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A BELA ITÁLIA

Beatrice Dummer: “Eugenio Montale, um poeta genial”

Neste segundo semestre de Ciências da Comunicação na Universidade de Turim, estamos analisando a obra de Eugenio Montale, um poeta que me tocou profundamente e cujas reflexões eu não poderia deixar de compartilhar. São textos profundos, repletos de simbolismos, que exigem meditação e uma compreensão tanto do contexto histórico cultural da época quanto da própria vida pessoal do autor. É a partir daí que nasce o meu primeiro questionamento: quanto tempo do nosso dia dedicamos a refletir sobre aquilo que consumimos?

Hoje, os textos estão cada vez mais diretos e óbvios, dispensando a participação ativa do leitor. Estamos desaprendendo a pensar e a ser criativos, e é justamente essa capacidade que nos separa das máquinas em plena era da inteligência artificial. Mais do que nunca, é necessário ser verdadeiramente humano, um argumento, inclusive, muito recorrente na poesia de Montale.

Apesar de ser mundialmente conhecido como poeta, ele também foi um grande jornalista do Corriere della Sera e a sua obra em prosa supera em número a sua poética. Nascido em Gênova, em 1896, cidade portuária de onde partiram tantos imigrantes italianos para o sul do Brasil. O mais impressionante de tudo é que sua genialidade era intrínseca: ele jamais concluiu um estudo universitário regular. Além disso, aprendeu inglês, francês e espanhol de forma autodidata.

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Mais tarde, participou da Primeira Guerra Mundial como soldado, entre 1917 e 1920, e manteve uma integridade inabalável durante o fascismo na Itália. Ele chegou a perder seu cargo no Gabinete Vieusseux, em Florença, por ter se recusado a se filiar ao partido fascista. Em uma época de conformismo cego, seu gesto foi de uma excepcional dignidade moral.

O que mais me emociona em sua obra é o seu olhar, capaz de enxergar a beleza na simplicidade. Em um mundo de excessos, Montale usa apenas as palavras necessárias, nem uma a mais, nem uma a menos. Tudo tem propósito e razão de ser. Ele não nos oferece contextos mastigados nem justificativas, e seus finais costumam soar em tom menor, como uma música que cessa de repente. É justamente nessa contenção que reside a sua força: se explicasse demais, o efeito se perderia. Nem tudo precisa ser justificado.

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O mais fascinante é como ele constantemente nota elementos que passariam despercebidos para qualquer outra pessoa. Seja uma borboleta que aparece todos os dias no café que frequenta, trazendo a ele a esperança de ser a personificação da sua mulher amada (Farfalla di Dinard); seja um boneco de neve montado no inverno que chora, cujas lágrimas representam a própria condição de aprisionamento do ser humano (Il pupazzo di neve). Há uma grande e contínua metáfora em seu trabalho: o artista é aquele que vê além, que escuta vozes e enxerga cenas complexas, histórias e poesias que só existem para quem tem olhos sensíveis à rotina cotidiana. Ler Montale é enxergar a magia em meio às dificuldades do dia a dia.

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Em Il lieve tintinnio del collarino (Farfalla di Dinard), o autor descreve a visita à casa de um amigo a quem chama de Erasmus. O pseudônimo evoca uma figura que vive em uma ambientação quase fabulesca: uma casa isolada, cercada pela natureza, onde flamingos aparecem para o café da manhã, o mar é imóvel e sem marés, e Erasmus toca um piano propositalmente desafinado. De certa forma, a atmosfera lembra Alice no País das Maravilhas, e talvez essa mesma imagem lúdica tenha tocado Montale, inspirando o poeta a escrever essa prosa poética.

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Perspectiva de Gênova, a cidade natal do poeta italiano Eugenio Montale | Foto: Niccolò Fusaro

Na narrativa, a casa não é apenas um teto: é um refúgio protegido, onde os valores éticos permaneceram incorruptíveis e incompromissados com o regime. É um lugar diferente do resto do mundo, suspenso no tempo. Montale escreve em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial e do fascismo. Naquele reduto de Erasmus, a loucura e a morte não tinham entrada; ali, a relação com a natureza e com os animais era de puro respeito. Por isso, foi doloroso para Montale retornar para a sua própria realidade. Ele gostaria de ter ficado, mas sabia que não podia se esconder na “Torre de Marfim”, imagem simbólica da apatia de muitos poetas que se isolavam para não enfrentar a barbárie da guerra, esquivando-se de tomar uma posição ativa.

Do outro lado da janela de Montale acontecia o pesadelo que destruía a cultura e a humanidade. Enquanto isso, Erasmus preservava sua decência cotidiana e sua nobreza na simplicidade como estilo de vida, distanciando-se daqueles que colocavam os interesses próprios em primeiro lugar e se deixavam moldar pelo egoísmo.

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Essa condição humana de aprisionamento e a própria dificuldade de viver são constantes em Montale, um “negativo esperançoso”, um ateu que, paradoxalmente, acredita na salvação através do amor de uma mulher. Em La bufera e altro, ele explica que, até ali, havia conseguido manter a sua humanidade (e sim, ele foi um homem extremamente humano), mas não sabia se seria capaz de continuar, pois viver de acordo com os próprios valores significa trilhar um caminho estreito e árduo. O mundo exterior convida à mentira, pressiona e limita o indivíduo em nome do poder.

Ninguém pode ter a certeza absoluta de que nunca falhará ou se desviará da ética, mas a escolha de Montale foi justamente essa: aceitar a prisão de seguir pelo “caminho certo”. A conclusão a que chego é que uma vida que realmente vale a pena ser vivida exige sacrifícios e, acima de tudo, a capacidade de apreciar a beleza do simples.

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