Quando o sol quase frita os miolos, quando os corpos suam em bicas, quando o desconforto invade as almas, aí nos lembramos da valiosa existência das árvores. Nossa cidade ainda tem muitas, mas outras tantas foram suprimidas e praticamente nenhuma substituída, ao menos nos trajetos que percorro com muita frequência em minhas caminhadas.
Na esquina em que moramos, em torno do nosso terreno, havia cerca de dez extremosas com suas flores de variadas e suaves colorações, lindas, gerando paz, sombra e aconchego aos transeuntes e a tantas aves que repousavam em seus galhos. Hoje, apenas duas resistem, mas já com sinais de debilidade, prestes também a sucumbir. Tanto na frente como na lateral, a água da chuva, correndo por fora da tubulação, solapou a área e retirou das árvores qualquer possibilidade de vida. Elas literalmente perderam o chão.
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Uma das consequências é que a calçada acaba suspensa no ar, sem sustentação. No retorno do desfile da Semana Farroupilha, duas meninas, cavalgando sobre a calçada na frente de nossa casa, caíram bruscamente com seus cavalos num enorme buraco que se abriu. Felizmente sem consequência mais grave. Os sinais estão dados a cada momento. Onde havia quatro árvores, hoje apenas uma ainda teima em buscar sobrevivência, apesar de não haver salvação. Sua morte já está decretada.
Das quatro, duas foram arrancadas pela fúria dos motoristas que transformam nossa rua em pista de corrida, mesmo sabendo que ali há duas escolas próximas. Outra foi destroçada por um maquinista que estava preenchendo a vala aberta por uma dessas empresas de telefonia ou não sei o quê. A pá da máquina alcançou a calçada e arrancou insensivelmente a vigorosa extremosa florida. Com seu poder, amassou a árvore, recolheu com a pá, largou em cima do caminhão de apoio. Fiquei chocado com a cena, esbravejei. O maquinista fez que não me viu, não me ouviu, deixando a lacuna que nunca mais se preencheu.
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Preservar as árvores infelizmente tornou-se até questão ideológica. Lutar por elas também entrou na lista das atitudes “comunistas”. Há quem defenda sua completa supressão, em nome do progresso, do aumento da produção, dos polpudos ganhos, não importando a forma de a eles chegar, na célebre síntese maquiavélica de que os fins justificam os meios. Melhor seria se os fins contemplassem a vida, a exuberante beleza do universo.
As árvores têm importância vital não só para os seres humanos, mas para todas as formas de vida. Propiciam bem-estar, sombra, abrigo, ofertam alimentos, acolhem e protegem ninhos, “em seus galhos abrigam-se as cantigas e os amores das aves tagarelas”, dizem os versos do lindo soneto “Velho tema”, de Olavo Bilac. Árvores sugerem paz, harmonia e, mesmo nas horas das tempestades indomadas, oferecem sua proteção.
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Retomo um parágrafo de minha crônica de 29 de maio de 2023. Com o engenheiro florestal Jorge Farias aprendi a admirar o movimento das folhas das árvores. Nunca antes me dera conta de observar como são lindas e diferentes as reações dos galhos e das folhas, das variadas espécies, quando agitados por brisa suave ou por agressivo vendaval. E cantam, as folhas das árvores assobiam, cantam. Muitas vezes, só notamos as árvores quando tombam ou quando descartam folhas, quase nunca lhes damos atenção durante as dezenas de anos em que nos acolhem e protegem.
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