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Ricardo Düren

As caçulas estão aborrecidas comigo

Aos leitores assíduos desta coluna, vai um alerta preocupante: as gurias lá de casa andam aborrecidas com o que venho escrevendo sobre elas. Justamente as mais novas, Ágatha e Yasmin, alçadas a protagonistas deste espaço por conta da insistência dos leitores, deram sinais de desaprovação em relação a meus textos. E agora?

Descobri isso dias atrás, no jantar. Minha esposa, Patrícia, perguntou-me sobre o que escreveria para a coluna deste final de semana e a Yasmin, de 9 anos, acabou respondendo por mim:

– Certamente ele vai escrever sobre as “palhaças” aqui…

E a Ágatha, a caçula, aproveitou a deixa para relatar fato ocorrido tempos atrás em sala de aula, que, segundo deu a entender, teria sido muito vexatório:

– Estava eu quietinha no meu canto quando a prô pegou uma parte do jornal e mostrou para toda a classe. Era a coluna do pai e o título, bem grande, era: “Ágatha e o Curupira”!

Em minha defesa, aleguei que aquela coluna não tinha nada de constrangedor, que é auspicioso se interessar pelo folclore e que, sabidamente, muitas outras crianças, além dela, conversavam em seus sonhos com o Curupira, o protetor das florestas. Mas então ela lembrou de outro título: “Ágatha e a pipa de sacola”.

– Onde já se viu, pai? Contar pra todo mundo que me viu empinando uma pipa de sacola no quintal…

Argumentei que não há nada de vergonhoso em empinar pipas feitas de sacola de mercado. Acrescentei que eu mesmo empinava pipas de sacola quando o vento soprava forte lá na Rua Peru, nos altos do Bairro Pedreira, onde passei a infância. Afinal, quando o vento chegava sem avisar, não dava tempo de confeccionar uma pipa caprichada, com bambus e papel de seda, um artesanato extremamente complexo. Mas a traquinas não se convenceu.

– Não sei como eram as regras lá nesse tal de Peru, mas aqui no nosso quintal as regras são outras: o que faço em minhas brincadeiras não é da conta dos outros…

Mas que raio de regra é essa? – disparei.

– Ora, é a regra do quintal. Se não fosse essa regra, o quintal seria na frente de casa, e não nos fundos…

***

Yasmin perguntou-me, então, se a minha coluna chegava para “o mundo todo”. Respondi que, de certa forma, sim. Afinal, a Gazeta do Sul chega a milhares de leitores e a coluna também é disponibilizada no Portal Gaz. Ela então coçou o queixo e divagou:

– O que será que os japoneses pensam de mim quando leem esses textos…?

Eis, portanto, o dilema: terei que parar de escrever sobre as marotices das gurias lá de casa? Serei mesmo obrigado a privar os leitores dessas histórias curiosas que a Ágatha e a Yasmin nos proporcionam? E, também, das mensagens sobre a beleza da infância, da paternidade e da maternidade, que vêm a reboque com esses causos? Infelizmente, terei que tomar uma decisão e, portanto, vou refletir muito sobre isso… nos próximos anos.

Enquanto isso, segue outro causo.

***

Dia desses, depois do almoço, Yasmin quis saber:

– Não vai ter sobremesa?

Mas a Patrícia se incomodou com a perÁgatha e Yasmin, alçadas a protagonistas deste espaço por conta da insistência dos leitores, deram sinais de desaprovação em relação a meus textos. gunta. Argumentou que havia preparado o almoço com todo o carinho, caprichando nos temperos e na variedade. Que também passava boa parte do dia preparando saborosos lanches para Yasmin e os irmãos, sem ouvir um “muito obrigado”.

Passou então a discorrer sobre a importância da gratidão. Alertou que Yasmin deveria, antes de pedir mais, agradecer ao Papai do Céu por tudo o que tem: comida na mesa, cama quentinha, água tratada na torneira, roupas limpinhas, um quintal onde brincar…

E a Yasmin permaneceu um bom tempo quietinha, refletindo sobre aquilo tudo. Até que, enfim, quebrou o silêncio:

– Ok… mas vai ter sobremesa?

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