para a organização do espaço e melhores condições sanitárias. Como complemento, está em fase de implantação um fogão de chão, que permitirá o preparo de alimentos conforme práticas tradicionais.

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Ainda assim, parte das famílias opta por manter formas próprias de organização, utilizando barracas confeccionadas com lonas e taquaras, em respeito às suas tradições culturais. Atualmente, o Município acolhe 75 pessoas no terreno, número de indígenas superior à capacidade estruturada, que é de aproximadamente 45 pessoas.
Segundo Juçara, o acolhimento é organizado a partir de diálogo prévio com líderes indígenas, especialmente caciques, embora o número de integrantes que se deslocam até o município nem sempre corresponda ao que foi inicialmente acordado.
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Em relação ao oferecimento dos produtos, como cestarias e macela, não há limitação por número de vendedores. Isso porque os povos indígenas têm direito à livre circulação em todo o território nacional, conforme previsto na Constituição Federal e no Estatuto do Índio (lei 6.001/1973). A atuação do Município, nesse contexto, é de apoio e organização, respeitando os direitos fundamentais dessas populações, enquanto a Fundação Nacional do Índio (Funai) atua na orientação e no respaldo legal das atividades.
A estrutura atual representa um avanço em relação a anos anteriores, quando os indígenas eram acomodados em um espaço anexo ao Albergue Municipal, considerado limitado. A situação gerou questionamentos no passado, especialmente em momentos de alta demanda e condições climáticas adversas. Hoje, com a área situada ao lado da Uergs, o Município busca oferecer um ambiente mais adequado.
“O espaço permite que mantenham práticas próprias e promove um acolhimento planejado, sempre em diálogo com os líderes indígenas, garantindo condições adequadas de permanência de acordo com a capacidade municipal”, afirma Juçara.
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